quinta-feira, 12 de maio de 2016

O orgulho de ser o perdedor. Somos o sonho de liberdade



Continuamos nos esborrachando na história.

Morrendo pela espada de quem defende o status quo.

Porque as coisas são assim como são e ponto final.

Permanecemos esganados pelas mãos de quem odeia as ideias transformadoras.

Aqueles que outrora consideravam radicais e subversivos os homens e mulheres que combateram a escravidão.

Somos ainda sufocados pelos obscurantistas. Aqueles que precisam alienar o homem sobre a própria existência. Aqueles que tentam nos envergonhar justamente de tudo aquilo que nos torna humanos. Nossos desejos, nossos vícios, nossos fluidos, nossa fisiologia, nossos amores, nossa convivência. Tudo o que nos aproxima de nós mesmos há de ser considerado sujo, imoral, pecado e se possível estabelecido como crime.

Continuamos sendo queimados em fogueiras santas.

Não por acaso o conservadorismo político ajoelha safadamente no genuflexório do conservadorismo religioso.

A liberdade sobre o próprio corpo e a liberdade sobre o próprio espírito são as duas mães lésbicas de todas as outras liberdades. Quem é dono de si mesmo não abre só o corpo, mas abre a cabeça e a mente para novas ideias. Para outros sonhos lindos de liberdade. Quem não ajoelha no milho dos pastores severos, supera os dogmas e o medo do inferno. Não presta mais para ser escravo de ninguém. Questiona hierarquias cosmológicas e terrenas.

Façamos fila pois, para queimarmos em praça pública. A não ser que digamos em voz alta que o universo gira em torno da terra. Que o planeta não é redondo. Que viemos do barro. Que a Eva veio da costela de Adão. Que a miséria sempre existiu e sempre vai existir. Que é normal sair de casa e ver alguém comendo lixo à sua frente. Que devemos assistir milhões de pessoas sucumbindo às pestes e doenças por não pagar a patente do remédio. Que o homem leva um foguete até marte, mas os carros não conseguem andar sem combustível fóssil. Que se gasta trilhões em armas de guerra, enquanto vemos irmãos e irmãs da mesma espécie morrendo desnutridos como caveiras humanas. Tudo isso é normal! Gritemos! As coisas são assim e pronto!

Somos o incômodo do mundo. Os que não aceitam as fórmulas prontas. As malas que não se submetem e não acreditam em soluções simples. Os rebeldes. Não somos os bons filhos. Somos as filhas que vão para onde querem. Por isso precisam nos eliminar para manter a ordem e garantir o progresso. Ordem pra cima de nós todos e progresso em benefício deles poucos.

Quem aceita tudo de bom grado, quem acredita nas promessas como bom gado, quem confia no sistema, precisa necessariamente nos odiar. É preciso nos apagar para acreditar na própria felicidade. Para confirmar que as realizações que custaram tanto são realmente importantes. Que não se traíram tanto assim. Que a angústia que mora no fundo do peito não há de ser nada. Nossa coragem revela uma covardia geral. Por isso precisamos sumir. Por isso nos mandam pra Cuba, pro Nordeste, pra Coréia, pra Rússia, pra cadeia, pro cemitério.

Incomodamos mais do que qualquer governo. Mais do que qualquer partido. Somos o triunfo do Alecrim e a lágrima do Pierrô pelo amor da Colombina.

Somos o esforço humanitário contra a lei do mais forte. Somos o desejo de liberdade. A vontade de independência. Somos contra o imperialismo. Somos contra a opressão. Seguramente haveríamos de ser indesejados por quem aceita a dominação de bom grado e não se preocupa em questionar nada, com medo de perder o mísero privilégio que acredita possuir.

Não temos medo da luta. Questionamos as regras. Por certo que somos inimigos de quem dá as cartas.

Defendemos os Direitos Humanos. Obviamente seríamos detestados por quem aceita e apoia a tortura. Somos xingados todos os dias em horário nobre na tevê, no rádio, no jornal e na internet.

Denunciamos o racismo. Necessariamente haveremos de enfrentar os racistas. Àqueles que acham que o melhor remédio contra a injustiça é fingir que a injustiça não existe. E fiquemos todos falsamente amigos. Alguns com os privilégios. Outros com o chicote, as favelas e a exclusão.

Senhoras e senhores. Permitam-me chama-los de companheiros, camaradas, irmãos e irmãs, amigos e amigas. 
Meus amores.

Não derramem uma só lágrima. Não abaixem vossas cabeças supondo que foram derrotados. Não há do que se envergonhar. Não há porque esmorecer.

Há certas fogueiras onde é bom queimar. Há certas guerras onde é bom tombar. Há certas batalhas onde não há vergonha nenhuma em perder.

Há certas vezes na vida e na história que o melhor mesmo é estar entre os perdedores.

Simplesmente porque seria insuportável para nossa consciência livre estar entre os vencedores. Porque não haveria humilhação maior do que trair àquilo que acreditamos.

Ergamos nossas cabeças. Estejamos mais próximos do que nunca.

“Eles” berram alto. São raivosos. Vivem do golpe porque não convencem mais ninguém. Não tem condições de liderar. Não oferecem nada de novo. Não são alternativa para nada. Tudo que há neles é velho, arcaico e medieval.

A verdadeira evolução possível para os homens é a evolução nas relações humanas. Só haverá futuro possível multiplicando a cultura de paz

Vamos nos perder em boemias criativas. Em amores ardentes. Saiamos dos guetos e ocupemos as ruas, as praças, as avenidas. Joguemos fora todas as arrogâncias. Falemos com as pessoas. Sejam generosos. Aceite carinhosamente quem até outro dia pensava diferente. Vamos dividir o melhor que a gente tem e mobilizar o mundo em tremendas ondas de amor.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O dia que vale por décadas de atraso





Este é o dia que vale por trinta anos. Três décadas de retrocesso.

A redemocratização do Brasil era até então uma história de sucesso. O país melhorou sob todos os aspectos após o final da Ditadura Civil-Militar (1964 – 1985). Ainda que nas últimas três décadas tenhamos taxas absurdamente baixas de crescimento econômico, o Brasil aumentou sua importância relativa na geopolítica internacional e também sua importância econômica global. Os índices de desenvolvimento social foram muito superiores às décadas anteriores, sejam eles no acesso à educação fundamental ou ao ensino superior. Na expectativa de vida, na redução da mortalidade infantil. Na prestação dos serviços públicos. Na estabilização da moeda e na redução da miséria extrema.

Aos trancos e barrancos, no fundamental o Brasil ia bem. Sem superar totalmente as injustiças históricas, sem uma estratégia definida de desenvolvimento econômico e social, sendo reflexo da negociação entre os grandes interesses econômicos e as pressões sociais e políticas que ganhavam força e acúmulo, mas estávamos encontrando nosso caminho.

O mundo passou a enxergar o Brasil como uma potência emergente. Nos reposicionamos de maneira muito interessante na política externa. Ganhávamos o respeito e despertávamos o interesse de quem investia pensando no futuro.

Mas jogamos agora tudo na lata de lixo onde se depositam os livros de história que não serviram para nada.

Com todos seus problemas internos, o Brasil tinha algo que era uma espécie de trunfo para ser considerado uma aposta de futuro. Tínhamos estabilidade política. Uma democracia moderna, repleta de distorções (que agora se revelam como nunca), porém não haviam rupturas drásticas e a ameaça de convulsões políticas e sociais. As instituições democráticas trabalhavam todas livremente. O voto livre e secreto tornou-se universal e o resultado das urnas respeitado.

Já que a direita liberal gosta tanto de falar em “atrair investimentos externos” ou “ambiente de negócios”, vale fazer algumas reflexões.

Tal “ambiente de negócios” certamente não será mais o mesmo daqui por diante.

O fato de o Brasil ser uma democracia estável e até mesmo o fato de um operário metalúrgico ter se tornado presidente, sem que houvesse rupturas no processo político, certamente era decisivo para quem decidiu investir no país.

A direita liberal, com a sanha privatista que possui, deveria fazer uma reflexão. Em geral, os contratos de concessão envolvem duas ou três décadas. A confiança na estabilidade política é decisiva para um “ambiente saudável para os negócios”.

No governo do PT não houve ruptura de um só contrato que este país tenha assinado, ainda que alguns desses contratos tenham sido assinados de maneira espúria na calada da noite. Ainda que para desapontamento das forças políticas de esquerda, todos os acordos foram mantidos. Isso, sem dúvidas, foi de grande estímulo para os investimentos diretos.

No governo do PT houve permanente compromisso com a estabilidade da moeda. Ainda que tenhamos em algum período ligeira alta da inflação – por decisões políticas que também geraram ganhos para o país – não houve descontrole. A inflação foi compatível com os números do Governo FHC, por exemplo.

Ainda que existam interpretações diferentes sobre o papel do Estado na condução, regulação e orientação da atividade econômica privada. Ainda que os liberais sintam-se em condições de “acusar” o governo de intervencionista e interpretar livremente os resultados da atuação do Estado nos resultados econômicos, segundo a visão de mundo que dispõem, não há como dizer que este governo tenha inibido ou se apropriado dos ganhos do setor privado. Todo mundo trabalhou livremente. E ganhou dinheiro.

Houve plena liberdade de imprensa (inclusive liberdade de conspiração). Houve liberdade política. Liberdade de manifestação. Não houve aparelhamento de nenhuma instituição. Não houve mudança na Constituição! Lula não pleiteou um terceiro mandato. Dilma não foi apenas eleita. Foi reeleita pela maioria da população que, mesmo sob o efeito da crise econômica que se iniciava, fez o seu balanço e em sua consciência livre optou por mais um mandato à presidenta. Preferiu Dilma e negou eleger o candidato da oposição, talvez por entender que o que estaria por vir (e agora insiste em surgir), seria uma agenda muito mais crítica e danosa para a população mais pobre.

Quem acreditará que após o Golpe haverá confiança, reconhecimento e estabilidade no próximo governo, se justamente o governo eleito democraticamente foi destituído?

Quem acreditará que o resultado das próximas eleições será respeitado, quando não houve respeito ao voto de cinquenta e quatro milhões de brasileiros, não por acaso, em sua grande maioria, da camada mais pobre da sociedade?

Quem não irá acreditar que retrocederemos a um ciclo de golpes, contragolpes, golpes nos contragolpes, canetadas, tapetadas, carteiradas e assim por diante? Quem desejará investir (me refiro a investimentos sérios) num país assim?

Quem confiará que os contratos serão cumpridos em longo prazo, quando o maior contrato de todos não foi respeitado?

Qual capitalista não sentirá pavor de um próximo governo de esquerda (e sim, estejam certos que ele virá), quando se sabe que mesmo cumprindo todos os acordos, contratos e respeitando os lucros indecentes dos grandes bancos, frutos menos de seus méritos administrativos, mas de uma política de juros promíscua e perniciosa, este governo foi premiado com um Golpe tramado pelo o que há de mais sujo na política brasileira?

Quem acreditará que somente a força policial, a repressão e os crimes de Estado serão suficientes para garantir estabilidade para os “negócios”, quando mesmo os regimes mais detestáveis do mundo não suportaram ao desejo de liberdade de seu povo?

Por fim, qual investidor deste país não sentirá a ausência de um líder político capaz de mediar os grandes interesses das elites, negociando com as demandas sociais em suas diferentes expressões. Sendo que tais demandas não são de nenhum partido ou movimento social, mas de uma população que carrega o peso de séculos de escravidão, exclusão, miséria e abandono? O que fazer quando esse líder que consegue realizar esta mediação social é colocado na cadeia e na ilegalidade política?

Evidentemente, esta é uma derrota dos trabalhadores mais pobres do Brasil. A agenda que será imposta é de desregulação dos direitos e garantias, arroxo, desemprego, recessão e também repressão política.

Mas a luta social é uma necessidade permanente e cotidiana do povo trabalhador. Não há folga. A repressão acontece todo dia nos esculachos diários nas periferias. Nada de novo.

O comodismo político é um luxo que não deveria fazer parte do cotidiano do povo trabalhador. Quando este ocorre, inevitavelmente significa perda e mais submissão. O comodismo e desatenção política se convergem e rápidas e contundentes derrotas.

A parcela mais pobre da população certamente será sacrificada. Porém, o prejuízo histórico não estará restrito aos pobres.

A ambição desmedida. O ressentimento político. O preconceito. A tolice. Tudo isso custará muito caro ao Brasil.

Por hora, é interessante ver como a mentalidade escravocrata e precarização do capitalismo arcaico brasileiro se convergem num atraso que se precipita à política e ao Estado.

A política brasileira, refletida nesse Golpe é a cara da nossa elite: burra, atrasada, cafona, intolerante, egoísta e com uma visão muito estreita e limitada do que está por vir.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Meu Malvado Favorito


"Meu Malvado Favorito!"
É isso que acontece quando passamos por cima da democracia.
É isso que ocorre quando o país abre o precedente que abriu para o Eduardo Cunha. Ficando de joelhos. Permitindo tudo, aplaudindo as tempestades golpistas. Jogando na lata do lixo os ritos, trâmites, normas e processos.
É isso que acontece quando se tortura o regimento e as leis até que elas confessem.
Dá nisso quando se usa a "democracia" contra a própria democracia. Quando passamos a depender das atitudes intempestivas de quem "tem aquilo roxo", de quem é o "malvado favorito", de quem "faz o serviço".
É isso que acontece quando se ganha no grito.
Quando se passa por cima das urnas.
Quando se abre mão das regras comuns e passamos a aplaudir o golpe, porque assim nos convém.
Isso que dá aplaudir a exceção.
O problema de ser o país do Golpe é justamente se tornar o país do contragolpe. Do golpe no contragolpe. Do golpe no contragolpe do golpe.
O Brasil deve ficar assim por um bom tempo (um péssimo tempo).
O país das canetadas. Do juiz que derruba as canetadas. Do Congresso que derruba as urnas, Do tapetão que derruba o Congresso. Das pessoas que aplaudem quando o golpe é contra o candidato em que ele não votou. Do país em que ninguém se suporta. Onde ninguém se entende.
E assim será até que não tenha mais eleições, nem deputados, nem juízes, nem leis e nem nada.
Será a lei do mais forte. Voltaremos definitivamente à barbárie.
Como sempre, controlará a situação quem dispõe das armas.
Vão colocar o trabuco na cara da sociedade até que ela se acalme. Muitos irão aplaudir isso também, se assim for conveniente.
Isso pode funcionar por um tempo.
Até que a raiva se acumule e entremos em erupção. Mas a raiva não é remédio para nada. É a pior das armas.
O problema do Golpe não é derrubar o PT, o PSDB, o PMDB nem nenhum outro partido.
O problema do Golpe é que aquilo que um dia nos convém, no outro nos esmaga. É ninguém respeitar a escolha de ninguém. É o ressentimento correndo nas veias de todos. É jamais existir o consenso.
É assim que querem o Brasil.
Precisam do Brasil paralisado e anestesiado.
Se esse povo soubesse a grandeza do Brasil…
Estaríamos melhor num abraço fraterno, respeitando nossas diferenças.
Mas somos tolos.
Nossa tolice é mais eficiente do que dez mil bombas!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Deus" derrubou Dilma


Resultado de imagem para crente mentiroso


Quanta canalhice falada e praticada em nome de Deus.
Quantos criminosos cuspindo, babando e falando em honestidade contra a corrupção.
Quantos degenerados falando em valores e família.
Quanta bandeira verde e amarela nas mãos sujas dos entreguistas que desejam um Brasil de joelhos e humilhado.
Quanto papagaio de pirata. Caras e bocas.
Quanto bullying opressor.
Quantos gritinhos escrotos, típicos de moleque babaca no colegial.
Quanto deputado safado que vivia beijando as mãos do Lula como aduladores, quando este tinha 80% de aprovação do povo brasileiro, agora expondo a face mais sórdida de seus caráteres, sem nenhum pudor.
Ao menos, esse mar de lama tóxica serviu para destacar os grandes quadros parlamentares da luta contra o golpe.
Gente decente e corajosa, muitas vezes tratadas com descaso por um governo que em muitos momentos acreditou que tinha "amiguinhos" na elite. Que o banalizado e famigerado "pragmatismo" estava garantindo "alianças pela governabilidade". Ao final não ficou ninguém. Ninguém. Ficaram apenas aqueles que tem conexão direta com o povo e suas lutas.
Repito, aqueles que tantas vezes foram tratados no chicote, enquanto tantos outros cafajestes viviam no Camarote Vip
do Planalto. Serve para aprender. Para que todos aprendam.
Quantas coisas tivemos que engolir pela governabilidade?
Quantos ideais relativizados?
Quanta gente ruim que aturamos?
Os votinhos que faltaram para barrar o impeachment podiam ser do Cunha e do Temer? Pois é, podiam.
Mas podiam ser também do partido do Malufão amigão.
Do ministro Kassab.
Do Sarney.
Do Edir Macedo que orientou sua bancada para defenestrar Dilma.
Ora, quantas vezes demos tantos "carões" na nossa bancada porreta que lutava pelas questões relacionadas aos direitos humanos e respeito às diversidades para "compor" com a bancada evangélica?
Ao final, quem deles votou contra o Golpe? Ninguém.
Tudo bem. Sei que ainda não é o momento de lavar a roupa suja e, especialmente nesse dia, isso torna-se particularmente irritante.
Mas não posso deixar de fazer essa reflexão ao ver nossos melhores quadros defendendo com coragem a democracia, sofrendo a tentativa de intimidação e até humilhação por parte de quem vivia com tratamento VIP no governo.
Este é aquele momento do "pronto falei".
Claro que não foi só isso que definiu o Golpe na Câmara.
Mas quem apoiou com vigor a eleição de Dilma no segundo-turno, passando por cima de decepções, mas firmando seu apoio, era também quem estava lá no plenário defendendo seu mandato. Era quem estava nas ruas do Brasil contra o golpe. E foi também quem ficou de fora na composição, organização e representação desse governo.
Chega. Paro por aqui pra não irritar. Até porque não foi somente isso que definiu o Golpe que passou na Câmara. Mas que ajudou ajudou.
Galera. Diga-me com quem marchas que eu te direi quem és.
É impossível estar satisfeito com o que ocorreu nessa noite de domingo.
Mas tem uma coisa. Me orgulho muito da minha posição política.
As caras de todos e todas estão filmadas ou "printadas". Não há do que se envergonhar, muito pelo contrário. No futuro saberemos como cada um se posicionou nesse momento.
Não estamos derrotados. Ao contrário.
A população viu ao vivo esse espetáculo deprimente e sabe reconhecer na cara a canalhice quando ela existe.
A consciência livre desse povo certamente fará o seu juízo.
Vamos lutar até o fim.
Estamos lutando a boa luta.
Se ganhar a eleição não foi suficiente para garantir as condições para governar o Brasil, também não será um golpe indecente que vai conferir a eles a legitimidade para liderar o país.
Se a luta não pára quando se vence uma eleição, por que pararia depois de um golpe?
Coragem! Estejamos unidos nesse momento. A luta está apenas começando.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A Festa Oficial do Golpe



Brasileiros,
Nós que defendemos o impeachment da presidanta Dilma (VTNC), tivemos a honra de receber o 36° pedido de interrupção do mandato das mãos deste grande expoente da classe artística brasileira, o grande ator Alexandre Frota!!
[Pausa para os aplausos]
Ele que emocionou o Brasil por suas atuações em "Fazendo Sacanagem", "Anal Total 10", "Bad Boy", entre outros tantos títulos.
Temos também a honra de ter o apoio da atriz Suzana Vieira que nos acompanha há muitos anos (só não podemos dizer quanto), Luana Piovani, essa gracinha de pessoa e de Maitê Proença, que não pôde estar aqui conosco porque foi retirar sua pensão vitalícia, antes de subir ao nosso palanque para fazer um brilhante discurso contra os vagabundos que recebem o Bolsa Família. Regina Duarte não veio porque estava com medo.
Além da mais fina flor da teledramaturgia brasileira, recebemos também esse humorista engraçadíssimo Danilo Gentile.
[Gargalhadas da multidão]
Além de Otávio Mesquita, campeão de audiência no horário nobre, minha gente.
Por falar em artistas, queremos chamar ao palco dois artistas que encantam a juventude brasileira e arrastam multidões. Com vocês Lobão e Paulo Ricardo!
[Platéia grita eufórica "hey ho Let's Go].
Mas nem só de artistas vive nosso movimento. Temos também representantes da intelectualidade. Esta aqui a jurista Janaina Paschoal que já está com a língua de fora e vai cantar agora uma música do Sepultura. Rodrigo Constantino viria, mas a crise pegou ele que está desempregado e sem dinheiro para viajar até Brasília.
Temos entre nós autoridades eclesiásticas. Peço à platéia que receba com muito louvor e muito dinheiro o Pastor Silas Malafaia!
[ALELUIA]
Esse homem de Deus, caridoso, desapegado dos valores materiais, que segue os caminhos de Jesus e não atira a primeira pedra, não julga para não ser julgado, respeita todos os seres humanos e tem sempre um discurso de amor ao próximo e carinho para com as diferenças humanas.
Acaba de chegar outro pastor: Marcus Feliz Si Ânus!
[It's raining men, Aleluia].
Feliz Si Ânus veste um terno bem cortado, usa seu novo corte de cabelo chamado "me pega rapaz", colocou silicone nas nádegas, plástica no nariz, botox e vai agora fazer um discurso inflamado contra a viadagem atual.
Senhoras e senhores! Vamos chamar agora as autoridades do novo governo do Brasil.
Com vocês esse grande democrata e defensor das liberdades e dos direitos humanos. O chefe do Estado maior dos nacionalistas que querem entregar o Brasil para os EUA:
Jaiiiiiiiir Bolso Mito
[Eeeeeeeeeeeee ouve-se tiros]
Chamamos também um homem honesto. Defensor da luta dos trabalhadores do Brasil. O sindicalista preferido dos patrões:
Paulinho da Farsa, quer dizer, da Força!
Chamamos esse político carismático que todo mundo adora, principalmente a Folha e o Itaú:
José Serra! Chega aí, Zé. Seu queridão.
Chamamos também o nosso malvado favorito. O homem que tem licença para roubar, manipular, chantagear, porque o povo que luta contra a corrupção apoia.
Com vocês, Eduardo Cunha!
[Gritos histéricos do povo com a camisa da seleção].
Estou quase terminando. Com vocês um homem de família, que faz tudo pelos seus, um homem de energia hidrelétrica, ligadaço. Um homem que voa de helicópteros, um homem que voa de avião porque tem até aeroporto particular pago pelo povo, um homem do Leblon, a capital das Minas Gerais. Um homem que esta sempre com a galera na balada e nem pede carona. Para o delírio geral, com um brilho no olhar:
Aeeeeeeeeeeecio Neeeeeeeeves
[Musica de balada putzputzputz]
E pra terminar. O futuro presidente do Brasil. Um político que sempre foi muito bem votado. Campeão das urnas. Reconhecido pelo povo. Um político leal. Fiel. Que faz politica com princípios. Um homem sem ambição no coração.
Ele que também vai ser leal e fiel à você, povo brasileiro. Pode acreditar.
O nosso líder. Chefe máximo da nação. O cara de defunto:
Michel Temer!!
[Tema da Vitória da Globo tocando e a multidão se abraçando e chorando de emoção]
Vencemos companheirada! Nossa luta valeu à pena! O Brasil venceu a corrupção!

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O movimento inflável pelo golpe e a consciência crítica da sociedade brasileira






Não é por acaso que os dois totens que provocam catarse coletiva nas manifestações pela interrupção do mandato democrático da presidenta Dilma são dois objetos infláveis.

O primeiro totem ficou conhecido como “Pixuleco”. Trata-se de uma caricatura do Presidente Lula, retratado como presidiário. Tem sido cultuado com paixão enlouquecida, sendo inclusive reproduzido em miniaturas e vendido nos semáforos das grandes cidades.

Outro símbolo, igualmente inflável, é o Pato Amarelo. Este é fruto de uma campanha publicitária da FIESP. A Federação que deveria defender os interesses dos industriais brasileiros, por conta de mais uma das aberrações e particularidades sociais e políticas brasileiras, reproduz com paixão a cartilha e o projeto do neoliberalismo econômico, justamente o estopim da desindustrialização do Brasil e propulsora do “livre mercado” que condena e implode qualquer proteção do Estado à indústria nacional e escancara a economia às quinquilharias importadas que tornam as indústrias brasileiras cada vez menos competitivas. Isso sem falar na desidratação do mercado interno, a perda do poder de compra do trabalhador e até mesmo os direitos trabalhistas que, pasmem, ainda que odiados pelo “moderno” empresariado brasileiro, é justamente o que oferece condições para que as indústrias que ainda resistem, aos trancos e barrancos, continuem existindo. Ou seja, sem mercado interno, os senhores da Casa-grande pretendem vender pra quem? Um Estado que privilegia o mercado financeiro e a farra especulativa em detrimento dos setores produtivos, como pode ser positivo para a indústria brasileira?





O Pixuleco incorpora o ódio pessoal ao ex-presidente Lula manifestado por parte da sociedade brasileira, mas também é um símbolo do incômodo e resistência à insubordinação e subversão de classe social. Houve um investimento na produção do Pixuleco. As pessoas seguem o Pixuleco. Há uma organização para a proteção do Pixuleco. Sem dúvidas, trata-se de um símbolo importante. Na mentalidade da Casa-grande, incorporada e levada à diante pelo empresário industrial brasileiro, o sindicalista (ou quem quer que reclame seus direitos de empregado) é antes de tudo um ingrato. Alguém que não aceita de bom grado a mão amiga do chefe patriarcal. Alguém que faz a cabeça dos outros funcionários. Degenera. Subverte.

Um subordinado virar chefe, líder e, ainda por cima, bem sucedido é subverter e corromper as hierarquias estabelecidas. Neste sentido, Lula é sim um corrupto e corruptor. Compreensivelmente odiado. Claro que este sentimento não se restringe ao empresariado industrial brasileiro.

Qual a ferramenta que torna possível um “analfabeto” como Lula se converter em um líder mundial. Ora, a política, é claro. Não é apenas Lula o odiado pelo corporativismo privado. É a classe política como um todo. Isso não ocorre apenas no Brasil.

Existe um imenso contingente de homens e mulheres que perseguem a realização, o empreendimento e o protagonismo no mercado de trabalho, dispondo de abnegação e devoção religiosa em busca das melhores posições, nas melhores empresas globais. Cada um como pode. Alguns com seus negócios próprios, pequenos ou grandes. Outros logrando cargos e funções de destaque nas grandes corporações. Talvez, em outros tempos históricos, encontrassem essa realização nos empreendimentos coletivos. Nos exércitos e nas guerras, provavelmente. Na própria política, talvez. Nas artes.

Mas a ideologia burguesa dos nossos tempos oferece como cenário das grandes realizações individuais, não as glórias públicas, mas o bem-estar material, a satisfação íntima e o sucesso no mundo dos negócios.

Ora, o indivíduo passa a vida inteira perseguindo essa glória no mundo corporativo privado. Investe tempo. Se prepara. Se esforça. Faz coisas que não concorda. Suporta humilhações. Porém, em dado momento, ele se dá conta que jamais terá reconhecimento coletivo pela glória que ele acredita ter alcançado. Pior, muito provavelmente não haverá glória sequer na própria corporação. Talvez passe a vida inteira com a faca e a forca no pescoço, ou mesmo será descartado no meio do caminho, quando atingir determinada idade. Alguns pouquíssimos conseguem algum reconhecimento em seu segmento.

Ainda que o sujeito acumule dinheiro, ainda que receba promoções, ainda que alavanque o próprio negócio, dificilmente seu sucesso deixará de ser silencioso e invisível. Alguns se consideram o tal “self made man” e passam a promover uma espécie de “auto marketing”, mas o fato é que, ao final, terão apenas lá em casa alguns amigos e camaradinhas que respeitam. Pois é…

O protagonismo jamais chegará. O desejo tão humano por reconhecimento será frustrado. Não é difícil entender o desprezo e raiva do mundo corporativo privado pela classe política. O político exerce o poder. Ainda é detentor do protagonismo histórico. O político manda. Não é difícil também entender o porquê dos aplausos enlouquecidos e calorosos que recebeu o ex-presidente Fernando Henrique quando declarou em palestra aos colaboradores de uma seguradora internacional que um “analfabeto” não pode ser Presidente do Brasil. Ele sabia com quem estava falando.



Já o Pato inflável representa o incômodo com os direitos e deveres públicos. A abolição da escravidão foi um pato. A legislação trabalhista é um pato. Os direitos humanos são um pato. Os impostos são um pato. Os programas sociais são um pato. As merendas são um pato. A legislação de trânsito é um pato. As normas são um pato. Ora, dirão, ninguém é contra nada disso, só não querem ter de “pagar o pato”. Ocorre que nesta coletividade somos todos sócios. Por isso se chama sociedade. Todos precisam de todos. Ocorre que alguns acreditam que não precisam do Estado. Mas esquecem que precisam do poder público para proteger a propriedade privada, para cobrar as dívidas, para o asfalto onde transitam seus carros, para a justiça, etc. Isso quando não pedem diretamente subsídios, isenções e créditos do setor público, um pato para toda coletividade de brasileiros.

Comecei o texto dizendo que, não por acaso, os dois maiores símbolos do golpe são infláveis.

A verdade é que tudo isso é muito inflável. Os “movimentos” são infláveis. Aquele grande número de pessoas nas avenidas é inflável. A oposição é inflável. Os apoios políticos que o governo construiu e acreditava que possuía também foram infláveis e explodiram.

As coisas podem parecer grandes no tamanho, mas não tem substância. Com um simples alfinete na mão de uma criança tudo se desmancha.

Nas últimas semanas aumentou muito a consciência crítica da população com relação ao golpe. Foi de imensa importância a manifestação pública de grandes figuras da classe artística e intelectual. Foram importantes também as grandes manifestações que ocorreram em defesa da legalidade democrática. O menos importante era se tinham duzentas mil, cem mil ou quarenta mil pessoas. Foi incrível a participação de diferentes segmentos da sociedade, inclusive de pessoas e movimentos sociais críticos ao atual governo. Muitos universitários e professores. Marcante a participação de pessoas da terceira idade que viveram os horrores do golpe de 64 e da consequente ditadura militar.

As vozes interessadas na manutenção da democracia se levantaram. Foi fantástico ouvir quem falou contra o golpe, mas ajudou também ouvir quem falou em favor do golpe. A postura violenta, agressiva e intolerante de muitos quadros do impeachment favoreceu a unificação e mobilização dos setores progressistas.

Quando se eleva a consciência crítica da sociedade, há um avanço que possibilita grandes saltos qualitativos a uma nação.

Alguns discursos raivosos e conservadores, destarte, fazem mais barulho e emergem com mais facilidade, pois dependem menos de coerência. Mobilizam corações amargurados. São de fácil reprodução, porém são infláveis.

Seria muito positivo se o atual governo desse o mesmo salto qualitativo ocorrido com essa massa de brasileiros que está saindo às ruas para defender a legitimidade deste mandato. Aliás, durante a eleição, os progressistas já haviam dado esse salto, porém não parece ter sido o suficiente para comover e encorajar este governo. Tomara que esta seja uma nova oportunidade.

A consciência crítica da população não depende deste governo. Não há protesto em defesa dessa gestão, mas em defesa da democracia e contra os retrocessos sociais. Não é possível ainda saber com certeza, pode até não ter golpe. Mas, ou esse governo acorda ou a gente segue à diante.

Se o governo quiser continuar deixando a jugular exposta, justamente à serviço de quem quer colocar sua cabeça na guilhotina, que o faça sozinho. Nós não morreremos juntos. Convidamos esse governo que já foi muito mais progressista a seguir conosco. Acontece que nosso salto é para sempre. Não queremos retrocesso. Queremos democracia de verdade. Com justiça social, distribuição de renda, reforma agrária, educação para o nosso povo, cultura política, saúde, desenvolvimento e com a independência do Brasil.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Não quero ir de encontro ao azar



O Brasil entrou no ano de 1985 cheio de esperanças por um futuro melhor.
Enfim, terminava a Ditadura Militar. Teríamos um governo que seria o fruto genuíno das lutas pela redemocratização do Brasil.
Daí o Tancredo Neves passou mal. Teve uma diverticulite e pimba! MÓ-RREU.
Assumiu o Sarney que já era da base civil de apoio à ditadura, coroné, oligarquia local e tudo mais.
Como em tantos outros momentos em sua história, o Brasil mudava justamente pra continuar sendo a mesma coisa.
Vez por outra, o Brasil ensaia tentar algo diferente. Nada muito brusco. Bem de boas. Mas logo emerge o que passou a ser conhecido como a "síndrome de habib's". Prevalece o sentimento do "eu quero meu país de volta".
Ou seja, de volta os velhos privilégios, o velho protagonismo, a velha organização social, as velhas hierarquias.
Não querem pagar o pato.
O pato da justiça social, o pato da distribuição de renda, o pato dos programas sociais, o pato dos serviços públicos, o pato dos direitos trabalhistas.
E então, aquele suspiro de mudança termina com uma família real tendo que fugir depois de abolir a escravidão (e surgir o primeiro pato), um suicídio na Guanabara, uma renunciazinha para inaugurar Brasília, um parlamentarismozinho, um golpezinho militar, um ex-presidente que bate o carro na Via Dutra, outro que erra o remédio para o coração, uma pequena diverticulite que dá uma dor de barriga desgraçada. Nem o "caçador de marajás" que tentou governar sozinho foi perdoado. Caiu também.
Passado o luto pela morte do Tancredo Neves, os brasileiros ligaram o rádio e cairam numa gargalhada ainda meio silenciosa.
O sempre genial Raul Seixas, com sua simplicidade (que o tornava mais genial ainda), não precisou de muita poesia pra dar voz e ritmo a uma espécie de intuição coletiva que rolava na casa dos brasileiros que, malandramente, sem saber no que ia dar aquela abertura democrática, cantavam aquela nova canção sem fazer muito alarde. Apenas um olhando nos olhos do outro com um sorriso malicioso nos lábios.
A canção já de cara começava com os seguintes versos:
"Mamãe não quero ser prefeito,
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar.
Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar".
Puta que pariu. Era uma bomba!
Claro que ninguém teria condições de especular muito sobre a morte do Tancredo que aparentemente foi natural. Ficará para sempre entre as inúmeras teorias de conspiração.
O problema é que no Brasil conspiração é coisa que não falta.
Mas fica a dica. Dependendo de quem você traz para bem perto de você, isso pode dar um azar filho da puta.
Ou como disse o Raul, é "ir de encontro ao azar"...