quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Populismo e o "NORMAL"





Dá-se o nome de populismo a toda e qualquer aliança política, que não sejam as regulares com as elites e a alta burguesia.

São chamadas de populistas as lideranças políticas que estabelecem canais e mecanismos de comunicação com diferentes camadas da sociedade, sem o intermédio dos grandes meios de comunicação "eleitos" para estabelecer tais contatos, construindo e organizando os discursos e agendas das elites, para com as grandes massas.

O que não é populismo é o "normal".

O "normal" é o que está naturalizado como "o estado das coisas". O "normal" é o que se fez entender como a "realidade". O "mundo em que vivemos". Aquilo que se considera "maduro", "razoável" e "comum" (desculpem o excesso de aspas). O "normal" é aquilo que se pode vestir. O "normal" é o que se pode falar numa roda de conversa com cavalheiros brancos ou senhoras de família. É aquilo que pode ser dito sem que ninguém da facul te considere um adorador do discurso populista.

Lutar contra a fome e a miséria, quando não coisa de comunista, é considerado mecanismo de cooptação política dos pobres por meio de auxílios, subvensões e ajuda indevida, mobilizando as capacidades políticas das massas de desvalidos, através de banalidades (como um prato de comida), tirando proveito político e mudando a normalidade da correlação de forças. É populismo. O "normal" é que existam famintos e miseráveis. Fazer o quê? Triste, porém o "normal".

Garantir (pra valer) que o pobre possa fazer universidade para se tornar um médico é coisa de populista.

Falar de soberania, defesa nacional, desenvolvimento e principalmente independência e liberdade. Deus do céu. Coisa de populista. Defender e fazer política para que as riquezas nacionais sejam utilizadas em favor do bem estar social e do desenvolvimento humano dos irmãos e irmãs que são filhos desse chão. Puta discurso populista. O "normal" é aceitar que somos menores. É naturalizar a lei do mais forte. É assumir que quem tem mais armas e mais poder deve mandar e quem supostamente é mais fraco deve obedecer gostosamente. É considerar normal a barbárie. É ser entreguista. Afinal, é isso que se ouve todos os dias nos telejornais. É isso que as pessoas razoáveis e inteligentes entendem. Falar algo que seja diferente desta convenção de aceitação é populismo.

Defender auditoria na dívida pública brasileira é populismo. Um discurso terrível que desencoraja os voluntariosos investidores que não suportam o intervencionismo do Estado. Assim como eram populistas aqueles que defendiam, há pouco mais de um século (só um século), o fim da escravidão. Assim como o comércio de escravos era a base de fomento e sustentação da economia nacional, quem hoje, em sã consciência, provocaria a ira de banqueiros e especuladores que sugam setenta por cento da energia produtiva dos brasileiros, sequestrando os Estados, a mídia, a mente dos filósofos de planilha de excel, mas em troca deixam seus capitais pernoitarem em nossas bolsas de valores. Só um populista faria um discurso contra o "normal" que já está estabelecido.

Populista é o Papa Francisco. Que critica o consumismo desenfreado, o neoliberalismo, a cultura do descartável, as guerras santas, o tráfico de armas, o imperialismo. Tudo aquilo que é tão "normal". O Papa é Populista. Mas deixem ele como um sacerdote falando das coisas do céu, enquanto nós aqui na terra continuamos cuidando do "normal". Temendo o surgimento ou o retorno de mais uma liderança "populista". Reproduzindo o discurso "normal" mesmo sem saber. Tentando fazer a política Xóvem, com carinha de prafrentex, se ocupando do que é colateral enquanto o "NORMAL", o SISTEMA, mina nossos instrumentos de solidariedade e nos impede de pensar sobre tudo aquilo que é estrutural. De avançarmos como sociedade.

Afinal de contas, pensar estrategicamente é coisa de político antiquado. Coisa de populista.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A desistência de Datena








Ao desistir da candidatura para prefeito, Datena mostra que não é bobo nem nada.
Para apresentar seu programa de atrocidades ganha uma fortuna. Perderia o salário. Seria constantemente investigado.
Na tevê, consegue se permitir ataques constantes de verborragia. Na politica o peixe morre pela boca. Uma frase errada e você dança. Vide a burrada do Russomano ano passado quando propôs meio sem pensar que a tarifa de ônibus seja mais barata para quem roda menos.
Como apresentador do show de horror ele é cortejado e adulado pela classe política. Quem esta no poder tenta negociar com ele alguma trégua para não se tornar alvo de infâmias e acusações. Alguns apanham mais que os outros. Por isso recebe tratamento VIP. Caso se torne um político, perderia todo esse privilégio e se tornaria adversário ou até mesmo inimigo. Sairia do terreno que conhece bem e entraria em solo arenoso. Provavelmente seria triturado.
Para Haddad foi uma noticia ruim. Certamente ele (Datena) tiraria muitos votos, ou mesmo fragmentaria o eleitorado conservador de oposição. No entanto, Marta permanece na disputa e promete roubar muitos votos no seu campo político.
Mas não será surpresa, caso permaneça mais uma vez a já monótona e repetitiva polarização entre PT e PSDB.
Essa polarização se mostra terrível para o país. O PSDB se conforma com o discurso fácil do antipetismo. Apela para a rejeição e o "medo do PT". Suas gestões são acomodadas e cada vez mais violentamente direitistas, com um discurso que nem sequer lembra suas raízes históricas, muito menos os principais pilares da social democracia.
Essa polarização também torna o PT cada dia mais pobre de espírito. Nivela por baixo. Acomoda. Afasta o partido de suas lutas históricas. Transforma a luta politica cada vez mais em uma disputa retórica e desencoraja as rupturas necessárias e o potencial transformador do partido.
A polarização serve muito bem as velhas e acomodadas burocracias partidárias dos dois partidos e inibe o surgimento de novas e necessárias lideranças politicas.
Datena se foi da disputa. Outros podem ir também. Ao que parece os adversários se escolhem.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A REPÚBLICA DA VILA MADALENA





A República da Vila Madalena.



Na pesquisa sobre intenções de voto divulgada no final do ano passado, o que menos chama atenção é a colocação dos pré-candidatos à corrida eleitoral de 2016.

Ainda é muito cedo para traçar prognósticos definitivos e os 12% de intenções de voto para o atual prefeito pode ser considerado até um bom número se levarmos em conta o momento político e as dificuldades da atual gestão. O número é razoável e a tendência das candidaturas oficiais é de crescimento após o início da campanha na tevê e avaliação mais paciente e criteriosa do eleitorado. Não são poucas as eleições em que os candidatos da situação começavam a corrida com números ruins e depois consagraram suas reeleições.

Merece destaque, no entanto, alguns dados referentes à avaliação da gestão do Prefeito Fernando Haddad.

Os mais interessados em compreender e até intervir no cenário eleitoral deveriam verificar a rejeição crescente do Prefeito Haddad entre as camadas mais pobres do eleitorado, sobretudo nas periferias da cidade. Curiosamente, a parcela do eleitorado onde o prefeito recebe maior intenção de voto, é entre o eleitorado com maior poder econômico, ainda que esta seja também a camada onde existe maior rejeição e antagonismo à atual gestão.

As eleições presidenciais de 2014 já evidenciaram a perda de apoio do PT em regiões importantes das periferias da cidade. Dilma perdeu em colégios eleitorais que tradicionalmente votaram em peso nos candidatos do PT.

Claro que cada eleição tem uma características e agendas diferentes. Verdade também que a candidata Dilma é diferente do candidato Haddad. Porém, é temeroso não olhar com atenção o indicativo que veio das urnas.

Ainda que curioso, é compreensível que justamente no eleitorado com maior poder econômico a avaliação de Haddad seja melhor.

Ora, os debates e enfrentamentos políticos da atual gestão fazem muito mais parte do universo de experiências cotidianas dos cidadãos de classe média para cima. Ainda que Haddad seja em grande medida odiado por parte desse eleitorado, é justamente ali onde está sendo travado o debate. Compreensível também que nesta camada ganhe algum apoio.

É evidente que discussões sobre a hierarquia no transporte, limite de velocidade, faixas exclusivas, ciclovias, intervenções artísticas no espaço público, entre outras, são de interesse e recaem diretamente sobre a qualidade de vida da população pobre da cidade, sobretudo quanto as políticas públicas de beneficiamento do transporte coletivo.

É importante também destacar que existem outras ações da prefeitura, como em saúde e educação por exemplo, que vão além daquelas que são mais notadas, criticadas, abordadas e noticiadas pelos grandes meios de comunicação. Mas é burrice desconsiderar que o Prefeito Haddad não terá como marca consolidada nessa gestão a construção das ciclovias. A restrição aos veículos de passeio, sejam por conta dos corredores e faixas de ônibus, seja também pela redução de velocidade também é outra marca importante.

Quem se propõe a ser um agente transformador na política tem que deixar de ser torcedor de partido A ou B e olhar com alguma frieza e distanciamento as circunstâncias que estão postas, ainda que estas causem algum incômodo. Em outras palavras, não dá para mentir para si mesmo.

Cabe algumas perguntas: as ações da prefeitura para as periferias da cidade são sensíveis para essa camada da população? Existe convergência entre o discurso e a comunicação institucional e a percepção das populações mais pobres sobre as políticas públicas da prefeitura para as periferias? O discurso político do prefeito tem aderência entre o eleitorado mais pobre? O discurso do prefeito reflete o universo de preocupações do eleitorado mais pobre? O prefeito tem se empenhado em “falar com o povo”? O prefeito tem visitado as periferias ou fará isso somente no período eleitoral? O prefeito gosta de “botar o pé no barro”?

Para além das “marcas” da gestão de Fernando Haddad, que são muito importantes, corajosas e transformadoras, é possível dizer que sobra pouca coisa que tenha impacto no eleitorado outrora cativo do PT na cidade. Pode-se dizer, com algum pesar, que das três gestões do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, esta é a que deixa marcas mais opacas e políticas públicas que possivelmente serão menos reconhecidas entre os mais pobres.

Haverá quem diga que ciclovia não é coisa de rico. Verdade. Que a restrição aos veículos de passeio e que a reorientação da hierarquia no transporte sejam de benefício direto para os moradores da periferia. Outra verdade. Porém, a política não se faz esperando apenas que os outros te entendam. É preciso se fazer entender.

É preciso também ganhar apoio da sociedade para tocar os grandes processos de transformação. Claro que existe em São Paulo um ranço reacionário e conservador. Porém, muitas vezes é melhor disputar espaço, convencer, fazer política e tentar aderência para que os ganhos sejam permanentes. Melhor do que irritar a população e resolver as coisas de cima para baixo. Põe-se a perder as grandes conquistas na mesma velocidade com que estas são implementadas.

Ainda que o aumento nas tarifas de ônibus seja uma necessidade orçamentária frente as perdas com a inflação e os asfixiantes subsídios que a prefeitura paga aos tubarões do transporte público, o momento político não podia ser pior para essa verdadeira paulada na tarifa.

Ao que parece, Haddad não aprendeu nada com 2013.

O Governador do Estado finge estar preocupado com sua parcela de “contribuição” para os protestos de rua. Mas, na verdade, a truculência da polícia cria o caldo para a combustão social necessária para colocar o povo na rua “contra o PT”. Alckmin sabe que pouca coisa “pega nele”. Sabe que recebe tratamento carinhoso da grande imprensa. Sabe que não é o mandato dele que será julgado esse ano. Sabe que povo na rua foi o que faltou para animar as tentativas de impeachiment no final do ano passado. Sabe que ao descer o porrete no povo, aumenta a mágoa dos movimentos populares e a percepção de que a vida urbana é insuportável pra quem é pobre.

Fernando Haddad é um dos prefeitos com maior e melhor conhecimento intelectual que já tivemos nessa cidade. Perto de outras figuras que fizeram história por aqui ele “flutua”. Mas, flutua demais.

Haddad é honesto, corajoso e inteligente. Porém não consegue ampliar sua visão para além do mundo que ele conhece. Ao que parece governa de olho na Vila Madalena.

Os debates oriundos da gestão de Haddad são importantíssimos para a cidade. Talvez, no futuro ele seja reconhecido por ter enfrentado essas questões. Porém, enquanto ele parece querer se consagrar no que se pode chamar de “esquerda moderna” o bicho está pegando pra valer. Ainda tentamos superar a São Paulo do século XIX. Para nós, é uma delicia discutir com quem tem uma visão limitada e retrógrada sobre o que é a gestão de grandes cidades. É fácil para quem está na universidade, que teve a chance de viajar e conhecer outras experiências de cidade e contar tudo isso nos bares da vida. É divertido chamar um reaça de coxinha.



Mas falta o beabá da política para essa gestão. Falta falar com o povo. Esse aumento da tarifa foi um soco na boca do estômago. O Haddad tem que sair da Vila Madalena mental a qual ele está submerso e ao menos deixar de desprezar importantes interlocutores que podem ajudar nessa tarefa e apoiar sua gestão que chega agora ao crepúsculo. É preciso ganhar apoio, não mais perder.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Horda de Mauricinhos Perseguindo Chico Buarque






Um bando de mauricinhos babacas (tudo cuzão) se sentiu no direito de cercar o Chico Buarque de Holanda no meio da rua, com aquela abordagem burra, como de costume.
Cobravam o fato dele "apoiar o PT".
O Chico ainda respondeu com paciência: "mas é minha opinião".
Gastou o tempo e a energia dele dando atenção para aquela gangue.
A turma do bullyng, educada desde sempre para fazer valer, nem que seja na porrada, o seu ponto de vista, odeia a igualdade, mas também não sabe conviver com as diferenças.
O mais exaltado cobrava o Chico com veemência por ele supostamente morar em Paris.
Puta que pariu.
Logo eles vão cobrar isso do Chico?
Uma horda que desde sempre rejeita, odeia, nega e despreza o Brasil.
Qual problema se caso o Chico vivesse em Paris? Eles não saem de Miami...
Nem conseguem viajar para algum lugar em que o conhecimento histórico e cultural sejam relevantes. Não podem parar para pensar durante dois minutos porque a cabeça não tem substância.
Não suportam conhecer nada que seja muito diferente de um shopping center ou uma paisagem de cartão postal pra postar no Insta.
Não sei se o Chico vive em Paris. Mas caso viva, tem seus motivos. Trombar com esse Zé Povinho metido a Socialite falando bosta deve ser muito brochante mesmo.
Vivendo no Rio ou vivendo em Paris, ninguém pode impedir o Chico de falar sobre os problemas do Brasil. Até porque, poucas pessoas conhecem tanto sobre o Brasil como o Chico Buarque.
O Chico é de família real. Seu pai foi o intelectual que talvez melhor tenha explicado as raízes do Brasil contemporâneo. E diga-se, permanece absolutamente atual.
Poucas pessoas falam tão bem sobre o Brasil como o Chico.
Ninguém pode ser mais importante na cultura brasileira como o Chico.
Nesse país onde a burrice parece ser tão adorada, o Chico é um respiro de integridade. É um brasileiro para se olhar e se ouvir e sentir-se melhor por ter nascido aqui.
Que violência!
Esses merdas deveriam reverenciar o Chico.
Quisera eu ter passado na mesma calçada que o Chico.
Quisera eu ter a chance na vida de ter cinco minutos de prosa com o Chico.
Esses playboys tiveram essa chance. E deperdiçaram, como fazem com tudo aquilo que a vida lhes deu. Não valorizaram.
Não por acaso o Chico se tornou um alvo tão odiado.
Para o triunfo da estupidez, da imbecilidade e do tacanho, torna-se necessário primeiro destruir o que é integro e virtuoso.
A simples existência do Chico denuncia de maneira factual e explicita a ignorância dessa gente.
O Chico sem fazer muito, revela de maneira avassaladora e insuportável para eles, a pobreza de espirito dessa classe.
O Chico pertencer a elite (viver em Paris) e manter sua postura e sua posição política, não caindo de joelhos para beijar a mão e ganhar o afago desses que se acham os reis do mundo, agride, pois deixa evidente como "eles" são desimportantes. Como toda essa bosta que eles valorizam não serve de nada.
Que mesmo acumulando todo o dinheiro do mundo, "eles" permanecerão pobres. Muito pobres. Porque são pobres de espirito.
Salve Chico Buarque de Holanda.
Não liga pra esses merdas.
Nós te amamos muito, Chico

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Muito Além



Para além de toda mesquinharia cotidiana existe um lugar de generosidade e altruísmo.
Para além dos coices amargurados, existe o lugar dos sorrisos largos, do conforto que se encontra na doçura, nos abraços apertados.
Para além de tanto tormento e angústia, existe um lugar onde o sono é tranquilo e pesado. Onde se dorme esparramado, com os braços jogados para cima e a boca aberta, feito criança.
Para além do caos e a sensação de que tudo vai explodir, existe um lugar onde o cheiro de comida caseira invade todos os espaços, ocupa a sala, o quarto, o coração e a vida.
Para além dos saltos e dos pulos para escapar das rasteiras do dia-a-dia, existe um lugar onde habita a confiança, a amizade, a consideração, os celulares que dormem tranquilos sem o medo de serem violados, os olhos nos olhos, o desapego, a harmonia.
Um lugar com vestidos floridos e alegres. Vestidos simples, mas acompanhados de um valioso brilhante que se usa dentro do olhar, combinando com o sorriso ancho.
Um lugar que rola um samba antigo falando de amor.
Um lugar com cheiro de areia, mar e protetor solar.
Um lugar pra se corromper a noite. A boemia. As sacanagens. Os pecados perdoáveis. Os pileques. A música de preto.
Um lugar onde não se passa perfume para dormir. Nem creme. Só pele com pele. Seios fartos. Alma lavada. A carteira com o cartão do banco guardada em algum canto. Eles já não são tão importantes assim. Nem o extrato do banco. Nem o saldo para fazer a conta se mais foi amado ou mais está amando.
Deixa tudo pra lá.
Tem coisa muito melhor na vida da gente.
Logo mais haverá um conto erótico no pé do ouvido.
Num lugar que vai muito além de tudo que é chato e opressivo. Que não é perto nem é longe. Ele só vai além. Muito além.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

25 anos do 1º Campeonato Brasileiro em 1990

A molecada talvez não saiba. Talvez não se dê conta.

Depois do sexto campeonato brasileiro, somado aos três da Copa do Brasil, Libertadores e os dois Mundiais, fica difícil mesmo explicar como era difícil para o Corinthians ganhar um título para além do estado de São Paulo até 1990.

Havia quem dissesse que a culpa era do nome. Corinthians Paulista nos condenaria a ficarmos eternamente restritos às conquistas regionais.
E comemorávamos muito o Campeonato Paulista. Valia muito mesmo.
Era tudo muito mais simples. Pra gente, durante muito tempo, talvez nem fosse tão importante como é hoje ganhar esses campeonatos “distantes”.
O mundo era muito maior. A gente não dizia: “vou à praia”. A gente viajava para “Santos”. “Santos” era como se chamava todo o litoral paulista antigamente, desde Peruíbe até Ubatuba. Era solene. Importante. Na volta das férias a gente fazia um desenho para a professora escrito: “MINHAS FÉRIAS EM SANTOS”
E no Corinthians que aprendemos a amar, a realidade era mais simples ainda. O clube era bem simples. Nas alamedas do Parque São Jorge os senhorezinhos falavam com aquela voz de Adoniran Barbosa.
Hoje em dia, se o Corinthians passar dois anos sem ser campeão já é crise. 
O Setor Oeste de Itaquera, muda de cor a cada camisa nova que a Nike lança. Antigamente, camisa do Corinthians, comprada na loja ou no camelô, era feita pra durar. A gente usava até o tecido ficar parecendo uma lixa. A camisa ficava desbotada, cheia de bolinhas. No segundo-tempo do jogo, a gente suava e aquele pano fervia e dava uma fedentina desgraçada. Mesmo assim, a gente abraçava o amigo na hora do gol. Colocava e recebia aquele sovacão no meio da cara.
Em 1990, a camisa do Corinthians produzida pela “Finta” ganhou uma golinha preta. Já era uma variação. 
O time tinha o Ronaldo que era um monstro. Uma força da natureza corinthiana. Quem jogasse bola na rua, aceitava ser goleiro só pra fazer uns malabarismos, dar um salto e gritar: ESPAAAAAAALMA RONAAAAALDO! 
Tinha o Giba que era ótimo. Hoje seria seleção. O Marcelo era de família corinthiana. Grande Zagueiro. O Márcio não perdia viagem. Era folgado. Corinthiano. No ataque tinha o Fabinho de ponta direita. Hoje o Fabinho seria titular de qualquer time. Era rápido, habilidoso e principalmente esforçado. O Fabinho tinha habilidade, mas não era firulento. Era mais raçudo mesmo. Incansável. O Dinei era feito no terrão. O Mauro de ponta esquerda era meio grosso, mas tudo bem. Jogava para o time. O Tupãzinho jogava muito. Em todas as posições. Conseguia ser decisivo sendo titular ou entrando no segundo-tempo. Era minúsculo, com habilidade maiúscula. O Wilson Mano era como se fosse um torcedor jogando. Parecia que tinha saído da arquibancada direto para o campo. Não se parecia com um jogador profissional. Não tinha cacoete. Mas era aplicado ao máximo. Tinha estrela. Era como se a gente tivesse entrado em campo arrumasse um jeito pra ajudar o time com o recurso que fosse possível. Foi assim que o Mano fez o gol de joelho no primeiro jogo da final. Se não desse de joelho, seria de algum outro jeito. A bola tinha que entrar. E entrou. Graças a Deus.
O Neto era uma espécie de redentor. Ele já era um craque reconhecido quando veio para o Corinthians. Um cara com personalidade forte, meio problemático, que os técnicos não gostavam. Mas um craque. A gente não teria dinheiro para contratá-lo. Veio parar numa troca com o Palmeiras, porque o Leão queria se livrar dele. Um negócio improvável. Por isso que deu certo.
Ele entendeu como quase ninguém o que significa ser ídolo no Corinthians. Ele se forjou como ídolo. Como ele já era Corinthiano, sabia muito bem o que deveria fazer. A diferença do Neto para os outros ídolos talvez seja essa. Ele queria ser ídolo no Corinthians. Não era blasé. Não estava fazendo escada para a Europa. Não via o futebol com indiferença. Não se ressentia dos apuros de ser ídolo do Corinthians. Não tinha medo da torcida. 
O Neto jogou muito em 1990. Muito! O Neto está para o Corinthians em 1990, assim como o Maradona está para a Argentina em 1986. Não é exagero dizer que o Neto ganhou o campeonato para o Corinthians.
Quartas de final contra o Atlético Mineiro. Jogo no Pacaembu. Precisávamos ganhar. Começamos perdendo. O Corinthians mais uma vez perderia para qualquer time nacional e ficaria de fora da disputa pelo Brasileiro, que seria conquistado por qualquer outro protagonista acostumado com esse campeonato. Talvez, ainda não tivéssemos superado totalmente os 23 anos de fila.
Não acho que havia só zica. Tirando o time da Democracia que, de verdade, consolidou o Corinthians como um clube nacional, tínhamos realmente times inferiores aos demais esquadrões nacionais nas décadas anteriores. 
Durante o final da década de 80 se ouvia dos rivais no estádio:
“ERO ERO ERO, CABAÇO BRASILEIRO”.
Perdendo de 1x0 para o Atlético. Parecia que a sina iria se repetir. O Nelsinho iria tirar o Neto. Ele foi ao ataque para um último lance. Já pensou se ele tivesse saído antes? Neto foi para a área com a vontade dos deuses. Subiu de cabeça como nunca. Mandou pro fundo das redes. É gol! Vai Corinthians. Vamo que dá…
Neto faz um lançamento absurdo. Ele estava na linha direita bem no meio de campo. Lançou a bola para a ponta-esquerda. Incrível o lançamento. A bola caiu no pé do Paulo Sérgio. Bom jogador também. O Neto Atravessou o campo. Correu muito. Entrou na grande área. A bola cruzada veio para o Tupãzinho. Escapou. Não dominou. Sobrou inesperadamente para o Neto que fuzilou. Puta que pariu foi gol! Que gol! O Pacaembu veio abaixo. Gritos que saiam do fundo da alma. Gritos que brotavam direito do peito. Nem passavam pela garganta. Meu Deus, foi gol!
Contra o Bahia foi a mesma coisa. O Neto arrasou. Fez o gol de falta que nos colocou na final do Campeonato Brasileiro, revertendo a segunda vantagem, já que nos classificamos em oitavo, quase havíamos ficado de fora.
Já falei do gol do Wilson Mano, no primeiro dos jogos da decisão.
Na última final contra o São Paulo, que tinha um time tecnicamente melhor que o do Corinthians, repleto de jogadores que vieram a ficar posteriormente consagrados, a conquista já parecia mais materializada.
Eu tinha 14 anos. Só falava de Corinthians. Só pensava no Corinthians. Com 14 anos o menino não é mais criança. Também não é adulto. Naquela época, o moleque dessa idade não tinha porra nenhuma. Não tinha nem celular, nem computador pra criança. Nada. Era só o Corinthians dia e noite. Mais nada.
Assisti o jogo ao lado do meu pai. Neto tocou para o Fabinho. Ele foi costurando na entrada da área e soltou a bola para o Tupã. Ele enfiou a bola no meio das canetas do Ivã, um zagueiro muito grosso do nosso eterno freguês. Tupã generosamente devolve a bola para Fabinho. Ele chuta ao gol meio espremido. O Zetti defende. A bola sobra de novo para o Tupanzinho que de carrinho, se esticando todo, empurra a bola para dentro do gol. Que emoção. Saia muita água dos meus olhos. Olhei para o meu pai. Ele chorava e me dizia:
“Você tá pensando o que, filho? Pra mim também é a primeira vez que eu vejo o Corinthians Campeão Brasileiro”.
Eu choro agora de novo, só de lembrar. Vencemos! Era verdade. Não era sonho.
Foi tão importante aquele campeonato. Eu vibro como se fosse hoje. Volto aos catorze anos.
O Corinthians tem esse poder. De nos manter meninos. 
De fazer quem não tinha nem nascido, chorar “lembrando” daquele 16 de Dezembro de 1990 no Morumbi. Vinte e cinco anos atrás.
Mal sabia que essa data se tornaria mais sagrada ainda. Não podia imaginar naquela altura da minha vida que duas décadas depois eu estaria no Japão vendo o Corinthians ser Campeão do Mundo.
De certo, que os desafios de 2012 também estavam impostos em 1990. Talvez com maior grau de dificuldade.
Não existe nem existirá tarefa inalcançável para o Corinthians. 
Os desafios surgem e a gente supera.
Não existe nenhuma luta que a força do nosso povo unido não possa vencer.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Primavera Paulista



Que linda foi essa primavera.
Molecada. Continuem atentos. Há muitas outras conquistas ainda por vir.
Claro que já planejam tantos outros males.
Mas aproveitem para saborear o gosto dessa vitória. Um passo de cada vez. Assim se vai longe.
Hoje tem que ter festa em cada escola ocupada.
Desfrutem essa sensação maravilhosa.
Dêem-se ao luxo de todas as delicias da juventude. 
Pra esbanjar o privilégio de todas as imaturidades possíveis.
Estufem o peito e segurem esse ar cheio de pureza que ainda habita no coração de vocês.
Mantenham-se entorpecidos de esperança. Acreditem nas grandes causas. Contrariem todos os pessimistas e decepcionados.
Namorem bastante essa noite. Vivam todas as delicias da liberdade. Não permitam jugo nem sobre o destino, nem sobre o corpo de vocês.
Desafiem todos os senhores. Não existem senhores.
Ainda que amanhã seja diferente, aproveitem o hoje. O único tempo que de verdade existe.
É preciso desperdiçar todas as energias. Não guardem nada para o futuro. Não adianta.
Que vitória gostosa.
Que momento especial.
Confesso que sinto saudades.
Aproveitem tudo o que puderem.
Pois a luta continua.