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sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Morte do Consenso de Washington (04-04-11)

O FMI decretou hoje a morte do Consenso de Washington.
Depois da crise financeira de 2008, que devastou a economia mundial, o Estado deve exercer um papel maior e controlar os excessos do mercado, segundo o discurso do diretor-gerente do fundo, feito na Universidade George Washington, na capital americana
"O Consenso de Washington tinha uma série de lemas básicos: regras simples para a política monetária e fiscal, que previam garantir a estabilidade, a desregulação e a privatização, liberalizando o crescimento e a prosperidade, e os mercados financeiros canalizariam os recursos para as áreas mais produtivas", explicou Strauss-Kahn.
"Tudo isso caiu com a crise. O 'Consenso de Washington' já é passado", completou.
O Consenso de Washington, propagado no final dos anos 80 até a década de 90 do século passado se configurou como uma série de medidas sugeridas aos países em desenvolvimento para modernizarem suas economias a partir da diminuição da capacidade de regulação do Estado, favorecendo o ambiente para os negócios. Os Estados deveriam diminuir sua interferência sobre os mercados, flexibilizar suas legislações consideradas excessivamente protecionistas e apoiar as privatizações. Desta forma, seria possível aos Estados estabilizar suas moedas canalizar os recursos financeiros para setores onde sua participação seria mais necessária.

O consenso original de Washington de 19891
Disciplina fiscal. Altos e contínuos déficits fiscais contribuem para a inflação e fugas de capital.
Reforma tributária. A base de arrecadação tributária deve ser ampla e as MARGINAL TAX RATES moderadas.
Taxas de juros. Os mercados financeiros domésticos devem determinar as taxas de juros de um país. Taxas de juros
reais e positivas desfavorecem fugas de capitais e aumentam a poupança local.
Taxas de câmbio. Países em desenvolvimento devem adotar uma taxa de câmbio competitiva que favoreça as
exportações tornando-as mais baratas no exterior.
Abertura comercial. As tarifas devem ser minimizadas e não devem incidir sobre bens intermediários utilizados como
insumos para as exportações.
Investimento direto estrangeiro. Investimentos estrangeiros podem introduzir o capital e as tecnologias que faltam no
país, devendo, portanto ser incentivados.
Privatização. As indústrias privadas operam com mais eficiência porque os executivos possuem um “interesse pessoal
direto nos ganhos de uma empresa ou respondem àqueles que tem.” As estatais devem ser privatizadas.
Desregulação. A regulação excessiva pode promover a corrupção e a discriminação contra empresas menores com
pouco acesso aos maiores escalões da burocracia. Os governos precisam desregular a economia.
Direito de propriedade. Os direitos de propriedade devem ser aplicados. Sistemas judiciários pobres e leis fracas
reduzem os incentivos para poupar e acumular riqueza.


Ao final dos anos 90, países como o México, Rússia, Brasil e Argentina viveram graves crises econômicas.
 A partir da abertura de seus mercados e a “desregulação” de suas economias, inicialmente foi possível para alguns países estabilizarem suas moedas. A diminuição nos índices de inflação possibilitou, em um primeiro momento, a melhoria nas condições de vida das populações, a partir do aumento da capacidade de compra.
No entanto, as medidas sugeridas no Consenso de Washington, ocasionaram a quebra dos setores produtivos nacionais que foram negligenciados em detrimento do capital especulativo financeiro, que se tornou (irresponsavelmente) o combustível das economias dos países emergentes.
Ao perceberem que as economias emergentes não poderiam suportar por muito tempo o financiamento de seus títulos  e a rolagem de suas dívidas, houve uma fuga em massa dos capitais aplicados nas bolsas.
O resultado foi uma grave recessão econômica. O FMI que hoje decretou o fim do Consenso de Washington, através do discurso de seu diretor-gerente Dominique Strauss Kahn, na ocasião da crise dos anos 90, condicionou os empréstimos aos países emergentes à adoção de “metas inflacionárias” que representavam importantes cortes nos gastos e investimentos destes países. Foram anos de desemprego e de estagnação econômica. Algumas economias, como a Argentina, jamais se recuperaram totalmente.
A crise mundial de 2008 tem mostrado ao mundo que a falta de regulação do Estado foi decisiva para o desmantelamento das economias mais importantes do globo. O discurso de que o mercado auto-regula se enfraqueceu, talvez de forma definitiva.
Países europeus na tentativa de superarem a grave crise em que estão submetidos apelam para medidas de arrocho e controle dos investimentos públicos. Para cobrir o rombo deixado pelos especuladores, os Estados foram chamados para pagar a conta. Agora, com o aumento de seu endividamento recorrem ao velho receituário neoliberal que, já vimos, é incapaz de fazer superar a estagnação econômica.
Nenhum chefe dos Estados mais ricos do mundo foi capaz de propor transformações sérias em seus sistemas econômicos.
Primeiro porque não conseguiram reunir condições políticas para contrariar os interesses de suas elites econômicas. Obama bem que tentou salvar o capitalismo estadunidense, mas tem sofrido graves revezes e corre o risco de sair do governo humilhado pelos setores mais conservadores.
Segundo porque existe neste momento especial da história uma transitória crise no pensamento político conservador dominante.  
Não existe uma agenda política da direita internacional. O combate ao comunismo já virou um pastiche perdido em meio ao saudosismo retrô das décadas passadas. E a agenda da liberalização econômica parece estar desbotando. O discurso do diretor-gerente do FMI parece ser mais um importante indício deste momento.
Está aberta uma janela de oportunidades para o Brasil. Devemos acelerar decisivamente rumo ao desenvolvimento. É preciso coragem! 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Para minha mãe

Estava deitado na poltrona. Minhas pernas ainda não eram grandes de forma que eu consegui deitar horizontalmente com a cabeça apoiada num braço da poltrona e meus pés em outro. Minha mãe acordou-me com um sorriso brilhante que me fazia entender, ainda que tivesse apenas quatro anos, a sua imensa felicidade. Não havia dúvidas que era um sorriso de profunda satisfação.
 Dei-me conta que estava com uma roupa diferente. Um short vermelho acompanhado de uma camisa branca. Era o meu primeiro dia na escola. Agora sim me lembrava. Minha mãe me despertou absurdamente cedo, me vestiu e me serviu uma mamadeira na poltrona onde me deitei. Mamei durante muito tempo. Minha mãe me protegeu durante muito tempo.
Não sei por que essa é a minha lembrança mais remota. Na verdade, não me lembro de mais nada daquele dia. Sequer me lembro da primeira professora. O que ficou na minha mente para sempre foi o sorriso da mamãe. Sem dúvidas era aquele um momento solene.
Disse que acordei absurdamente cedo porque desse dia em diante sempre tive que acordar cedo, com raras exceções. Essa é nossa vida.
E lá fui eu. Rumo à escola. Rumo ao trabalho. Rumo á vida longe da saia da mamãe. Nada pode ser mais confortável do que os cuidados da nossa mãe. De resto tudo parece ser uma agressão. Inclusive os momentos que hoje entendemos como felizes. O Simples fato de nos arriscarmos em busca da felicidade é estupidamente desconfortável. Descobrimos outras formas de satisfação, mas nada se compara a plenitude do amor materno. Mas temos que seguir em diante e encarar o mundo.
Acho que as mães devem se sentir traídas pelo abandono dos filhos. Na verdade não é um abandono, mas unilateralmente decidimos não mais aceitar os beijos públicos e os mimos dengosos. Mas a vida é tão difícil que de alguma forma nos endurecemos para criar cascos capazes de nos proteger de um mundo que seria incapaz de proporcionar o mesmo bem-estar do colinho de mãe.
Mamãe, difícil encontrar um presente para você tão acostumada a se doar que chega a estranhar quando recebe algo.
Então eu posso dizer a você que sou um homem feliz. Faz tempo que eu preciso te dizer isso. Eu sou uma pessoa feliz. Fiz um montão de coisas bacanas, tenho bons amigos, trabalho com o que gosto e aprendi a estabelecer um modo de vida que me agrada. Descobri uma porção de coisas que me dão prazer e consigo passar a maior parte do tempo alegre e satisfeito.
E tudo o que consegui na vida foi graças à segurança proporcionada pelo seu amor. Enfrentei o medo das entrevistas de trabalho, das reuniões, das provas, das mulheres as quais me declarei e o medo da rejeição ao falar em público. Todos estes medos foram superados por causa do seu amor. Ele sempre me pareceu tão grande que me deu o conforto necessário para cada empreitada.
Hoje eu também tenho uma filha e meu maior desejo é que ela seja feliz e sinta o quanto a amo. Portanto, mamãe, saiba que eu sou feliz e que sinto de verdade o seu amor. Ele é meu maior patrimônio.
Ainda preciso muito de você. Mesmo longe consigo ouvir seus conselhos porque eles estão dentro da minha mente. Fazem parte do que eu sou. E para sempre serei o filho da Dona Irene.
Feliz dia das mães

Malecón


O que era uma chuva intermitente se transformou em garoa. O inverno cubano poderia ser considerado tênue não fossem os ventos fortes e o mar que rapidamente decide-se em se revoltar. Pelo menos não é ainda a época dos furacões.
 
     A chuva se foi, os ventos fortes também. Rapidamente a sensação de calor prevalece. Desci ao saguão do hotel para comprar um puro. Nos demais paises de língua espanhola os famosos charutos cubanos são chamados de habanos,mas na própria Havana o tabaco é chamado intimamente de puro. Pode parecer clichê vestir um chapéu panamá e fumar um charuto nas férias em Cuba, mas desde jovem me encantavam os charutos. Não fumo cigarro, que me parece uma compulsão, além de não gostar do sabor, mas os charutos  me parecem reflexivos e sempre me agradaram. A diferença é que aqui nas ruas de Havana posso comprar um bom charuto a cada esquina pagando bem menos, além de ser aceito em qualquer bar ou restaurante, sem que as pessoas façam caretas ao sentir o cheiro e a fumaça.

     No bar do hotel rolava um cha-cha-cha. Sentei-me à mesa e me servi de um mojito. Havia um casal de coroas dançando alegremente. Pareciam eufóricos, um pouco bêbados também. Mas os dois dançavam impressionantemente bem. A mulher devia ter mais ou menos uns 55 anos. O homem parecia um pouco mais jovem. Talvez tivessem a mesma idade. Gostaria muito de saber dançar. Naturalmente não sou uma pessoa tímida e sem muita dificuldade consigo me relacionar, mas se eu soubesse dançar conseguiria me comunicar de uma maneira mais genuína e abreviada.

     A coroa conseguia ficar sexy com sua dança alegre, ainda que fosse uma mulher visivelmente feia. Este é o poder da dança.

     Decidi caminhar pela orla. Coloquei uma roupa leve, um chinelo e encarei a garoa que havia se decidido por permanecer. A avenida estava quase às escuras, aliás, são poucos os lugares que são iluminados. Mas em nenhum momento fui sequer ameaçado por quem quer que seja. Carregava uns poucos pesos conversíveis no bolso. Os pesos cubanos são restritos aos cidadãos da ilha. Os turistas devem comprar os pesos conversíveis chamados de C.U.C.

    Subi no muro do Malecón e fui caminhando, saindo do Vedado em direção ao centro. As ondas batiam com força naquele muro de pedras. Algumas vezes eu me molhava, mas o melhor de tudo era respirar aquela maresia. Pensei muito na minha vida. Há muito tempo eu esperava por aquela viagem. Aliás, o tempo era a grande incógnita que eu tardava em desvendar. Será que deveríamos esperar tanto tempo para realizar nossos desejos? Será que existe realmente este tempo ou ele é uma mera ilusão? Esperar o que? Será que existe um lugar chamado felicidade, outro lugar chamado experiência ou mesmo um local chamado estabilidade? Acho que estamos sempre despreparados para tudo e o melhor da vida é se surpreender e enfrentar o que está por vir. Somente aprendemos a pedalar sem as rodinhas porque existe alguém que decide por nós que sim e em algum momento deixa de nos apoiar e sem que se de conta estamos pedalando sozinhos. Talvez se dependêssemos de nós mesmos para decidir em correr os riscos de um tombo esperaríamos por muito mais tempo. Algumas pessoas são mais autônomas e auto-suficientes. Eu ainda estou tentando aprender. Parece papo de auto-ajuda, mas era exatamente isso que eu estava sentindo.

    Caminhei por mais de uma hora. Estava encharcado da cabeça aos pés, mas meu charuto permanecia aceso. Acho que fiquei mais forte naquela noite. O tempo, a idade, o dinheiro, os fios de cabelo ou os quilos pareciam meras abstrações. Não estava eufórico. Sentia-me como se tivesse assistido a minha própria vida apoiado numa janela.

      Cheguei ao quarto do hotel quase desfalecido. Estava muito leve e não consegui pronunciar sequer uma sílaba. Mas de verdade, elas me pareciam absolutamente desnecessárias. Nenhuma droga seria capaz de proporcionar aquela sensação de desfalecimento. Na impossibilidade de tomar banho, simplesmente tirei a roupa e me joguei na cama. Adormeci imediatamente.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

20 anos e Raul permanece (20-08-09)


Há vinte anos morria Raul Seixas.
Morreu o Maluco Beleza?
Ora, eu não rejeito totalmente o rótulo, até porque o próprio Raul compôs uma linda canção destacando a sua maluques misturada com sua lucidez.
Mas ele se admite maluco em uma medida comparativa com o sujeito normal que faz tudo igual.
O maluco é o lugar social dado aqueles que têm um comportamento distante do senso comum.
Na verdade, Raul era muito lúcido.
Sua lucidez era capaz de dar a ele uma visão crítica e irreverente acerca do cotidiano.
Questionava de maneira escandalosa os valores e a moral dos homens que se consideram justos.
Era um crente e militante dos direitos individuais.
Desestruturava impiedosamente o sistema de uma maneira que variava entre o malicioso e o ingênuo.
Frente à elite intelectual agia com absoluto desbunde. Estes, até hoje, são incapazes de compreender a obra do Raul. Entender a sua força. A sua incrível permanência.
Ainda que suas canções não toquem nas rádios. Ainda que essa elite babaca não reconheça a genialidade de Raul, ele permanece nas rodas de amigos e nas descobertas individuais de cada dia. Em verdade Raul Seixas era um filósofo. A música (como ele dizia) era um instrumento para difusão de suas idéias.
Com quinze anos eu já sabia da existência de Raul. Mas foi naquela idade que obtive a revelação. Um vizinho me chamou para perto de sua vitrola e mostrou um bolachão de vinil com o rosto do Raul. Achei estranho. Mas quando começou a rolar aquele som, entendi o que estava além da canção e algo mudou em minha vida.
 Desde então compreendi que não era tão solitário. Percebi que minhas inquietudes, questionamentos, aflições, tristezas, expectativas e prazeres não eram exclusividades minhas.
Não era mais de outro planeta, mas ainda que eu fosse um alienígena, aquilo não era mais um problema.
Raul Seixas era um cara místico. E de uma maneira absolutamente estranha, sua obra continua sendo passada de boca em boca, de copo em copo, de mesa em mesa e de mente em mente.
Por mais vinte anos seguidos: Toca Raul!

O Zé Buceta



Apresento-lhes o Zé Buceta.
O Zé Buceta, não é somente o “cantor de churrascaria”, nem o “empata foda”, tampouco é meramente o “puxa saco”.
O Zé Buceta é tudo isso junto e muito mais.
É fácil reconhecer essa figura mundo afora. Independe do continente, da religião, da raça ou de classe social. Os Zes Bucetas estão em toda parte.
Vamos aos exemplos.
Sabe aquele cara que está entre os amigos se divertindo tranquilamente, mas quando chega uma determinada moça ele rapidamente se afasta e passa todo o tempo na órbita da garota, monopolizando sua atenção?
Se o rapaz fosse pro abate, seria até louvável sua dedicação ao sexo feminino, no entanto, o Zé Buceta é uma espécie de beque de fazenda. Está todo tempo na retranca, impede o gol adversário, mas é incapaz de construir uma jogada em profundidade. Fica sempre no zero a zero.
O Zé Buceta é aquele cara que se faz de amigão da mulherada. Sempre diz que gosta “dela” como ser humano. Quando a mina briga com o namorado, pede a companhia do para um jantar ou para uma ligação telefônica de uma hora e meia. Ele calmamente ouve as lamentações e consola a garota. Quando ela faz as pazes com o namorado ele inevitavelmente diz: “Nossa, que bom. Eu te disse que tudo iria terminar bem”.
A esperança do Zé Buceta é que um dia em algum momento de absoluta carência ELA se de conta de que o Sr. José Buceta da Silva é seu verdadeiro amor e que com ele que vale a pena viver, já que o cidadão passa a vida toda a sua inteira disposição.
O Zé Buceta tem duas caras. Uma para suas adoradas e outra para todos os homens que ousam chegar perto da mesma.
Na balada é muito fácil identificar um Zebu. Passa o tempo todo ao lado da perseguida. A moça dança, ri, olha para os lados, mas quando alguém ousa chegar perto, ele rapidamente identifica e põe seus braços sobre os ombros da despercebida vítima. Quando a guria quer ir ao banheiro, o Zé Buceta diz: - Eu também vou! E espera a moça sair bem na porta do WC.
Não importa o que aconteça. O Zé Buceta sempre vai dar carona. Caso sua marcação não surta o efeito desejado e a moça tenha se perdido espera pacientemente para depois dizer. “Imagina, quem veio comigo, volta comigo”.
Mas nunca da certo. Primeiro porque quando uma mulher ta afim ninguém segura, segundo porque o destino do Zé Buceta é se ferrar.
Se existe uma reunião de amigos numa chácara ou na casa de praia, o Zé Buceta dá um show. Ele sempre acorda primeiro que todas as mulheres. Faz café, pão na chapa e até torta holandesa. O importante é ele mostrar que é diferente de todos os outros homens. Passa o feriado inteiro fazendo às vezes de amigão.
Enquanto todos os homens estão na churrasqueira beliscando uma picanha e bebendo chope, o Zé Buceta está ajudando na salada de maionese.
Quando toda a rapaziada vai bater uma bola, o fica conversando com as mulheres. Essa é sua grande oportunidade de ter menos concorrência e obter um pouco de atenção. Porque antes de tudo, o Zé Buceta é um carente!
Mas o Zé Buceta tem seus momentos de glória. Uma pequena recompensa que o estimula a continuar sua saga. Nada é mais gratificante para o Zebu do que colocar o dedinho no nó do biquíni para que sua amiga faça o lacinho. Existem casos em que alguns Zes Bucetas chegaram a espalhar o protetor solar. Esses são os bens sucedidos.
Em toda regra existe exceção. Claro que alguns Zes chegaram a ser promovidos a titular, ou mesmo encontraram alguma mulher que tolere sua subserviência. Mas estes quando casados ou comprometidos transformam-se em capachos. Tema de uma próxima análise.   


Corinthians x Palmeiras

Hoje é dia de Corinthians e Palmeiras.
Definitivamente, este é o maior jogo do futebol mundial.
Corinthianos e Palmeirenses consideram esse derby como um campeonato a parte. É impossível digerir uma derrota de maneira tranqüila, afinal, uma rivalidade de quase um século está em questão.
Mas existe algo que é particularmente interessante neste clássico. Não existe uma relação de ódio puro e simples entre as duas agremiações. Na verdade, é muito mais do que isso.
Também não acho que quanto maior o ódio, melhor o clássico. Essa valorização da raiva em outras disputas regionais diz muito pouco sobre o que é Corinthians X Palmeiras.
O Corinthians que nasceu antes. É o primeiro clube assumidamente popular de São Paulo, sendo fundado por operários, alguns eram espanhóis e italianos. Um esporte que era da elite, agora tinha de conviver com a maloqueirada que convocava a população para sustentar e prestigiar o novo clube.
Em 1914, quatro anos depois, veio o Palmeiras. Há muitos que sustentam que uma parte de dissidentes do Corinthians formada principalmente pelos italianos, fundou o Palestra Itália.
Historiografia a parte, o fato é que hoje pode parecer até chique ostentar uma origem européia. Mas no começo do século passado, essa gente vinha aos montes para São Paulo, fugindo das guerras civis e mundiais, para muitas vezes substituir a mão-de-obra escrava que havia sido recentemente liberta.
O que eu quero dizer, é que Corinthians e Palmeiras têm uma origem comum. Depois, os dois clubes trilharam caminhos distintos, com o Palmeiras sendo dirigido por um grupo social mais específico  e o Corinthians agregando todos as outras gentes. Mas, fundamentalmente, esses dois clubes são parentes.
Isso não quer dizer que tudo seja harmonia, ao contrário. Corinthians e Palmeiras são como primos rivais que não se falam por muitos anos.  Os caminhos e descaminhos de um, sempre interessam ao outro. A derrota do primeiro é necessária para a confirmação da vitória do seguinte.
Mas a verdade é que um não vive sem o outro. Se um deles acabar o outro não têm muito o porquê existir.
O São Paulo Futebol Clube veio depois. É outra onda. Torcer para o São Paulo remete ao status. Torcer para Corinthians e Palmeiras remete à origem.
Um são paulino quando perde um jogo, desfaz da derrota, como que diminuído sua importância. O Corinthiano e o Palmeirense acusam o golpe. Ficam explícitos seus sentimentos. Por incrível que pareça são parecidos.
Que os Corinthianos permaneçam sem vestir verde e gorando cada partida do rival.
Que os porcos também continuem nos mal dizendo e nos querendo pelas costas.
Mas que o clássico seja sempre valorizado e que cada um saiba da importância do outro na construção de sua própria identidade.
Desejo que quando as lágrimas vierem, e elas serão inevitáveis em alguns momentos, que sejam apenas pelas partidas dentro da cancha.
Nunca por um primo irmão morto em algum tipo de guerra idiota.
Hoje é dia de Curinthia e Parmera!

A Broa Encantada (2008)


Sinto na pele o conflito. Ou seria na alma? Não sei. O que por vezes me dói na boca do estômago pode bem ser algo além do físico. Além do psíquico. Provavelmente moral.
                        Intrigante mistério da vida. Talvez seja inútil tentar desvendar ou estabelecer uma linha limítrofe entre o corpo e a alma. Acho que por vezes meu corpo manifesta um desajuste de espírito, ou ao contrário, meu bem estar mental não se põe satisfeito por não ter sido devidamente alimentado através do gozo.
                          Por estes dias sentei-me com minha filha na mesa de jantar. Era madrugada. Passamos um lindo dia de sol na praia acompanhado de amigos. Voltamos pela estrada escura ouvindo música. Conversando. Cantando e falando sobre as coisas da vida. Ou pelo menos o que cada um de nós conseguiu absorver desta experiência tão interessante que é ser um vivo. Ela com onze e eu com trinta e dois. Frente a frente nos olhamos. Sorríamos em silêncio e encontramos uma verdade superior na broa de milho.
                          Estávamos com fome e fomos caçar o que comer. Encontramos um Nescau aqui, um leite acolá, algumas torradas e ela me disse:
- Papai, sabe o que eu adoro?
- O que?
- Pão de milho – disse falando baixinho quase sussurrando para não acordar os avôs.
                           Mexi mais fundo no armário e disse:
- Tó
                            Uma embalagem intacta que meu pai deve ter trazido da padaria. Era meia dúzia de broas de milho. Fresquinhas. Ás duas da manhã
- Tem requeijão, papai?
- Tem também.
                            Ela me conta com um sorriso incontido suas peraltices no colégio. É uma moleca. Que imita a diretora, que tal menina é fofoqueira, que quer ser professora de história, que vai se casar com um menino de uma “boy band” americana que esqueci o nome. Como pude esquecer o nome do meu genro. Que cabeça a minha!
                             Eu também falei das minhas peraltices. Das palmadas na bunda que tive de tomar. E ela ria. Lembrava das palmadas que eu dei ou dos tombos que teve de levar, ao invés das palmadas. Tudo com riso. Com cumplicidade.
                             Servi-me de um mate. Olhava para aquela menina em plena metamorfose. Sorríamos um para o outro. Aquilo era uma oração. Nossas almas se serviam de nossos corpos e nossos corpos expressavam o astral legal que rolava através de risinhos, boca cheia, caretas, piscadelas e beijocas. Ah, e a broa de milho. A menina devorava uma por uma.
                             O prazer e a benção estavam na fome, na saúde, na sorte de a broa estar no lugar certo e na hora certa. Olho para a embalagem. Ainda resta a etiqueta com o preço:      
 -R$ 1,29
                            Tanto e tão pouco. Tão pouco e tanto. Não só na broa, meus amigos. Na vida. Procuramos coisas que nos pareçam valiosas e a verdade do universo está na broa de milho que está ao nosso redor e a gente nem percebe.
                            Obrigado a Deus. E obrigado ao homem ou a mulher que fez a broa. Seja quem for, tornou nossa vida mais feliz depois do seu trabalho. Feliz de corpo e feliz de alma.


O Amor e o Itau (23-06-09)

De cinco em cinco minutos passa na tevê uma propaganda do Itaú. Nela, uma mulher propositadamente escolhida na faixa etária acima dos 3.5 chorosamente pede ao noivo um maior investimento no relacionamento. O namorado inicialmente age com escárnio. Diz que investe seu dinheiro no Itaú, mas depois, generosamente oferece um par de alianças para a moça que sorri emocionada. Realizaria enfim um sonho de Cinderela.
Um comercial não é um discurso. Sua ideologia é vender determinado produto, mas poucas vezes vi uma propaganda tão machista. Ainda mais no século XXI.
Desde quando o casamento é um presente do homem para a mulher? A moça bem que poderia ter o próprio cartão do banco. Escolher o marido, a data e até a aliança, se fosse o caso. Mas não vir a ser escolhida ou preterida, esperando sentada com cara de coitadinha a boa vontade do rapaz.

O que está embutido nessa idéia de assumir o casamento? que a mulher doe uma parte de sua juventude em troca de alguém que a acompanhe na velhice? 

A mulher não precisa se render em busca de uma companhia. Não precisa de nenhum protocolo social para ser livre e feliz!
Os mais pragmáticos (as) vão dizer que a relação entre amor e investimento financeiro é perfeita porque nenhum amor resiste a uma crise econômica. Mas eu pergunto, o investimento no Itaú resiste à crise?
Quero me manifestar em favor do amor que fica! Sabe aquele? Esse sim é verdadeiro, porque não é corrompido por todos os processos de socialização que se impõem ao amor carnal.
Nossa geração faz tudo pelo dinheiro.
O dinheiro é importante e delicioso, mas não é um fim em si mesmo. Quando escolhemos um curso na Universidade, não pensamos em nossos sonhos ou afinidades, pensamos em nosso bolso.
Esse é o meu protesto: A gente trabalha em áreas diferentes das que gostamos porque nos pagam melhor; Comemos comidas alheias ao nosso paladar e em quantidades menores porque são consideradas saudáveis; usamos roupas menos confortáveis das que gostaríamos porque a moda obriga assim;
Então eu pergunto: Na hora de amar, vamos escolher o nosso amor pelo gosto da saliva ou por mais uma convenção social?
Um brinde a todos aqueles que têm os espíritos livres e forjam seus próprios destinos!
Um brinde ao amor!