quarta-feira, 6 de maio de 2015

Núcleo de Estudos do Corinthians - NECO




É com alegria que convido vocês para a inauguração do Núcleo de Estudos do Corinthians - NECO.
Este é um projeto que tenho a imensa honra em coordenar sob a confiança do Departamento Cultural do Corinthians e em parceria com brilhantes Corinthianos, com os quais tenho aprendido muito a cada dia.
O NECO se propõe a estudar o Corinthians para além do jogo jogado nas quatro linhas, mas como um patrimônio social, cultural e histórico do povo brasileiro.
O NECO está aberto a todos os interessados em participar de forma organizada, colaborativa e e respeitosa na construção de um acervo de conhecimentos relativos à experiência corinthiana.
O Núcleo de Estudos do Corinthians pretende colaborar para que o Corinthians se aproprie dessa história tão rica e que também possa oferecer reflexões importantes sobre o clube e sua relação com os diferentes fenômenos sociais de seu tempo, apoiando a instituição para que ela esteja à altura dos desafios que se impõem na modernidade com um olhar arrojado e dinâmico para o futuro.
Vamos estudar o Corinthians e sua relação com importantes períodos e acontecimentos históricos, tais como a industrialização, a formação do proletariado na Cidade de São Paulo, os fluxos migratórios e imigratórios, a modernização da cidade, as vilas e favelas paulistanas, a redemocratização do Brasil, a globalização, entre outros.
Propomos também, colaborar com importantes discussões acerca de questões que se constituem em verdadeiros desafios para o futebol na atualidade como o racismo e a importância do Corinthians na promoção da igualdade racial, o machismo no futebol e os instrumentos para participação da mulher, a homofobia, o Corinthians e o futebol como negócio. Muitos outros tópicos de estudo que serão abordados em reuniões públicas mensais abertas a todos os interessados.
Vale destacar que o NECO não é uma instância deliberativa nem consultiva do Corinthians. Nosso único propósito é colaborar com estudos sobre a história do Corinthians e reflexões livres, num ambiente de liberdade intelectual que contribua para dar luz à questões do passado, do nosso cotidiano presente e com um olhar para os desafios do futuro, entendendo sempre o Corinthians como parte integrante de uma sociedade em movimento, colaborando para sua transformação e também sendo transformado por ela.
A primeira reunião pública do NECO será no dia 11 de maio (próxima segunda-feira), às 19:30 no Teatro do Corinthians, Rua São Jorge, 777.
A entrada é franca, porém o teatro tem capacidade limitada para 370 pessoas. Vale à pena tentar chegar cedo.
Nessa noite, teremos uma palestra com o brilhante jornalista Celso Unzelte, além de uma mesa de debates com pesquisadores do LUDENS – Grupo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Atividades Lúdicas – Universidade de São Paulo USP.
Reforçando que a participação no NECO é livre, independente de área de formação, profissão ou grau de instrução. Estão todos convidados!

domingo, 3 de maio de 2015

Rua São Jorge, 777



Meu primeiro emprego foi de office boy. Juntei uma grana durante meses. Por fim, consegui comprar um título do Sport Club Corinthians Paulista.
À época, um senhorzinho trabalhava como vendedor. Comercializava os títulos para novos associados. Era um dos revendedores autorizados do Corinthians, além de vender também os títulos de antigos sócios que se desfaziam de suas propriedades. 
Sim, os títulos de clubes eram como verdadeiros patrimônios dos associados. Tempos bem diferentes aqueles em que acessar um clube significava não somente pertencimento social, mas desfrutar de confortos hoje facilmente disponíveis em condôminos, academias, pousadas ou casas de praia. 
Havia aborrecido aquele pobre velho uma dezena de vezes, perguntando o preço e verificando se surgira alguma promoção ou desconto especial. Fiz isso durante semanas.
Quando por fim juntei a grana suficiente, peguei o ônibus "Penha" que passava atrás do antigo "Teatro Silvio Santos", na Parada Inglesa.
Escondi o dinheiro na cueca. Considerando valores de hoje, creio que não era tanto dinheiro assim, mas para mim representava a economia de um ano. Havia decidido que seria tudo do Corinthians. Seria eu, parte integrante daquele clube. Era como se tivesse comprando um terreno no céu.
Quando desci no ponto de ônibus que ficava bem em frente ao Parque São Jorge minhas pernas tremiam. Sentia meu couro cabeludo ferver. Estava realmente ansioso e a ponto de explodir.
Ajeitei o meu saco. Quem me observava a distância provavelmente pensou que eu fosse um moleque tarado, ou então que eu tinha uma enfermidade terrível nos testículos.
Carregava dinheiro grande. Cédulas de cruzeiro. Precisava de muitas delas para pagar o valor negociado.
Cheguei triunfante à frente do senhorzinho. Tinha um sorriso muito largo no rosto. Algo que eu não podia controlar, nem se eu quisesse. 
Acho que ele percebeu minha felicidade. Foi cúmplice dela. Ainda que, certamente, aquela fosse uma das vendas mais sofridas e choradas que ele já havia realizado em sua importante carreira.
Me acompanhou solenemente até um guichê bem rústico e simples.
Dentro de uma janelinha escura, um senhor, ainda mais velho e arruinado, conferia meus documentos. Depois passou a contar as cédulas sem supor por onde elas tinham passado.
Depois de se certificar que estava tudo dentro dos conformes, buscou uma máquina de escrever bem pesada que deve ter sido usada para firmar o contrato do Cláudio, do Luizinho ou do Baltazar.
Tudo bem que eu estou ficando velho, mas não vamos exagerar. No começo dos anos 90, os computadores e impressoras já faziam parte do cotidiano das grandes empresas. Mas não do Corinthians. Nem sempre este clube teve essa obsessão louca pela modernidade. As coisas no Corinthians eram do arco da velha. Pensando bem, creio que essa sanha modernizadora do Corinthians atual e esse desespero pelas novidades e por se inserir no mercado global do futebol contenha algum nível de complexo pelos anos de atraso que de alguma maneira se refletia nos resultados dentro de campo.
Essa falta de gosto pelo novo que o Corinthians tinha, a falta de compostura, a ausência do esteticamente aceitável, a breguice que se projetava em times de futebol meio grossos e uma torcida mais simples e menos "pop". Nada disso tirava o encanto do nosso clube do coração. Ao contrário, significava mais um elemento de identidade com a vida da gente. A gente era esse Corinthians meio desengonçado no cotidiano. Que ganhava uma grande conquista depois de suar como condenado e logo tomava tantas outras na cabeça. Inevitáveis desilusões e decepções. Mas era assim mesmo. Segue o jogo. 
Igualmente, com essa vida sofrida que vivíamos, dávamos sem saber a cara daquele Corinthians de outros tempos.
Muitos amigos, entre os quais eu me incluo, sentem alguma nostalgia desse Corinthians que de algum modo parece que se foi para nunca mais voltar. Um Corinthians que vive agora em algum lugar dentro da gente. Na melhor das memórias afetivas.
Mas não é só o Corinthians que mudou. A sociedade mudou, e este clube, como a mais bela de suas expressões, mudou junto com ela.
A molecada não esconde mais dinheiro pra ser sócia de nenhum clube, ela quer celulares, video-games, tênis e roupas de marca.
Não usa a camiseta dada de presente pela tia. Agora, experimentam uma vaidade exarcebada que a gente não tinha. Não querem brincar no clube, querem visitar lugares mais espetaculares. Também não aceitam "viver sofrendo" como os corinthianos de antigamente. Querem se dar bem. Precisam ser os melhores na vida e na bola. Vivemos em uma sociedade que nunca foi tão baseada no prestígio pessoal. Sendo assim, todo mundo tem uma obsessão louca por ser o maioral. A galerinha quer ver o Corinthians campeão todo ano. Mal sabem eles o que a gente já passou...
Quando eu vi o meu nome completo estampado no título patrimonial do Corinthians fiquei muito feliz. Na viagem de volta, ocasionalmente tirava a certidão do envelope e olhava para ela satisfeito e sem me importar que os outros passageiros vissem aquilo que eu havia adquirido.
Foram tempos felizes. Jogava bola no terrão aos sábados com os veteranos. Uns senhores bem mais velhos que eram espetacularmente bons de bola. E adorava jogar basquete, o esporte em que me dava melhor na escola.
Certo dia convidei um amigo que era filho de um cliente do meu pai para conhecer o clube. Ele também jogava basquete e gostou da ideia. Decidiu-se por comprar um título do Corinthians para me acompanhar nos jogos. Algo que ele faria sem o mesmo esforço que eu tive, pois a família dele tinha dinheiro e esbanjava status.
No dia seguinte fui ao encontro dele para irmos juntos ao clube. Ele falou meio sem jeito que não mais iria frequentar o Corinthians.
Seu pai gritou bem alto para que eu escutasse. Que o Corinthians era clube de pobre. De gentalha. Mal frequentado. Que de presente lhe daria um título do Espéria ou do Sírio que esses sim eram clubes de verdade com gente decente.
Tinha me matado tanto para comprar o título do Corinthians e descobrira de uma maneira cruel que minha nova aquisição era para alguns algo desprezível. Pior, nem era por rivalidade futebolística, mas efetivamente por preconceito social.
Adorei aquela sensação de ser "má influência". Não a conhecia até então. Gostei de saber que o Corinthians era um lugar potencialmente perigoso. Me senti muito mais atraído por aquela atmosfera.
Como a vida dá muitas voltas, fiquei sabendo que a família do rapaz foi à falência e que eles vivem hoje arruinados com muita dificuldade financeira. Eu continuo me virando, dando um passo de cada vez e feliz por estar conquistando o meu espaço. Mantendo sempre a humildade porque esse lance de arrogância dá um azar desgraçado, tanto na vida da gente como também no futebol.
Como eu amo o Corinthians!
Vinte e tantos anos depois vou poder fazer um trabalho por esse clube. Um projeto que acredito. É como se tivesse novamente entrando pela primeira vez naquela terra santa. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Não Sonho com a Redução da Idade Penal



Não sonho com a redução da idade penal.

Sonho com a criançada em boas escolas de tempo integral, com três refeições diárias, uniformes bonitos, instalações adequadas e modernas, meio período de aula e outro com práticas esportivas, atividades extracurriculares, inglês, francês, judô, natação, informática. Tudo o que a molecada tiver afim. Pra no final do dia o menino chegar em casa cansadão, sem condições nem interesse pra consumir o veneno enlatado de cada dia na televisão. Pra não se preocupar com as intrigas dos adultos. Pra não receber uma injeção diária de frustração e de maldade. Ser uma criança feliz e cuidada pra no futuro devolver só coisas boas para o país e para o mundo em que vive.

Não quero ver os meninos no presídio de Presidente Epitácio.

Melhor mesmo é essa galerinha em sala de aula e na pista de atletismo. Numa escola bem chique, no coração de sua comunidade, pra ser feliz na favela onde nasceu. Em bairros urbanizados, com ruas bonitas e calçadas pra galera passear. Com saneamento básico e sem aquele esgoto fedorento trazendo os ratos pra dentro de casa. Com uma pracinha simples, porém simpática, onde a criançada possa brincar no parquinho, os velhinhos jogarem dominó e a rapaziada fazer aquele samba.

Não quero a criançada sendo “cliente” da polícia nem do carcereiro.

Melhor mesmo é gerar emprego para professores valorizados. Bem qualificados e bem remunerados. Estimular o crescimento e desenvolvimento econômico a partir da educação, não através da construção de novos presídios. Quero ver a molecada sair da escola podendo ingressar num emprego decente. Ter uma carteira profissional. Uma carteira de identidade, CPF, Título de Eleitor, Passaporte, conta corrente, caderneta de poupança. Tudo direitinho. Servir ao seu país, sendo parte integrante de uma energia transformadora e inclusiva, não marginalizados e sem perspectiva nenhuma para o futuro, encontrando no crime a única possibilidade de reconhecimento e “respeito”.

Não gostaria de ver as mães sendo abusadas ao visitarem seus filhos na cadeia.

Queria mesmo é viver num país menos racista. Que ao menos fosse capaz de reconhecer o racismo como um instrumento de prolongamento da escravidão e um sistema sofisticado para excluir o povo negro dos melhores cargos, dos melhores bairros, das melhores festas, das melhores universidades e fazê-lo morrer aos poucos (ou aos muitos) em chacinas e genocídios nas quebradas das grandes cidades. Que a cadeia não fosse o “destino destinado” aos negros e o condomínio fechado para muitos dos criminosos de grife que quase sempre ficam impunes.

Não quero que os jovens entrem cada dia mais cedo para as “universidades do crime” que são as cadeias do Brasil.

Melhor seriam universidades de verdade. Universidades públicas. Que a molecada possa continuar a ser craque de bola, mas que também possa ser craque nos estudos, em pesquisas, em laboratórios, bibliotecas. Na verdade, eles são craques de bola porque é aquilo o que eles tem a disposição. Porém, com os instrumentos do conhecimento, podem revelar cada vez mais o potencial criativo e humano do povo brasileiro.

Não sonho com uma criançada crescendo com medo do Estado.

Sonho com um Estado mais presente na vida das pessoas, com menos repressão e mais infraestrutura urbana e social. Com saúde, educação, transporte e trabalho digno.

Não queria a molecada ouvindo aquela bosta de “Funk Ostentação”.

Que eles ouçam sim o funk, o rap, o forró, o punk rock. O que der na telha. Mas que um dia deixemos de ser essa sociedade estúpida baseada no prestígio. Onde desde cima da pirâmide você vale o que você tem, não o que você é. Uma sociedade que ensina ao jovem que você pode passar por cima do amigo, do irmão, dos pais, do colega. Que você pode ser o maior cafajeste do mundo. Mas não pode passar a maior vergonha do mundo que é fica fora do camarote. Ser um pobre fodido. Que não prometamos aos jovens o que eles simplesmente não precisam alcançar. Que nem motos, nem carros, nem celulares e nem aquela porra de tênis horroroso que custa mais de mil reais podem ser “crachás de pertencimento” mais valiosos do que o conhecimento e a fé em si mesmo.

Não quero a molecada sofrendo de desilusão e tristeza.

Que as famílias não se esfacelem diante das exigências absurdas que esta sociedade consumista impõe. Que não se acabem nas drogas e no álcool. Que as meninas encontrem rapazes educados, respeitosos, decentes e justos. Que nenhuma religião ou seita possa limitar a capacidade da juventude se amar. Que se amem da maneira que queriam e com quem queiram. Sem culpa. Sem dogmas. Com liberdade. Fazendo tudo direitinho. Cuidando da saúde pra poder se amar sempre.

Que a molecada morra de amor, não de bala perdida ou achada. Que se encontrem em lindos olhares e sorrisos. Que planejem suas famílias. Que as meninas possam conhecer a universidade antes da gravidez. Que viagem pelo mundo. Que conheçam novos modelos de sociedades menos injustas e desiguais. Que se encorajem a construir um Brasil mais lindo e menos cruel. Que vivam a vida. Que sejam livres! Que multipliquem o amor!

E que assim estejam muito longe da prisão.

Vamos receber algo muito mais bonito e grandioso no futuro se não matarmos nossos jovens na masmorra.

terça-feira, 31 de março de 2015

A Cultura do Selfie e a Experiência como Produto de Consumo



Nos cruzamentos de São Paulo, os camelôs não vendem mais chocolates a dois por dez, três por dez, cinco por dez, oito por dez, cinquenta por dez.
A moda agora é o "pau de selfie".
Pudera, promete ser interessante postar as auto-fotos nas redes sociais, mostrando aos nossos pares como a gente se vê no espelho. Receber instantaneamente um "Feed Back do Selfie", descobrindo se os outros nos veem da mesma maneira como nos vemos. Se realmente somos tão bonitos (ou no mínimo toleráveis) quanto nossa persistente autoestima insiste em nos convencer.
Honestamente, não sei se a cultura do selfie favorece o auto conhecimento ou a auto apropriação.
De certo, nos tornamos mais exibicionistas ou no mínimo encorajados a mostrar o próprio corpo.
Aqueles mais discretos e reservados podem exercitar o seu potencial voyeurista, dispondo de uma oferta generosa de poses, caras e bocas alheias.
Todos parecem conhecer seus melhores ângulos. A medida exata do sorriso. A posição mais adequada da câmera, afim de recortar o melhor extrato de si mesmo.
A paisagem de fundo se converte em uma mera moldura do "auto selfie em si próprio". Seja no Japão, no Guarujá ou no Himalaia. A paisagem não significa nada se não houver o registro documental de que você esteve por ali.
Muitas pessoas têm a chance de viajar e visitar locais incríveis, com paisagens magníficas. Mas não se dão conta que sequer puderam ver a incrível beleza do mundo com os próprios olhos. Viajaram por dezenas de horas e viram a exuberância do local apenas através de uma lente de câmera.
Não se permitem nem ao menos alguns minutos de contemplação à olho nu.
Um tempo da vida olhando calmamente uma montanha, uma floresta, uma cascata. Encher os pulmões com ar puro, sentir o cheiro e as vibrações que vem da natureza.
É preciso acelerar o passo! O dia é curto para visitar tantos locais diferentes e fazer novos registros fotográficos para mostrar a todos que você esteve ali, onde poucos estiveram.
Virou notícia nos jornais o tour que algumas pessoas fizeram no prédio que explodiu no East Village em Nova Iorque. Os turistas tiravam selfies sorridentes com o prédio destruído ao fundo. 


Ano passado, durante o velório do Governador Eduardo Campos, houve quem também tirasse selfie ao lado do caixão.
Há quem vá ao protesto para tirar foto ao lado da patrulha de choque.
Seja no paraíso ou na tragédia, o importante é poder dizer "eu estive lá".
Como em um álbum de figurinhas. Colecionar momentos, situações, experiências.
Na nossa sociedade tudo vira produto. Tudo é consumível. Tudo é quantificável. Tudo é perecível.
Tudo se converte em mercadoria. Sejam os bens de consumo ou mesmo as necessidades básicas pessoais (um dia também chamadas de direitos), como saúde, educação e segurança.
É assim inclusive com o conhecimento, a arte e até mesmo o amor.
A "experiência" também é mercadoria. Também é consumível. Também é colecionável. Também é acumulativa.
Estamos em permanente competição uns com os outros. Não à toa estamos tão esgotados, tão frustrados e impedidos de sermos felizes. Ou ao menos de estarmos conformados. Não podemos encostar em qualquer canto e deixar a vida passar. Simplesmente não podemos parar. Somos obrigados a continuar. A buscar o êxtase. A tirar uma selfie e mostrar pra todo mundo que estamos eufóricos e vivendo o melhor da vida.
Na verdade, estamos muito cansados. Pode até parecer frustração, porque é sempre preciso mais e agora o doce não tem tanto sabor como tinha tempos atrás. Mas estamos esgotados, só isso.
Precisamos de um tempo. Não precisamos de tanta coisa assim.
Só de uns bons amigos, uma mesa de dominó, um bom livro, uma rede, roupas simples e confortáveis, um amor sincero e generoso ao lado da gente.
Sem tanto barulho. Sem tanto estresse. Sem tantas pressões e exigências. E, acreditem, sem tantos flashes. Na verdade sem nenhum flash.
Estamos cansados.

domingo, 15 de março de 2015

15/03/2015 - 30 anos do fim da ditadura militar no Brasil. A história e suas ironias.

A história e suas ironias. Hoje faz 30 anos do fim da ditadura militar no Brasil. Numa conjuntura traumática, com Tancredo Neves internado e caminhando para seu fim, José Sarney assumiu a presidência, quando as circunstâncias da doença de Tancredo animavam um ou outro general que enxergava a possibilidade de prolongar por mais algum tempo a permanência dos milicos no poder.
Nós brasileiros, ainda temos a necessidade infantil de identificarmos grandes heróis, nos quais pudéssemos projetar virtudes paternas, mais oriundas da necessidade de recompor nossas carências do que de reproduzir nossas referências.
O fato é que mesmo aos trancos e barrancos, a redemocratização do Brasil é uma experiência de sucesso e um exemplo para o mundo.
Isso não absolve nossa classe política que muitas vezes se comporta como despachante de interesses corporativos e abre mão de seu potencial transformador em troca de benefícios no varejo.
Mesmo assim, com todos os percalços, nossa democracia é uma vitória do povo brasileiro.
Melhoramos o país com índices relevantes em todos os indicadores econômicos e sociais, como mortalidade infantil, analfabetismo, acesso à universidade, exclusão social, distribuição de renda, miséria, segurança alimentar, produto interno bruto e estabilidade da moeda.
O Brasil não é um grande pedaço de terra perdido no mundo e, queiram ou não, ocupa sim importante protagonismo nas relações internacionais, sem intimidar nenhuma outra nação com as armas e defendendo sempre a paz e o respeito entre as nações.
Nossa dificuldade em garantir um crescimento econômico regular e estável nas últimas décadas é preocupante, mas não deixa de ser um dos reflexos das escolhas democrática que fizemos. Um país democratico, com instituições funcionando coloca para si obstáculos e controles internos que um governo autoritário não tem.
Quem despreza a democracia demonstra incapacidade de exercer sua cidadania e carece de espírito público.
Jogar fora as conquistas democráticas é tudo o que essa nação não precisa e não quer.
Ressentidos histéricos defendendo o retorno dos militares são os irmãos que o Brasil não precisa. Pessoas que, além de tudo, demonstram desconhecimento histórico.
A Ditadura Militar deixou o Brasil em frangalhos.
A inflação era de 226% ao ano e a renda per capta dos brasileiros havia caído 19%.
Tudo isso num governo que intimidava seus inimigos e não precisava negociar, como ocorre hoje, suas decisões de gestão.
Com toda a turbulência das últimas três décadas, construímos um país mais eficiente, mais justo, mais humano e sem um aparelho repressor de Estado que amedronte seus filhos e desrespeite os direitos civis.
Se podemos sair às ruas para protestar às sextas ou aos domingos, isso é privilégio de uma nação democrática.
Se há muito o que melhorar e temos muito pelo que lutar, é importante dizer a democracia é o melhor dos instrumentos e o mais nobre dos fins.
Viva a liberdade!

quinta-feira, 12 de março de 2015

Os Perigos da Histeria Política Coletiva





Alguns dos momentos mais terríveis e tenebrosos da história foram precedidos de surtos de histeria política coletiva.

É só olhar com atenção e perceber como as epidemias de certezas são recorrentemente capturadas por forças políticas interessadas em fazer triunfar interesses inconfessáveis que só podem ser conquistados num ambiente de comoção e confusão generalizada.

Poucos parecem interessados em análises estruturais e raciocínio estratégico sobre o futuro do Brasil e o fortalecimento da nossa república, ainda em construção.

Estão todos com tochas nas mãos e espadas em punho, babando de ódio e fazendo política com o fígado. Colocando em prova todo o nosso analfabetismo político e as raízes sociais mais profundas do nosso subdesenvolvimento.

Emergem na nossa cara, como que em um pastiche remodelado em um novo figurino, todas as mazelas da nossa construção social. Ao que parece, estão caindo na nossa conta corrente vários cheques pré-datados desde quinhentos anos atrás.

Não há nada de novo. Tudo é velho e conhecido. Vemos desfilar na avenida o bloco do colonialismo, da exploração predatória das nossas riquezas. Os quase quatrocentos anos de escravidão no Brasil e a cultura escravocrata que orienta até hoje a vida mental dos brasileiros. O patriarcalismo. O clientelismo. O patrimonialismo. Todos os ismos sambando com a ponta dos dedos. Obviamente, também a nossa falta de educação (sob todos os aspectos). A construção do nosso capitalismo precarizado, onde a livre iniciativa, a competição, os resultados e as liberdades individuais foram esganados para a conservação dos velhos privilégios.

Talvez, tenhamos os únicos capitalistas do mundo que combatem justamente o fortalecimento do mercado interno. E quem o defende, ainda por cima é chamado de comunista. Vai entender… Mas dá pra entender. O que conta por essas bandas não é o desenvolvimento capitalista, mas a disputa sanguinária por um lugar mais alto na pirâmide. Se o importante para os nossos caboclos fosse a defesa do capitalismo brasileiro, muito provavelmente Getúlio, Juscelino e Lula fossem heróis das classes médias urbanas e não figuras amaldiçoadas, cada um em seu tempo.

A mobilidade social, num primeiro momento provoca o sentimento de euforia. Porém, imediatamente depois, surge o desejo de conservação do status adquirido. As novas classes médias não são mais potencialmente reacionárias. Agora elas são reacionárias de fato! Seja em 1954, em 1964 ou em 2015. Assim são por formação e por necessidade de sobrevivência. A memória de pobreza é pavorosa e terrível. Cada um se segura como pode.

Neste contexto em que o discurso conservador torna-se uma ferramenta de pertencimento social e as forças políticas populares foram incapazes ou desinteressadas em disputar espaço ideológico, entendendo, conhecendo e participando do cotidiano das pessoas, tudo ficou entregue de mão beijada para as igrejas, mídia ou mesmo para a ignorância “free lancer”.

No pior cenário, o crime organizado também comprou a alma de quem estava marginalizado e sucumbiu às promessas mentirosas desta sociedade baseada no prestígio.

Talvez aí resida um dos erros capitais dos governos populares. A incapacidade de reorientar os valores desta sociedade baseada no prestígio. E, honestamente, nem sei se isso seria possível, já que estamos todos submetidos ao triunfo global do neoliberalismo. Daí dá pra perceber que não é sem motivo o discurso contundente e as preocupações corajosas do Papa Francisco.

Os cachorros loucos estão todos soltos nas ruas. Muito difícil argumentar, debater e discutir sem o risco de tomar uma mordida e ficar raivoso também.

É mentira que a questão principal seja a corrupção. Não é! Também é mentira que seja a política econômica. Nem de longe este é o pior momento da nossa economia. A agenda econômica do segundo governo da Dilma é, em grande parte, a mesma defendida por seus adversários. A presidenta afaga quem a quer ver estrangulada. Isso simplesmente não funciona. Nem no resultado político, nem no resultado econômico.

O que vemos de fato é uma camada da sociedade que não se sente representada pelo governo do PT e que no pano de fundo quer se enxergar mais branca do que realmente é.

Não importa que ao fim todos os corruptos e cafajestes do Brasil sejam perdoados e absolvidos. O negócio agora é derrubar o PT e no dia seguinte ao “tão esperado” impeachment de Dilma, condenar à forca quem estiver na órbita de Lula.

E para a massa histérica e perfumada, tanto faz se para isso tivermos que vender a alma para o diabo condenando o futuro do Brasil. Recordo-me que tempos atrás alguns revoltados cibernéticos enviaram um “pedido de socorro” aos Estados Unidos da América. Muito provavelmente este pedido tenha sido escutado.

Obama dedicou todo seu primeiro governo para se livrar da agenda política internacional de W. Bush. O ex-presidente era um elefante numa loja de cristais. Naufragou com a ALCA. Passou seu mandato nas areias movediças do Oriente Médio. Não por acaso a América Latina conseguiu consagrar avanços na década passada.

Qualquer um que acompanhe com algum nível de atenção o noticiário internacional irá perceber que o inimigo central dos EUA no atual momento são os BRICS.

Para cada guerra há um tipo de arma. Em terras brasileiras temos algo mais devastador do que bombas, terremotos, vulcões e maremotos. Nossa elite perversa não está disposta a dividir nada. E não se importa em entregar de mão beijada nosso petróleo e nossas riquezas que poderiam significar um futuro de prosperidade e justiça social, justamente o que esta elite não quer.

Os revoltados de hoje serão os ressentidos de amanhã. Ninguém vai perder mais com a confusão que se anuncia do que a própria classe média. Mas não adianta falar com quem não quer escutar. Muita gente acreditou naquela história do “nós contra eles”. E pior, sem pestanejar, muita gente foi correndo pro lado “deles”, sem presumir que no final das contas, seremos todos nós que vamos pagar com o nosso futuro.

terça-feira, 3 de março de 2015

Invejo os Antipetistas

Invejo meus amigos AntiPT, AntiDilma, AntiLula, AntiHaddad.
Aqueles que dedicam boa parte de sua energia vital odiando a "quadrilha de bandidos".
Invejo mesmo. De verdade.
Tudo parece bem simples. Os problemas resolutos no combate à um inimigo único e delimitado.
Fica muito mais fácil ser feliz, sem tantos poréns e variáveis conjunturais pra se analisar. É simples, tira o PT que resolve. É como construir uma via de mão única na cabeça da gente.
Dá pra concentrar muita energia nessa tarefa messiânica. É menos gente pra se odiar (tá tudo concentrado). Também muito mais fácil pra se sentir inteligente, puro, culto e socialmente estabelecido. É "Fora Dilma" e aí sim estaremos prontos para "um novo momento da nossa nação".
Invejo meus amigos, inclusive quando eles supõem que eu seja meramente PróPT, PróDilma, Pró Lula ou PróHaddad.
Ah, como eu queria que assim fosse... Seria tão mais fácil também. Seria só sentar de um lado da arquibancada nesse Fla x Flu ensandecido e torcer pro "time da Dilma".
Porra, mas não é assim.
É cada tombo que a gente leva pra pouca pinga que a gente tomou.
E nem do PT eu sou...
Fica tão mais fácil quando a gente simplifica tudo e reduz as coisas ao tamanho da nossa compreensão, não é?
"Risca o carro de um petista", "da porrada nele", logo, são todos de bem. Tá tudo certo. Estariam todos ungidos pelos deveres dos bons.
Quem precisa de análises estruturais?
A turma do bullying está cada vez mais corajosa e confiante.