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sexta-feira, 20 de maio de 2011

100 dias de governo Dilma (11-04-11)

Os desafios de Dilma

O governo Dilma completa 100 dias de mandato.
Desde a posse de Lula em 2003, passaram-se 100 meses de uma administração que se propôs a mudar o Brasil.
Mas as principais e verdadeiras transformações não se dão somente pela troca de comando. Elas dependem de arranjos políticos permanentes.
Não estou falando somente de barganhas e favores. Existem disputas entre grupos de interesses que oscilam entre o equilíbrio e o desequilíbrio.
A elite não é uma classe homogenia. Na medida em que determinado grupo político ou econômico ganha força, maior é seu poder de interferir no processo decisório.
O desempenho pessoal de Dilma foi positivo. Surpreendeu aos que não conseguiam ver sua figura política dissociada do ex-presidente Lula. Dilma têm se mostrado segura e centrada. Embora não possua os mesmos recursos de comunicação de Lula, a presidenta aparenta ter objetivos, prioridades e um modo próprio de comandar.
Mas, normalmente, os primeiros dias de governo são momentos de lua-de-mel com o poder. É quando os opositores ainda desenham suas estratégias de combate, esperando o tempo adequado para não parecerem negativos e revanchistas. Mas daqui em diante, os desafios de Dilma serão imensos.
Sob o ponto de vista político, Dilma terá de lidar com uma oposição que procura se reorganizar em torno de novos nomes e novos paradigmas.
Durante o governo Lula, a oposição, com quadros políticos sofríveis, cometeu erros estratégicos, levando um “chocolate” do governo.
Durante a crise do mensalão (2005), a estratégia era esperar para matar Lula na campanha eleitoral. O desempenho pessoal de Lula e a incapacidade do PSDB em se unificar diante da candidatura de Alckmin, além do discurso insuficiente do “moralismo político”, facilitaram a vida do governo.
No segundo mandato os erros foram ainda maiores. A oposição fez um cálculo estratégico de que embora a aprovação pessoal do presidente fosse alta, jamais Lula teria fôlego para eleger a ainda desconhecida Dilma. A população fatalmente optaria por um dos candidatos tucanos, supostamente mais preparados para a disputa.
Ao antecipar para 2007 a escolha de sua candidata, Lula impediu que sua base de apoio se esfacelasse em meio à guerra pela indicação do presidente. Já a oposição, deixou de fazer oposição. Preferiu não enfrentar a popularidade e astúcia do presidente e assumir os avanços de seu governo, concentrando seus esforços em eleger o “pós Lula”. Essa atitude ajudou a mitificar para sempre a figura de Lula.
Mas agora a oposição promete agir. Seu principal líder será Aécio Neves. É bem verdade que será necessário mais do que vontade. Será preciso elaborar um discurso mais abrangente, que vá além das classes médias urbanas. Por isso, enquanto o programa da oposição não consegue ser criativo, ele tende a ser reativo.
E é a economia o ponto mais sensível do governo Dilma. Sobretudo, por conta da recente alta de preços. A inflação volta a tirar o sono dos brasileiros. Mas é importante entendermos as raízes deste problema.
1-    Em 2009 e 2010 o governo fez um esforço gigantesco para manter aquecida a economia e evitar que o Brasil entrasse em recessão, por conta da crise mundial. O Estado procurou suprir a demanda privada, aumentando seus gastos. Isso não viria sem custos. Por mais que seja desconfortável a alta dos preços, seria muito pior se o Brasil interrompesse seu ciclo de crescimento com uma nova recessão e conseqüente aumento no desemprego.
2-    Existe uma inflação internacional. Países como China e EUA também tem sofrido esta pressão. Primeiro pela alta de preços das commodities, produtos como alimentos e minérios nunca tiveram preços tão altos no mercado internacional. Depois por conta da enxurrada de Dólares americanos nas economias globais. Para superar a crise econômica e competir com os produtos chineses no mercado mundial, os EUA injetaram centenas de bilhões de dólares mundo afora, também para desvalorizar sua moeda. É a chamada guerra cambial.
3-    E desvalorizar o Real frente ao Dólar não é tão simples quanto parece. É claro que o Real mais barato facilitaria o setor exportador e as contas externas brasileiras. Mas boa parte dos produtos que tiveram seus preços aumentados nos últimos meses, como a carne e o etanol, por exemplo, se deve ao fato de que as empresas preferem exportar sua  produção por ser mais vantajoso do que abastecer o mercado interno. Ou seja, ao contrário do que se diz, a desvalorização do Real provocaria de imediato uma alta geral dos preços para os brasileiros
4-    As medidas do governo nos últimos dezesseis anos são sempre para frear ou aquecer o consumo. O Brasil não consegue crescer mais porque os investimentos em infra-estrutura foram muito menores do que o necessário nos últimos governos. Não temos como escoar nossa produção e como não é possível vender mais, os preços ficam mais caros. É preciso aumentar o investimento.
Como se vê, a tarefa não é fácil. Os desafios sempre existem. Além de competência, Dilma precisará fazer as escolhas políticas corretas, apostar no desenvolvimento do Brasil e saber se livrar dos chacais e aves de rapina que estão mais perto do que parece. Estes são muito mais hábeis do que aqueles que se posicionaram assumidamente na oposição. Muitas vezes o inimigo mora ao lado.

Violência e Exibicionismo (08-04-11)



Vou evitar atribuir mais adjetivos ao assassino do Realengo.
Até porque de ontem para hoje o estoque foi quase que totalmente gasto: genocida, maníaco, psicopata, louco, animal, cretino, etc.
O que o mundo todo tenta entender é o porquê deste tipo de crime. Ninguém até hoje conseguiu explicar. E não sou eu que teria tal pretensão.
Mas podemos refletir sobre alguns aspectos.
Quem comete um ato desta natureza está buscando reconhecimento. Talvez uma visibilidade que nunca lhe foi ofertada, ou mesmo que ele jamais percebeu.
Foi uma atitude exibicionista. Uma extravagância. Vinda de um indivíduo tímido e retraído que não lograva se posicionar. Certamente, uma pessoa que tinha dificuldade em lidar com sua imagem pública. Em como se é visto pelo outro.
E nos dias de hoje, em que as ações coletivas são diminuídas, os empreendimentos individuais ganham uma importância atormentadora.
Não se vive mais para o exército, para o clube, para o partido, para a família, para a pátria ou para a escola.  As pessoas vivem para si mesmas. Para seus corpos que devem ser esculpidos. Para o sexo em cada subcategoria de prática ou de orientação. Para suas carreiras. Até mesmo a prática religiosa está ligada a uma salvação individual. Reza-se por uma melhoria na própria condição de vida. Espera-se uma redenção pelos seus próprios pecados, cometidos ou não.  
A atitude individual e o exibicionismo são os canais por onde se busca a satisfação humana.  Mas, os projetos individuais e o consumo, não são suficientes para garantir a felicidade. As pessoas precisam de mais. A depressão já é uma epidemia.
 Existe uma pressão para que a personalidade seja elevada a um lugar de destaque.
Desde criança se aprende isso. Na escola já existem as categorias dos vencedores e dos perdedores. Dos aceitos e dos rejeitados. Dos fortes e dos fracos. Constroem-se estigmas que alguns convivem por toda sua vida. Desde pequeno se aprende a perseguir ou ser perseguido. A punir ou ser punido.
O homem queria punir, perseguir, se vingar. E principalmente, buscava o reconhecimento social. Queria exibir seu potencial ofensivo que (para ele) seria legítimo, por sua pureza e castidade. Puniu, sobretudo, as meninas.
Este não é um discurso contra o individualismo. Ao longo da história muitas loucuras também foram executadas em nome da coletividade. Mas podemos refletir sobre as transformações do nosso tempo que não são somente benfeitorias tecnológicas.
Por que este tipo de evento vem ocorrendo de uns tempos para cá? Ora, os indivíduos reproduzem os modelos que estão disponíveis na nossa sociedade. É o famoso “alguém deu a idéia”. Uma espécie de “holocausto, faça você mesmo”.
E o mais assustador é que não há ações preventivas para evitar este tipo de coisas.
Pelo menos, não no âmbito das políticas públicas de segurança.