quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A vida urbana e as eleições presidenciais.


Artigo originalmente publicado no jornal "O Estado de São Paulo" em sua edição digital.



A vida urbana e as eleições presidenciais.

 

Pouco se fala sobre impacto da qualidade de vida nas grandes cidades nas eleições nacionais. Ainda que estas questões não estejam diretamente ligadas à administração do Governo Federal, torna-se interessante perceber e medir seu peso político no quadro sucessório.

 

Temas como a precariedade na infraestrutura urbana, a insegurança, a insuficiência dos serviços públicostrânsito caótico e o aumento considerável no custo de vida, interferem na satisfação dos brasileiros que vivem nos grandes centros urbanos.

 

Governo Dilma tem catalisado a maior parte das insatisfações e assumido o ônus sobre problemas que vão além do cenário incerto na economia.

 

O mapa da apuração das eleições por município demonstra que enquanto o candidato Aécio Neves teve melhor desempenho nas grandes cidades, a Presidenta Dilma obteve melhores resultados nas pequenas. 

 

Desde as eleições de 2006, nota-se que o PT vem perdendo espaço entre os eleitores das classes médias urbanas. Mesmo na Região Nordeste, onde Dilma acumulou vitórias expressivasseu desempenho nãmanteve o mesmo nível nem algumas capitais.

 

Em São Paulo, mesmo com problemas como a insegurança hídrica, violência e deslocamento urbano, o Governador Alckmin venceu sem dificuldades, enquanto Dilma perdeu inclusive em tradicionais redutos do PT na Região Metropolitana.

 

O drama do deslocamento urbano deixou de ser uma questão grave apenas no eixo Rio-São Paulo. Hoje, as grandes cidades brasileiras padecem com congestionamentos monstruosos.

 

O Baixo nível de desemprego, talvez o melhor resultado da gestão de Dilma, revela a falta de capacidade das metrópoles em garantir o funcionamento sob alta demanda dos sistemas viários e dos transportes coletivos. São milhões de trabalhadores, saindo de casa todos os dias no vai e vem asfixiante.

 

O custo de vida nas cidades também aumentou sensivelmente. Para além das questões conjunturais da economia (que não são menos importantes), o aumento do mercado consumidor na última década, desencadeou uma sanha especulativa. Em resumo, muita gente resolveu ficar rica do dia para a noite. O preço dos imóveis saltou. Ao sair para jantar, o brasileiro se deparou com preços cada vez mais absurdos e extravagantes.

 

A inclusão social que alavancou as vitórias de Lula e Dilma, ironicamente pode ter causado certas pressões que influenciam o cotidiano nas grandes cidades. Ainda que tenhamos ampliado a quantidade de brasileiros na classe média, o Brasil se mantém como uma sociedade vertical, hierarquizada e baseada no prestígio pessoal.

 

Os brasileiros ainda tem na memória as rupturas econômicas, choques inesperados e privações. O desejo de consumorepresado durante anos, liberou uma espécie de energia consumista. As políticas econômicas de estímulo ao consumo do governo colocaram mais lenha na fogueira.

 

O consumismo, além de interferir diretamente na poupança dos brasileiros, na inadimplência, no endividamento e na alta dos preços, leva também a um inevitável desconsolo e insatisfaçãopessoal quando este ciclo é interrompido.

 

Outro dado que interfere na vida urbana é a violência. A sensação permanente de insegurança por conta da criminalidade é agravada pela falta de confiança nas polícias e descrença no sistema judiciário. 

 

A desigualdade social já faz parte da vida mental dos brasileiros. A inclusão (ainda que insuficiente para equalizar injustiças históricas) de milhões de pessoas no mercado de consumo e por consequência na vida cotidiana das metrópoles, exerce uma pressão invisível para que os que já estavam estabelecidos também sejam premiados com a subida de mais alguns degraus na escala social, sob pena de se sentirem automaticamente mais pobres, quando na verdade estão mais iguais.

 

Durante o primeiro-turno, diferentes partidos tentaram se apropriar de um suposto capital político” dos protestos do ano passado. Aparentemente, houve a supervalorização do potencial eleitoral deste acontecimento. Entre outras coisas, pela incompreensão do chamado recado das ruas.

 

Não houve um recado só. Tampouco uma só motivaçãoPoréé possível dizer que a crise de felicidade” tem muito a ver com questões relacionadas a vida urbana nas grandes cidades.

 

Embora a classe política como um todo tenha sido alvo das manifestações, foi o Governo Federal quem ficou como maior depositário das soluções dos principais problemas, sejam eles federais, nacionais ou municipais. Virou tudo um bolo só.

Retrato de um "Corinthians" desalmado




Uma das maiores derrotas da história do Corinthians.
Não por ter contornos de tragédia. Não pelo drama. Não pela importância do campeonato,
Mas pela vergonha. Por contrariar tudo aquilo que há de mais valioso e fundamental no DNA do Corinthians.
O brio, a humildade, a raça, a inteligência, a valentia.
Tudo jogado na lata do lixo.
O Corinthians em campo no Mineirão é o retrato do que ele se tornou fora dele.
Um clube arrogante, mascarado e que é incapaz de olhar para si mesmo.
Um clube que virou as costas para a própria história e para quem sempre o carregou nas costas.
Um clube que se divorciou da própria torcida.
Um clube que passou a considerar a torcida não o seu bem mais valioso, mas um incômodo que contraria e atrapalha o dinheiro tranquilo de quem usa chuteira ou que usa gravata.
A devastação deste jogo deveria ser retratada numa pintura. Num quadro. Ser colocado no meio da sala de trofeus para que ninguém esqueça aquilo que não gostaríamos jamais de ter nos tornado.
A aparente "tranquilidade" do time no jogo contra o Atlético não disfarça as coisas como elas realmente são. A tranquilidade do time dentro de campo, levando uma virada e sofrendo uma derrota patética, é absolutamente idêntica a de seu presidente. De tranquilidade e controle não há nada. De transparência não há nada. Tudo não passa de um verniz que esconde o que há de mais podre e carcomido no Parque São Jorge.
A arrogância não combina conosco.
O Corinthians é, de uns tempos pra cá, justamente o que foi no Mineirão. Uma grande mentira.
Uma fachada de progresso que esconde a exclusão de seu povo. Um aparente sucesso que nada mais é do que uma maquiagem para esconder negócios desastrosos, salários astronômicos, uma confraria de amigos que passa por cima do gosto e do desejo de milhões de corinthianos.
Certa vez, o presidente esbravejou aos microfones, chamando o torcedor de idiota por não perceber que "o futebol é negócio".
Gostaria de saber qual negócio é esse?
Um negócio em que você contrata um jogador por dezenas milhões para ele reforçar a concorrência, enquanto o Corinthians ainda paga seu salário?
Um negócio em que o Corinthians sustenta com salários de marajá uma porção de jogadores em outros clubes?
Um negócio em que você afasta e exclui quem sempre te sustentou?
Será que a eficiência com o dinheiro só deve ser exercida na hora de esfolar o torcedor com seus ingressos?
Foi triste de ver. Um time obscuro, ruim, desalmado.
Por fim é preciso dizer que este técnico sim tem a cara do Corinthians. Mas desse "Corinthians" que eles criaram. Covarde, injusto, obscuro, misterioso, defensivo, arrogante e acima de tudo mentiroso.
Que trás o Gil e o Elias - jogadores da seleção - do outro lado do mundo, freta um avião, para depois deixá-los no banco de reservas. 
Este é o Corinthians. Um time que tem dono. Onde só joga e só ganha quem é mano.
Que demite o técnico mais vitorioso de sua história. Um homem que recebeu sim muitas críticas, mas nunca por sua honestidade, transparência, coerência, garra, esforço e decência.
Nesta semana em que se comemora o título mais importante da nossa história, jogamos um dos jogos mais vergonhosos de todos os tempos.
Não há Corinthians sem comunhão. Não pode existir um Corinthians desalmado. Distante daquilo que somos. Que não jogue o jogo como a gente joga a vida da gente.
Este não é o Corinthians que aprendemos a amar. Porque o Corinthians que construímos com o nosso sangue é corajoso e jamais trairia o seu povo.
Este Corinthians tenebroso fez a opção pelos ricos. Vamos ver agora se estes ricos carregam o time nas costas, compram suas cadeiras e seus camarotes com tudo o que está por vir.
Talvez os "consumidores" não molestem a paz de vocês nos próximos dias e esperem em casa com seu raciocínio econômico o próximo momento de êxtase e de gozo fácil.
Mas seria irônico, caso num futuro muito breve, "vocês" tenham que passar por cima da soberba e precisem contar com nossas moedas.
Mas fiquem vocês sabendo, não é desconto que a gente quer. Não é por vinte centavos, nem por vinte reais. Sabem por que estamos falando disso nesse momento? Porque queremos mesmo é que vocês entendam que o Corinthians somos nós.
E esse outro "Corinthians" mesquinho e arrogante está caindo de podre!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A honradez de Xico Sá, censurado na Folha






Xico Sá censurado e exilado na Folha teve a honradez de pedir demissão. Tudo isso ocorreu porque ele declarou seu voto à Presidenta Dilma. 
Essa é a tal "ditadura comunista" no Brasil?
Ditadura por parte de quem mesmo, heim cara pálida?
E o que ocorre na Folha tem acontecido em diversos setores da sociedade. Se você manifestar seu voto diferente da sua casta social, o ambiente fica insuportável. Você pode ser perseguido, taxado, marcado, ofendido. Seu carro pode ser riscado, seus "grandes amigos" podem virar a cara pra você. Certamente será "desconvidado" de eventos sociais. 
Sorte sua que, por outro lado, vai se livrar de gente que não gostava tanto assim de você. Gente incapaz de respeitar as suas opiniões e visão de mundo. Além de escapar de alguns ambientes asquerosos.
Durante muitos anos, ouvi sobre "patrulha da esquerda". Mas percebam, a direita patrulha muito mais. Nas últimas décadas, no mundo todo a esquerda abriu mão de seu rigor ideológico. Até mais do que deveria. A direita não, ela é muito mais ideológica e não enverga um milímetro de seus pilares "sagrados".
A Folha se autodenomina o "Jornal do Futuro". Se eles estiverem corretos, o futuro nos reserva algo muito tenebroso e terrível.
Como tudo no Brasil, a liberdade de expressão também é privilégio dos ricos.
Liga não, Xico Sá. Pelo menos você não vai se juntar àquela turma de escritores, jornalistas e apresentadores que se travestem de "anarquistas", mas inevitavelmente fazem "anarquismo" a serviço do patrão.
Aqueles que oportunamente se fazem de bobos da corte que não servem ao riso, mas servem ao rei.

Nícolas Chernavsky - "Eu quero um governo progressista para o Brasil"

Mais uma vez publico um artigo do meu amigo Nícolas Chernavsky.

Nicolas Chernavsky é analista político e produz o sítio culturapolitica.info, que analisa as eleições ao redor do mundo e a política global.

Eu quero um governo progressista para o Brasil! Vamos Dilma!

Lá no fundo, todos sabemos qual é a disputa que vale a pena vencer, a do progressismo sobre o conservadorismo; todos temos um pouco dos dois, mas Dilma aglutina o progressismo, e Aécio, o conservadorismo
13/10/2014 - Hoje eu estava pensando sobre qual assunto escrever o artigo. Aí escrevi um post no Facebook em que eu dizia: "Eu quero um governo progressista para o Brasil!". Pronto, achei o tema do artigo. Gente, existe uma bússola pra todas as disputas eleitorais no mundo, não importa em que país, estado ou cidade, que nos indica qual é a candidatura a cuja vitória devemos dedicar nossos corações e mentes. Nós, seres humanos que atravessamos eras glacias, superamos nossa fraqueza física com a força da mente e chegamos às estrelas, temos o progresso entranhado no nosso DNA. Se dependesse do conservadorismo ainda estaríamos em algum estágio ancestral de nossa evolução. Por isso, não tenho dúvidas sobre qual é a minha bússola nessas eleições. Liberdade, igualdade, fraternidade! O lindo lema da Revolução Francesa tão celebrada pelo fantástico Victor Hugo (leiam "Os Miseráveis", por favor) não me permite descansar enquanto Dilma Rousseff não vencer Aécio Neves nesse segundo turno presidencial. Vamos progressismo!
Por que Dilma é a candidata do progressismo? Nos governos Lula e Dilma 40 milhões de pessoas saíram da pobreza e subiram para a classe média. Além disso, 36 milhões de pessoas saíram da miséria. Finalmente saímos do mapa da fome da ONU. Quem viveu ou estudou o governo FHC, do PSDB, de cuja coalizão Aécio foi presidente da Câmara dos Deputados, sabe que a ascensão social não era nem de longe comparável. A queda da desigualdade não era nem de longe comparável. O aumento do salário mínimo era muito mais lento. Quando FHC deixou o governo, o desemprego era mais do dobro do que é agora, e o Brasil não tinha liberdade pra fazer sua política econômica porque tínhamos pedido um enorme empréstimo ao FMI, que por isso podia ditar o que fazer por aqui. Aécio fala do Plano Real, que foi feito no governo Itamar Franco. No primeiro governo FHC, a inflação ficou controlada, mas o resto do governo em geral foi ruim. E o segundo governo FHC, que começou já com a inflação controlada, teve resultados ainda piores, como a falta de energia elétrica, além de todos os outros problemas citados acima. Não que os governos Lula e Dilma tenham sido um mar de rosas, mas não tem comparação. Ou tem.
O conservadorismo fica repetindo a história do mensalão, mas hoje, nove anos depois, vemos claramente que em relação àquelas acusações não existiu mensalão, nem desvio de dinheiro do Estado, e sim caixa dois. A imensa maioria de tudo o que o PT e o governo foram acusados naquele episódio não se verificou verdadeiro, naquilo que foi talvez o assunto mais investigado da história do país. O que sim houve foi uma espetacular atuação da Polícia Federal nos governos Lula e Dilma, com 2.226 operações e 24.881 presos, enquanto que no governo FHC, da coalizão liderada pelo PSDB da qual Aécio era membro influente, foram 48 operações e 536 presos. Vejam de novo os números. Não tem comparação, de novo. Ou tem.
Sem falar na incrível descoberta do Pré-Sal, com posterior estabelecimento do marco regulatório e início da produção dos governos Lula e Dilma. O Pré-Sal desperta cobiça em todo o mundo, o que explica parte dos interesses mundiais na eleição brasileira. A aprovação do Marco Civil da Internet também é algo a ser comemorado intensamente pelo progressismo brasileiro, pois tornou o Brasil referência mundial pela democratização da gestão da Internet, que hoje é basicamente gerida pelos Estados Unidos, sendo que Edward Snowden e seus decumentos já mostraram que isso não parece uma boa ideia.
Gente, o Brasil, digam ou não os meios de comunicação conservadores do país, é hoje uma superpotência diplomática, que está perto de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e está organizando uma das iniciativas mais importantes da geopolítica mundial, a estruturação econômica, financeira e política do grupo BRICS, além de ter sido fundamental para a criação do G-20. O Brasil vem conseguindo em seguidas votações eleger seus indicados para liderar algumas das maiores instituições mundiais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a FAO/ONU, pois recebe votos em massa especialmente dos países mais pobres de todo o mundo, que enxergam no Brasil essa superpotência diplomática que causa desespero em quem ainda gostaria que o Brasil fosse um anão diplomático. Essa eleição entre Dilma e Aécio provavelmente será apertada, então cada voto conta. Vamos lá, juntos, fazer o progressismo vencer o conservadorismo nesse segundo turno. A hora é agora. Tod@s na rua e nas redes!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A urna eletrônica não dará compaixão a quem não tem



A eleição é importante.
Mas não será ela que fará a justiça que nós esperamos nem emprestará a razão aos cegos de ódio.
Eu tenho minha candidata. Talvez vocês tenham o de vocês. Alguns não tem nenhum.
Mas ao final, a cegueira será o troféu dos garantidos. Dos que não precisam ouvir. Daqueles bem informados que sabem de tudo.
Nossa cara já está suficientemente envergonhada com tanta escravidão. Com tanta injustiça.
E nada parece ser suficiente para humanizar aqueles que creem nos valores como algo estendido ao nosso corpo físico. Que veem a moral como algo que pertence à natureza e não uma paisagem mental construída pelos homens. Que colocam as suas opiniões para além dos acontecimentos históricos e das realidades sociais.
Pelos visores dos celulares são transmitidas as imagens de linchamentos.
São homens sendo massacrados e torturados nas nossas faixas de Gaza cotidianas. Os espancadores são valentes e corajosos. São dezenas contra um. Dormirão tranqüilos e irão comungar no domingo sem precisar passar antes pela fila do confessionário.
Todos estão muito seguros de si.
Todos muito à vontade com a própria consciência.
Os civilizados estão satisfeitos. Estacionam em fila dupla. Correm pelo acostamento. Partem ao meio os ciclistas. Rezam o pai nosso e imediatamente depois reclamam de volta o pão repartido. 
Os bem-educados sentem-se satisfeitos de ir ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos.
Os homens brancos, pais de família, supostamente heterossexuais e tementes a Deus poderão ter restaurados os seus privilégios sociais de brasileiro médio e a sua paz de sono, pois tudo está resumido ao pleito no final do mês.
Os meninos já nascem com instinto. Desde pequenos escolhem bem as suas vítimas do bullying.
Ah, como é bom estar do lado certo...
A eleição é importante? Agora eu incluí uma interrogação.
É importante pra caramba.
Cada um vota em quem quiser.
Não quero nem consigo convencer ninguém de porra nenhuma.
Os Bushes já estão soltos.
Mas é bom dizer que há coisas muito mais lindas que não se apresentam aos olhos preguiçosos.
Cores maravilhosas e flores perfumadas que são imperceptíveis ao olfato de quem não lê as letras miúdas.
O ódio que paira no ar não será redimido com as eleições no fim do mês.
Nem todo o sangue entregue numa jarra matará a sede dos ressentidos.
A urna eletrônica não dará compaixão a quem não tem.
Não fará generoso o individualista.
Não tornará sincero o hipócrita.
Não fará honesto o obstinado a "vencer" a todo custo.
Mas é bom que se diga, não roubará a coragem de quem tem ela de sobra.
Não acovardará quem tem muita luz e muita força.
Tem gente linda chegando. 
E há quem esteja para sempre contaminado.
Em tempos de ódio, nada mais subversivo e ameaçador do que o amor. 
Há muito amor sendo feito por aí.
Muitas ideias borbulhando.
Desobediência pipocando.
O que será que será. 




quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Próximo presidente estará no fio da navalha


Durante o horário eleitoral, diferentes correntes políticas fizeram esforço para se apropriarem do "sentimento popular" exprimido nas manifestações de 2013.
Aparentemente, houve uma espécie de supervalorização do potencial eleitoral dos protestos. Pior, os partidos que exibiram imagens dos protestos e tentaram capturar o tal "sentimento", demonstraram uma absoluta incompreensão do fenômeno político ocorrido.
O estopim dos grandes protestos foi a reação popular e uma manifestação de repúdio de boa parte da sociedade à repressão e violência policial aos atos públicos organizados pela juventude contra o aumento do preço e a qualidade do transporte público nas grandes cidades.
Posteriormente, outras forças políticas que há tempos desejavam manifestar-se, mas não tinham acúmulo para realizarem grandes protestos, foram de carona. As manifestações se converteram em protestos "self service", onde cada um se servia de uma bandeja de reivindicações e se juntava à massa para reclamar o seu quinhão.
Peneirando o oportunismo político e toda ordem de fenômenos sociais e políticos que se juntaram às jornadas de junho de 2013, podemos dizer que há um desgaste e saturamento da qualidade de vida da vida urbana nas grandes cidades, que existe uma camada da população que não tem na memória outros momentos mais caóticos e problemáticos da nossa história e agora quer e deseja "mais". Que em grande parte dos extratos sociais, não existe mais a obsessão pelo progresso, mas a valorização do bem-estar social e a exigência de serviços públicos de qualidade.
Feito este preâmbulo que de forma nenhuma pretende resolver todas as questões envolvidas nos protestos do ano passado, temos um importante pano de fundo para perceber como o próximo presidente ou presidenta terá imensas dificuldades para administrar as tensões sociais que vão além da composição de uma coalizão partidária que dê conta da maioria no Congresso Nacional e garanta a "governabilidade".
Caso Dilma se reeleja, será por uma margem muito estreita. 
Com o desgaste natural de um partido que caminha para seu quarto mandato. Com uma parte da sociedade que anseia por mudanças e renovação política, mas que não encontrou neste momento a segurança para votar nos candidatos de oposição. Sem o apoio e a aprovação de grande parte das classes médias urbanas que demonstram rejeitar o PT quase que cegamente. E por fim, com sua própria base de apoio na sociedade civil impaciente e em parte descontente com seu último mandato, clamando por posições firmes e de ruptura com o projeto neoliberal, já devidamente representado pelo PSDB.
Se Aécio Neves vencer as eleições, também será por margem muito estreita. Eleito majoritariamente pelas classes médias das grandes cidades do centro-sul, mas sem apoio nos movimentos sociais, sindicatos e entidades de classe. 
Aécio já antecipou que seu Ministro da Fazenda seria o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga. Espera-se a cartilha que todos conhecem. Um duro ajuste fiscal, corte de gastos públicos, queda nos investimentos do Estado, controle da inflação com queda no consumo e na atividade econômica. Difícil não supor que haverá retração no mercado interno e consequente aumento no desemprego. A inflação deve voltar para o centro da meta. Os tucanos entregarão o seu pacote. O mercado financeiro deve ficar mais satisfeito e momentaneamente mais confiante e seguro, até que todo o sangue tenha sido chupado e uma nova e mais violenta crise de confiança se avizinhe.
Aécio deve mexer em questões delicadas como o controle do Estado sobre o preço da gasolina, o papel dos bancos públicos, a Petrobras, o câmbio e a independência do Banco Central.
Passada a calmaria muito breve por sua chegada no Planalto, não há como acreditar que para a implantação de sua agenda não haja um elevado nível de tensão social.
Soma-se aos movimentos sociais que já estão nas ruas em protestos, as entidades lideradas pelo PT e seus aliados, que ainda não colocaram o bloco na rua para preservar o projeto político principal e estratégico.
Para além de todo este cenário, Aécio teria que conviver também com o "fantasma" de Lula, que certamente seria invocado para as próximas eleições.
A fim de "exorcizar" Lula, Aécio poderia recair em outro desgaste, que seria uma espécie de caça às bruxas, tentando dinamitar o PT dentro do governo. Pior ainda, poderia propor, como tem falado, o fim da reeleição, mas em contrapartida uma mudança para o Parlamentarismo, o que afastaria a possibilidade de Lula voltar nos braços do povo.
A sociedade está dividida. A polarização não é somente partidária, mas de visões distintas referentes ao papel do Estado na sociedade e com relação aos direitos humanos e civis.
Talvez - somente talvez - estejamos prestes a presenciar a ruptura da cultura de conciliação política, onde no final todos ficam amigos e evitam grandes traumas.
Quem aprendeu a ser livre, não quer mais ser subjugado. Quem apreciou um suculento bife não quer comer farinha seca.
Seja quem for que ganhar as eleições no fim do mês terá que lidar não somente com a economia, o que todos discutem neste momento, mas com a política. Não deverá se concentrar apenas na construção da maioria no Congresso, mas também lidar com os estresses e transformações em nossa sociedade.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Escalada do Conservadorismo e a Polarização entre Esquerda e Direita.





Não é somente o cenário eleitoral que está polarizado. Como um todo, nossa sociedade experimenta um antagonismo entre direita e esquerda, poucas vezes ocorrido em nossa história.

Muitos irão questionar se o PT ainda é efetivamente um partido de esquerda ou se os tucanos são uma força genuinamente direitista. Porém, com efeito podemos dizer que estas duas forças políticas foram capazes de capturar em nível nacional um conjunto de pensamentos, expectativas e ideologias que estão em crescente conflito.

Quando o PT se aproximou do centro, num esforço de construir uma hegemonia política em que estivesse no topo e garantisse as condições para a chamada governabilidade, abrigou diferentes forças políticas que estavam órfãs, desde o processo de implementação da agenda neoliberal. Setores do nacional desenvolvimentismo brasileiro, incluindo forças reconhecidamente conservadoras, foram acolhidos no que ficou conhecido como lulismo.

Não são poucos os que criticam as alianças construídas pelo PT e sua operação política desde que subiu a rampa do Planalto. Algumas correntes de esquerda discutem severamente a aliança com alguns setores da burguesia nacional, inclusive a efetividade dos resultados desta coalizão de forças.

Ocorre que na política, muitas vezes as forças se acomodam onde encontram melhores espaços. Se estabelecem no terreno que parece ser mais fértil e que apresenta melhores condições. No espaço mais receptivo e com clima menos hostil.

Do mesmo modo, o PSDB foi empurrado para uma direita ideológica e intransigente. Ainda que os tucanos não sejam genuinamente uma força de direita, encontrou espaço e atalhos abrigando e sendo abrigado pelas correntes conservadoras.

A tentativa do PT de disputar espaço em setores da burguesia nacional pode ser considerada em parte frustrada. Se durante algum momento, Lula conseguiu costurar uma trégua para realizar importantes (e as possíveis) reformas sociais, esta não se mostrou uma aliança duradoura. Para a elite, a intercorrente relação com o PT é meramente funcional. Ainda que o setor produtivo tenha sido o mais beneficiado com a restauração da atividade econômica, parece não existir aderência destes setores para uma aliança com o atual governo. Ainda que seja em prejuízo de seus próprios interesses, hegemonicamente as elites jogam pesado para interromper o ciclo do PT no poder nacional.

É claro que estes setores da burguesia, como sempre fizeram, irão mobilizar as forças do Estado em favor de seus interesses. Seja com Dilma ou com Aécio. Porém, a cartilha rezada pelo PSDB prevê uma ortodoxia econômica que deve favorecer predominantemente o mercado financeiro. O corte de gastos públicos, investimento do Estado, o arroxo fiscal e o controle da inflação a partir da queda da atividade econômica, certamente provocará perdas em diferentes setores produtivos da economia.

Não é novidade que a nossa elite nacional é incapaz de se mobilizar em torno da construção de um projeto de desenvolvimento para o Brasil. Desde que eles continuem como ricos senhores e detentores de todos os privilégios sociais, pouco importa a decadência do país. Debaixo do sol não há nada novo.

O prestígio e os privilégios sedimentam a polarização entre conservadores e progressistas, não apenas entre PT e PSDB.

Muito mais do que questões como a corrupção, o crescimento econômico, a infraestrutura nacional, o que está em jogo é o desejo de restauração das velhas hierarquias. As transformações sociais causam ruídos, tormentos e transtornos. Muitos sentem-se inseguros. Nossa sociedade é vertical. A hierarquia social já faz parte da vida mental dos brasileiros. Muitos anseiam para que ocorra logo a acomodação das classes para que se saiba logo a quem servir o por quem deve ser servido.

E não se trata apenas de classes sociais e economia. Não foi só isso que mudou nos últimos anos. A nostalgia das velhas hierarquias está diretamente ligada ao culto do politicamente incorreto. Estão em jogo também questões ligadas aos direitos humanos como o combate à homofobia, a emancipação das mulheres, as políticas afirmativas para os negros, a ocupação social dos espaços públicos.

Alguns podem supor que no fundo os dois partidos representem o mesmo projeto, mas na prática não é assim que a banda toca.

Para vencer a eleição, o PT deve reafirmar sua aliança com os setores mais pobres e desfavorecidos da nossa sociedade. Defender a proteção das minorias perseguidas pelas maiorias. E não se trata de minoria em termos populacionais, mas daqueles que são sub-representados nas instituições.

Do mesmo modo, a vitória da direita autoriza e prestigia os setores mais conservadores e intransigentes.

Nos últimos anos, a direita raivosa tem sido o fator de mobilização e aglutinamento dos progressistas.

Para quem acompanha a história política recente, uma frase usada na campanha de eleição de Bill Clinton em 1992 por seu estrategista James Carville, se tornou um jargão conhecido e uma tese defendida por muitos. Para encontrar o ponto principal para vencer George Bush (pai), ele exclamou: “É a economia, estúpido!”.

No Brasil de 2014, podemos dizer que Não é a Economia, estúpido.

Ainda que o cenário econômico esteja repleto de incertezas, ele não é mais problemático do que em nenhum momento da história recente do Brasil. Embora o crescimento seja pequeno, não há nada que esteja em descontrole. O nível de emprego é um dos melhores de nossa história.

A questão da corrupção é repetida exaustivamente, mas ela é só a fachada para manifestar sentimentos inconfessáveis. O PT não inaugurou a corrupção no Brasil. Governos de todos os partidos recebem denúncias preocupantes, inclusive com escândalos nos governos tucanos em São Paulo e em Minas Gerais. Mas o que se vê é uma espécie de indignação seletiva.

Às velhas forças tradicionais ou por quem já está na ponta de cima da pirâmide, a corrupção parece ser mais tolerada. O que incomoda mesmo é a subversão hierárquica. É quem se sente subvertido pela “corja sindical” que dirige o país.

Outras questões que não estão ligadas diretamente à condução econômica são mais relevantes neste pleito. O caos urbano nas grandes cidades, o desgaste dos doze anos do PT no governo, os gargalos na infraestrutura nacional, a qualidade dos serviços públicos como saúde e educação, a percepção de felicidade, consumismo, o endividamento. Todos estes pontos merecem uma análise mais aprofundada.

No entanto, não existe nenhuma experiência administrativa do partido de oposição, nem em sua última passagem pelo Planalto, nem nos estados dirigidos pelos tucanos, que faça crer que receberíamos resultados melhores mudando o governo.

Não faltam motivos razoáveis para realizar críticas sérias aos últimos governos do PT. No entanto, o que se vê, são manifestações de repúdio pelo que ele fez de melhor, não de pior.

A escalada do conservadorismo ficou nítida no resultado das eleições parlamentares. Se antes para conquistar o voto do lumpen conservador era necessário prometer obras faraônicas inexequíveis, hoje a promessa passa a ser a restauração dos “valores”. É a “bolsonarização” da política. Gerou-se também uma escalada de intolerância, não somente no ambiente político, mas na vida social dos brasileiros.

A discussão não é mais somente sobre o papel do Estado como regulador das relações econômicas e na redistribuição das riquezas. A direita não se limita apenas a defender o livre mercado, um Estado menos intervencionista e a predominância da iniciativa privada. Para os conservadores, existe um “inimigo social” invisível. O que mobiliza corações e mentes conservadoras é a restauração das velhas hierarquias e privilégios.

As recentes transformações sociais, ainda que insuficientes para sanar as grandes injustiças históricas, provocaram arrepios e escândalo em quem estava acostumado a desfrutar uma posição de privilégio. Hoje, certos posicionamentos não podem mais se manter ocultos. Se antes um racista se escondia atrás do mito da democracia racial no Brasil, hoje ele não mais tolera ser coagido a controlar os seus impulsos preconceituosos. Quando os gays permaneciam escondidos e não ambicionavam gozar de igualdade de direitos civis, eles eram mais “tolerados”, porém quando eles “ousaram” ocupar os espaços públicos que pertenciam aos “pais de família”, donos das “casas grandes” espalhadas pelo Brasil, passou a existir choque e destempero. Quando os “formadores do opinião” decidiam as eleições, fingia-se a satisfação com a democracia representativa. Com a insubordinação dos pobres, nem a grande mídia controla mais o processo. A democracia se tornou um inconveniente. Pipocam nas redes sociais defesas da ditadura militar e da tortura. Quando a mulher apanhava e aceitava de bom grado as pancadas, a família estava em “primeiro lugar”, já a Lei Maria da Penha ameaça subverter o poder do chefe patriarcal.

A mobilidade social, primeiramente gera um sentimento de euforia. Logo depois, ocasiona um desejo de preservação do status adquirido. A mesma classe média que foi gerada nos governos de Getúlio Vargas, em parte apoiou o golpe militar em 1964. A “nova classe C” é potencialmente conservadora e reacionária. Sua inserção social se deu via consumo. O número de evangélicos é majoritário. A memória de pobreza gera arrepios e precisa ser apagada, nem que seja através de uma aliança com os mais ricos.

Não que existam mais conservadores do que antes. Ocorre que eles foram obrigados a “sair do armário”. Eles sempre estiveram aqui. Os progressistas sim, estiveram por muito tempo desnecessariamente espalhados.

A polarização e o conflito de forças podem causar temores. Mas, talvez, tenhamos perdido um imenso tempo histórico em conciliações mentirosas.

A escalada do conservadorismo se reflete também numa escalada da intolerância. Devemos sim perseguir a paz e o bem comum, mas que isso não dependa da submissão, do conformismo, do cabresto e do retrocesso.

O respeito deve mútuo. Todos devem entender que também podem ser contrariados. Não seremos uma sociedade melhor com uma trégua social alcançada pela força, com opressores e submissos.