domingo, 11 de outubro de 2015

Domingo sem o Corinthians


Domingo sem o Corinthians é um vazio sem fim.
Uma semana. Dez dias. É para morrer de saudade.
É você ter tempo para fazer um monte de coisas que nunca consegue. Mas de nada vale esse tempo livre.
De nada presta esse ócio improdutivo, inútil e desmotivado.
Melhor mesmo é almoçar correndo, dar um beijo displicente na mãe, no pai, em quem se ama e sair correndo para o estádio.
Gostoso é abrir o jornal de domingo, pulando os cadernos cheios de futilidades, com notícias sobre a política, o dólar que sobe, o mundo e as guerras, a água em Marte, a dica de shows, musicais, coisas chatas, o que dá ou não dá colesterol. Superar todas essas informações menores e avançar até os esportes, para ver as notícias do Timão. Notícias repetidas, que no fundo já estávamos inteirados, mas mesmo assim dá um gosto danado de ler outra vez.
Melhor almoço do mundo é aquele macarrão com frango que a gente come no sofá da sala de olho na televisão, esperando o jogo começar.
Domingo sem o Corinthians, é ter o dia todo para cuidar da própria qualidade de vida.
Mas que papo estranho é esse? Melhor mesmo é quase morrer de infarte! Passar mal com nosso coração corinthiano saindo pela boca.
Ver a seleção jogar, ao invés do Corinthians, é como aquela cagada que todo mundo fez uma vez na vida. Sair com uma pessoa que não vale à pena, pra logo perceber que a gente queria mesmo estar ali, vivendo o que a gente sempre gostou de viver, com o amor da nossa vida. É perceber como é boa essa rotina, nem que seja com pão murcho e café com leite. Que não há glamour que substitua a deliciosa simplicidade cotidiana. Que o Corinthians sim é um amor que nos merece. Estar com o Corinthians é estar com a pessoa certa, não importa onde. É reconhecer o hálito um do outro. É viver tranquilo, sem precisar fazer pose ou escolher as frases certas, no maior estilo Vai Corinthians.
O Corinthians é nossa alma gêmea.
Não sobraria muito da nossa vida sem o Corinthians.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

FESPSP promove simpósio para discutir crise da esquerda



Série de debates com especialistas acontece entre 13 e 22 de outubro na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo


A FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) apresenta em outubro o simpósio “A CRISE DA ESQUERDA – Quais caminhos levaram a esquerda brasileira para a crise atual e perspectivas para o futuro”. Um curso de extensão com lideranças políticas que  acontecerá entre 13 e 22 de outubro. As inscrições abertas através do site www.fespsp.org.br/extensao, com vagas limitadas.
O objetivo deste curso de extensão é debater, sob diferentes perspectivas, a trajetória da esquerda no Brasil, sua ascensão ao poder por meio do Partido dos Trabalhadores em 2002 e como a ideologia se tornou alvo de críticas e protestos nos últimos anos.  Além disso, visa também traçar um horizonte e perspectivas para o futuro do cenário político brasileiro.
Para apresentar o assunto a FESPSP convidou cinco lideranças políticas. No dia 13 de outubro quem inaugura o simpósio é o ex-Governador do Rio Grande do Sul e ex-Ministro da Educação, Relações Institucionais e Justiça, Tarso Genro. O segundo debate acontece no dia seguinte com Sérgio Fausto, Diretor Executivo do Instituto FHC. O terceiro encontro acontece no dia 15 de outubro e o convidado é o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Na sequência, no dia 21, a candidata à presidência da República em 2014, Marina Silva, é quem ministra palestra na FESPSP. Fechando o simpósio, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, fala com os presentes no dia 22 de outubro.
Com carga horária total de 15 horas, o simpósio tem vagas limitadas. O investimento na inscrição é de R$ 500,00, com opções de pagamento à vista no boleto ou cartão de débito, ou em até 3x de R$ 166,66 no cartão de crédito. Alunos FESPSP possuem 40% de desconto; ex-alunos e instituições conveniadas 15%. A lista de convênios pode ser encontrada no site da FESPSP.

SERVIÇO
Simpósio: A CRISE DA ESQUERDA – Quais caminhos levaram a esquerda brasileira para a crise atual e perspectivas para o futuro
Data: De 13 até 22 de outubro de 2015
Horário: 19h às 22h
Inscrições: R$ 500,00 – www.fespsp.org.br/extensao
Local: Auditório da FESPSP – Rua General Jardim, 522, Vila Buarque – São Paulo
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

"Viva o Câncer!". Os odiadores de ontem. Os odiadores de hoje.



Eva Perón vivia seus últimos dias de vida. Tinha apenas trinta e três anos de idade. Sofria pela metástase de um câncer que surgira em seu útero.
O drama de Evita tocava milhões de argentinos e argentinas que faziam vigília por sua recuperação.
Mas não todos tinham compaixão por sua doença. A admiração por Eva, que se convertia em uma espécie de ideologia política própria, sem nenhuma estruturação litúrgica, porém decididamente muito ligada à identidade de classe possível na Argentina dos anos 50, era considerada pelas elites como coisa menor. Dizia-se (e se diz ainda), que era algo como “coisa de empregada doméstica”.
Nem a dor, nem a morte que se avizinhava. Nenhum drama inibiu quem colocava o ódio político e o ressentimento social acima de todas as coisas.
“Viva o Câncer!”. Esta foi a frase que apareceu escrita no muro de sua residência, pouco antes de sua morte.
Havia muita gente regozijando por seu padecimento. Festejando sua morte.
Não era pra menos. Pra quem levava a noção de hierarquia social como algo naturalizado e parte integrante de si mesmo, a figura de Evita era absolutamente insuportável.
Eva nascera fruto de uma relação extraconjugal de seus pais. Nunca foi totalmente reconhecida. No velório de seu pai, havia sido impedida de prestar seu último adeus. Quando se mudou para Buenos Aires, Evita passou a ser uma atriz de rádio. As radionovelas explodiam no país inteiro. O rádio passava a ser o principal veículo para integração do país e também para a comunicação com as massas de trabalhadores.
O rádio era solene. Não era minimalista como nos nossos dias. Era um aparelho grande a ser colocado no meio da sala. As famílias se reuniam em volta dele. Perón, como nenhum político de seu tempo soube tirar proveito desta nova ferramenta de comunicação. Da mesma forma, como ninguém até então, soube enxergar o trabalhador operário como um ator político relevante a ser mobilizado para a construção do trabalhismo na Argentina. Em bairros e cidades mais afastadas, o rádio era pendurado nos postes para que os mais pobres também pudessem ouví-lo.
Eva Duarte, como qualquer atriz de rádio ou de teatro não ocupava um lugar social muito distante das prostitutas.
Iniciou uma relação amorosa com Perón. Um homem mais velho e poderoso. Por virtude e por fortuna, Perón se converteu em presidente da Argentina, chegando ao poder nos braços do povo. “Cabecitas Negras” eram chamados seus eleitores. Viviam nos subúrbios de Buenos Aires, mas sequer podiam frequentar os luxuosos espaços da região central. Muitos passaram a conhecer o centro nas manifestações políticas do peronismo. Era um escândalo. A massa de descamisados e de pés descalços. Nadavam nos chafarizes, tomavam mate nas praças antes exclusivas dos grandes cavalheiros.
Evita, agora primeira-dama, passou a frequentar os salões da oligarquia argentina. Jamais foi aceita. Os interesses sazonais das elites econômica e política, obrigava os grandes negociantes a aturarem aquela “bastarda”.
Não eram raras as vezes em que, após a chegada de Evita, as damas da sociedade se retiravam de recintos como o famoso Teatro Colón. Chefes religiosos se recusavam a reconhecer sob a ótica da Santa Igreja a união de Juan Domingo e Eva.
O poder modifica a todos. É uma experiência definitiva. Alguns se afogam em meio a vaidades tolas. Sentem-se entorpecidos pelo luxo e pela adulação de gente falsa e mentirosa. Não são poucos aqueles que esquecem suas raízes. Que mudam de classe. O mundo está repleto de gente que com o poder perde a capacidade de olhar para si e próprio e também condição de enxergar o mundo a sua volta. Concentram-se apenas em pertencer e conservar o status adquirido.
Mas Evita não foi assim! Eva tinha uma personalidade controversa, mas soube como poucos na história fazer o bem. Falava como uma mulher do povo. Cometia erros gramaticais que eram jocosamente ridicularizados por alguns. Enfrentava a oligarquia. Fez o que pode para ajudar os necessitados. Recebia a todos em seu gabinete. Dava desde presentes de natal até máquina de costura, brinquedos, tratamento dentário e hospitalar. Fazia o que era possível. Não era uma primeira-dama tradicional. Mesmo com a saúde muito frágil, na frente de todos seus assessores perplexos beijava os leprosos e outros doentes na boca.
Alguns podem considerar isso como caridade barata. Coisa de político. Mas numa sociedade tão marcada pelo pensamento elitista, os gestos de Evita adquiriam um significado gigantesco.
Os órfãos, até aquele momento, eram obrigados a circular com um pijama escrito “Criança Órfã”. Evita acabou com aquilo. Acolhia as crianças órfãs em novas escolas de tempo integral que lembravam um parque de diversões temático. Defendia seu povo. Beijava homens e mulheres pela rua. Assim era Evita.
Morreu muito jovem. Não era uma marxista nem dispunha de conhecimento teórico organizado sobre qualquer ideologia política. Era peronista, como gostava de dizer. “Uma ponte entre o povo e Perón” Quem assim quisesse poderia “atravessá-la”, falou certa vez. De fato, Evita era o braço de Perón com a sociedade civil. Não por acaso, depois de seu desaparecimento, o peronismo perdeu muito de sua face mais humana. Perón nunca mais foi o mesmo líder.
Evita era a puta. A bastarda. A ralé. Era odiada no “high society”. Sim, havia gente comemorando o seu câncer. Sua presença ofendia. Sua existência era insuportável. Os pobres nunca mais foram os mesmos depois de Evita. Isso era desastroso para alguns.
Eva Perón nunca foi uma política de esquerda, porém seu surgimento já foi suficientemente ameaçador. Como tantas outras figuras da história, sua coragem revelava a covardia dos outros. Seu inconformismo denunciava a complacência geral diante das injustiças.
Cada um cumpre seu papel na história. Evita tem para sempre seu lugar. Os disseminadores de ódio não podem chegar a lugar nenhum. Não há espaço de glória para quem vive propagando o ressentimento e a mesquinharia.
Os odiadores talvez apareçam em figuras inanimadas atacando pedra na cruz, colocando fogo nas “bruxas” em fogueiras “santas”, comemorando o enforcamento de condenados, se explodindo em ataques suicidas, participando de linchamentos, apedrejando as mulheres “infiéis”, comemorando o holocausto. Os odiadores nada mais serão do que desenhos feios que contam os desastres mais violentos da história da humanidade.
Para nossa felicidade, há também aqueles que preferem amar. Que o Brasil encontre seu caminho de paz entre tantos odiadores que invadem velórios, atacam bombas, invadem sites, ameaçam de morte nos fóruns de internet, rompem amizades de anos por divergência política, rejeitam as diferenças.

Deus nos livre da violência, da intolerância, da intransigência e da histeria coletiva que só pode terminar em coisa ruim. Deus nos livre daqueles que são muito corajosos e decididos para julgar os outros, mas que se a gente olhar bem de perto, não valem sequer o pão que eles comem.  

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Enquanto isso, Longe de Marte...




Enquanto isso, longe de Marte...

Vasculha-se cada cantinho de Marte. Comemora-se o grande feito de se encontrar vestígios de água no Planeta Vermelho. Festeja-se essa grande conquista da humanidade. Enquanto isso, milhões de homens, mulheres e crianças padecem sem acesso à água potável neste planeta tão injusto.

Viaja-se com uma sonda (logo mais com um foguete). Duzentos e vinte cinco milhões de quilômetros, sem que seja necessário parar para abastecer num posto de gasolina interestelar. Enquanto isso, a Terra ferve e seca nos quatro cantos, por conta do aquecimento global. Tecnologias de geração de energia renovável são boicotadas ao sabor dos interesses das grandes companhias que vivem da desgraça do planeta. Das guerras por petróleo.

Bilhões de dólares são empregados para enviar um robô até Marte. Enquanto isso, diz-se que preservar a natureza e a sua relação com a vida humana é economicamente inviável.

Espera-se que estejamos todos felizes com a descoberta de água em Marte. Enquanto isso, permanecemos estagnados num modelo econômico que condena os homens a estarem em permanente conflito com a natureza. É como se a humanidade fosse estranha ao meio-ambiente. Homens e mulheres são considerados igualmente culpados pela degradação da Terra, como se possível fosse preservar o planeta sem transformar as relações econômicas, políticas, sociais de consumo, acesso à terra, moradia e saúde. Como se fôssemos todos igualmente responsáveis pela construção desta sociedade que valoriza excessivamente o lucro, o prestígio, o poder e o dinheiro a todo custo. Como se uma família vivesse na encosta de um morro, numa área de manancial, nas matas ciliares, na beira dos córregos sem acesso ao saneamento básico e à coleta de lixo, simplesmente por “estilo de vida”.

Descobriram água em Marte. Um passo gigantesco para comprovar que existem outras formas de vida, longe da Terra. Seria fantástico conhecer habitantes dos outros planetas, não é mesmo? Enquanto isso, a vida humana na terra é cada vez mais desprezível. Alguns seres humanos são tratados como um mero inconveniente. Com exceção de alguns bolsões de riqueza, a vida de homens e mulheres se mostra a cada dia mais descartável e irrelevante nas periferias do mundo.

Esperamos ansiosamente conhecer novas formas de vida, mas desprezamos as que já conhecemos. Refugiados de guerras santas, políticas, civis, por petróleo, ou apenas para fomentar o mercado de armas, lutam para existir em algum canto do planeta. As populações desempregadas, perdendo direitos sociais e garantias trabalhistas não culpam os sistemas políticos e econômicos. Ao contrário, nos culpamos uns aos outros. Os trabalhadores do mundo perderam seus instrumentos de solidariedade. Perderam a capacidade de se enxergarem como trabalhadores. Vivem num limbo individualista. Um abismo de alienação. A ninguém parece ser conveniente ter um refugiado de guerra por perto. No entanto, somos todos refugiados. E não fugimos para Marte. Estamos aqui, com nossos antepassados mais próximos que em algum momento fugiram da violência, da miséria, das guerras ou das secas. Este é o mundo dos refugiados e dos retirantes, só que alguns se estabeleceram primeiro.

Gastamos bilhões para descobrir se existem bactérias, vírus ou fungos em Marte. O conhecimento científico é realmente fantástico! Não há como negar. Mas enquanto isso, muitas formas de vida desaparecem ou estão ameaçadas de sumir da face da terra. Animais lindos e fantásticos. Plantas, árvores, raízes e ervas compõem a nossa biodiversidade apenas para que um dia sejam patenteadas em novos medicamentos que renderão fortunas para quem explora o medo da vida e o medo da morte.


A viagem mais fantástica de todas ainda está por ser realizada. Uma expedição heroica aos castelos e fortalezas que devem ser derrubados. Haveremos de desbravar a nossa própria natureza. A evolução mais incrível e esperada por todos, não será tecnológica. A grande e necessária evolução será nas relações humanas. Não importa se conquistaremos Marte. Conquistaremos a Terra e a grande civilização a ser constituída será a nossa com uma existência mais justa, livre, generosa, igual e solidária. Que este seja o planeta da humanidade! E que não precisemos mais sentir vergonha de Ser Humano.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Tarefa do Agitador



A tarefa do agitador não é abrir o coração e escrever depoimentos pessoais.
Do agitador, não se espera a coerência a todo custo. Ele não fala somente aquilo que é mais fácil de dizer.
O agitador não teme o exagero.
Quase nunca vai com a maioria. Escreve em primeira pessoa falando dos outros e acaba escrevendo em terceira pessoa pra falar de si mesmo.
Ele abre mão de certos pudores. Não é obcecado por sua auto-imagem.
Um grande agitador não se esconde atrás de opniões óbvias. Não se preocupa em vender uma imagem de rapaz equilibrado, exageradamente entorpecido pelo bom-senso.
O agitador não escolhe as palavras indecifráveis. Não utiliza subterfúgios ou sofismas. Despreza o relativismo viciado sobre aquilo que é socialmente irrelevante. Não ostenta um linguajar acadêmico como ornamento de distinção. Não é vaidoso. Não paga de intelectual.
O agitador não cuida de suas frases como um confeiteiro ou um estilista. Porém, nem por isso o agitador é menos delicado ao escrever. O verdadeiro agitador lapida suas ideias. Vai cuidadosamente tirando tudo aquilo que é desnecessário, até que reste apenas o que é compreensível.
A obra do agitador, para os desatentos, é supostamente rudimentar. No entanto ela é uma escultura. Aquilo que outrora foi uma pedra deformada, ganha então a capacidade de ser entendida. O agitador enxergou uma linda estátua onde a maioria de pessoas podia ver apenas uma rocha.
O agitador não quer falar apenas nos pequenos salões. Não se contenta com o "petit comité". Com o "crème de la crème". O agitador se recusa a falar somente com quem concorda com seu ponto de vista. O agitador frequenta a academia dos notáveis somente quando deseja pixar um muro. Nem que seja a porta interna do banheiro. Pra fazer desenhos obscenos, uma poesia pornográfica ou gritar um palavrão bem no meio do pátio.
O agitador ambiciona falar com as massas. Deseja se comunicar, intervir. O agitador vai ao samba, ao forró, ao pagode. O agitador discute futebol. Conversa com o porteiro do prédio. É amigo do rapaz que prepara o seu pão na chapa. O agitador ouve as pessoas. Não espera apenas explicar o mundo para os outros, mas também vê-lo explicado. O agitador se interessa por seu povo. Aprende com ele. O agitador toma uma cachaça no balcão, sabe qual é o assunto do momento. O agitador tem moral na quebrada.
O agitador não caga regra pra ninguém. Entende o processo histórico e as variáveis sociológicas de maneira quase que intuitiva. Entende o limite de cada um e percebe que este limite está conectado com cada momento. O agitador não impõe a sua agenda. Ele chega no sapatinho. Dá o seu recado da maneira que venha a fazer sentido para as pessoas. Constrói um caminho para que os outros entendam sua linha de pensamento, não constrói uma auto-estrada ideológica à revelia, desmatando todos os pensamentos contrários.
O agitador não faz tudo o que quer. Não fala aquilo que lhe dá na telha. O verdadeiro agitador não é inconsequente. O agitador não é rígido. O bom agitador deve ser flexível e, como um bom marinheiro, saber navegar sem brigar com as ondas do mar.
O agitador virtuoso quase nunca se dá ao luxo da utopia. Ele tem objetivos. Sabe dar um passo de cada vez. Sabe esquivar ou andar para trás quando necessário. Depois, pode dar dez passos à frente. O agitador tem noções de processo. Transita dentro do possível. Sabe colecionar uma vitória de cada vez.
Um bom agitador nunca fala nada por acaso. Não desabafa. O agitador atormenta. É inquieto. Assume o custo de parecer o grande cafajeste, quando isso for preciso.
Mas o bom agitador sabe também ser muito doce. Sabe tocar, seduzir, agradar.
O agitador sabe fazer pensar. Provoca reflexão, cria dúvidas. Ele deixa sempre a pulga atrás de muitas orelhas.
Um agitador jamais conseguirá ser diferente. Só quando deixar seu corpo físico. Mesmo assim, talvez provoque furdunço em outras galáxias por aí...
Acontece que o agitador faz tudo o que faz porque ele, insistentemente e teimosamente, acredita num futuro melhor.
No fundo, o agitador não passa de um romântico.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um dia depois do golpe



Um dia depois do golpe, surgirão os pedidos infames para que o Brasil esteja unido neste "novo momento de sua história". Do mesmo modo que o Golpe de 64 foi também chamado de "Revolução", haverá aqueles que exaltarão a cruzada do povo brasileiro pela "ética", "valores da família" e grande mobilização "contra" a corrupção.

Um dia depois do golpe, os telejornais estarão mais amenos. Mensagens de otimismo serão lançadas ao longo das programações de tevê. A expressão do âncora do jornal da noite, que hoje é de quem anuncia um futuro de desgraça, se converterá com sorrisos mais descontraídos, um noticiário mais leve, com um acréscimo de otimismo para com nosso futuro.

Um dia depois do golpe, alguns presos não serão mais úteis. Muitos pedirão cautela nas investigações para que não sejam cometidas injustiças.

Um dia depois do golpe não seremos mais tão "intolerantes com a corrupção". Tudo volta ao normal. Os verdadeiros inimigos já não estarão por perto. Quem sempre roubou pode seguir roubando, desde que não seja subvertida a pirâmide social. Quem está em cima pode tudo, quem está embaixo continue onde está.

Um dia depois do golpe, as manifestações de rua não serão mais consideradas o "espetáculo da democracia". Não haverá cobertura em tempo real, convocação durante a programação diária, os horários dos jogos de futebol não serão alterados, a Avenida Paulista voltará a ser considerada um "corredor de hospitais" impossível de ser ocupada. Uma passeata com cem mil pessoas receberá um pequeno flash no Jornal Nacional.

Um dia depois do golpe, aqueles que saírem às ruas serão chamados de revanchistas. Haverá um clamor pela pacificação do Brasil. 

No minuto seguinte ao golpe, as polícias ganharão força. Mais força. Mais poder. A polícia não mais visitará os protestos para tirar uma self. A porrada vai rolar. O coro vai comer.

Um dia depois do golpe, toda a quebra de direitos adquiridos, programas sociais, juros altos ou qualquer outro pacote de maldades serão colocados na conta do PT. 

Um dia depois do golpe, a esquerda se reunirá para fazer um diagnóstico de seus principais erros. Quem estava no frescor do ar condicionado, sem nunca mais ter colocado o pé na rua, dirá que não tem nada com isso. Todos perguntarão perplexos como mais de uma década de governo popular possa ter resultado numa despolitização geral da classe trabalhadora. Outros se perguntarão o por quê de a esquerda ter se eximido de estabelecer discussões e disputar espaço em setores da classe média. Outros contarão por décadas a história do erro político de ganhar a eleição com a força do povo, depois da direita usar as armas mais sujas, e no dia seguinte, usar a agenda econômica do candidato derrotado. 

Um dia depois do golpe se perceberá que a direita não terá os mesmos pudores. Não haverá tanta preocupação com esse verniz de republicanismo. As "alianças" que alguns acreditavam ter com as elites se revelarão funcionais e risíveis. Quem antes acreditava na adulação falsa e mentirosa, despertará já sem nenhum poder. Os puxa-sacos desaparecerão, ficará apenas a ameaça de apodrecer na cadeia.

Um dia depois do golpe a agenda prioritária será botar fim à carreira política do Lula. Não tenham dúvida, ninguém correrá o risco de enfrentar o presidente do povo nas urnas. A direita não será tão condescendente com seus inimigos como o PT foi. Eles sim saberão defender seus interesses.

Um dia depois do golpe, o Presidente dos Estados Unidos dirá que o Brasil é soberano para decidir seu próprio destino e convidará para que em breve o novo presidente seja recebido num café da manhã na Casa Branca.

Cinquenta anos depois do golpe, as televisões e jornais apresentarão novamente seus editoriais envergonhados com o papel que exerceram para interditar o país e facilitar essa operação política. Documentos, outrora confidenciais, revelarão as "intervenções diplomáticas" em algumas das principais instituições brasileiras, que contou com aliados e "facilitadores" muito famosos na época.

Não sei se vai ou se não vai ter golpe. Mas que a internet sirva pelo menos para registrar a posição de cada um diante deste processo em curso. Com todas as minhas ressalvas e críticas à condução deste governo, ainda que na minha insignificância, digo com todas as letras: É GOLPE SIM!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015



O “rebaixamento da nota” do Brasil por uma dessas agências de classificação, dá mostras claras da absoluta falência e ineficiência do remédio neoliberal como solução para a economia dos Estados, e no caso específico do Brasil, os erros da política econômica do segundo governo Dilma.

Mas antes de falar do caso brasileiro, vamos refletir sobre o que significa a negativação de um Estado, por parte de um escritório nova-iorquino.

O furor causado no governo e em determinados setores da sociedade, a partir do “rebaixamento da nota”, revela nitidamente um dos porquês da crise econômica, social e política mundo afora.

Os Estados estão de joelhos. Conjuntamente, está também subjugada a própria perspectiva histórica dos homens, incluindo o pensamento crítico, os direitos humanos, as experiências coletivas, a capacidade de reflexão e questionamento.

Estas empresas chamadas “agências de classificação”, mostram-se muito agressivas e cheias de si ao colocar a faca na garganta dos Estados. Porém, são incapazes de prever ou evitar o calote dos grandes conglomerados econômicos e a consequente socialização das perdas. Até porque essas agências pertencem e trabalham para os grandes especuladores das bolsas internacionais que vivem do “risco”. Estão permanentemente na roleta financeira, ao invés de produzir, gerando um “bem social” que pode se tornar coletivo, como a geração de empregos, riquezas, inovação, etc.

Os banqueiros e especuladores sequestraram os Estados. Sequestraram a política. Modelaram a economia mundial ao sabor de seus interesses mais imediatos, inibindo a capacidade empreendedora dos homens e produzindo uma espécie de “realidade paralela” que a humanidade aceita como única, inexorável, inquestionável e definitiva, sem refletir se “outro mundo é possível”. Estamos lutando uns contra os outros em benefício de um sistema sem cara e, por consequência, quase impossível de ser detectado como inimigo.

A política econômica do segundo Governo Dilma foi um equívoco. A começar por um grandioso erro político, desembocando numa imensa barrigada econômica.

O remédio neoliberal não funciona mais. Ao contrário, causa mais danos ao sistema imunológico das economias globais. Não seria diferente no Brasil. Vamos partir do princípio que a escolha seja de conviver nos limites possíveis do neoliberalismo globalizado. Pois então, nem para se manter nas condições da macroeconomia global esta receita velhaca funciona mais.

Vamos supor que nenhum “esforço fiscal” tivesse sido feito, ou seja, com corte de investimentos e gastos públicos, aumento de impostos, queda do financiamento, aumento de juros, quebra de garantias trabalhistas, etc; se nada disso fosse feito, ainda assim nossa economia estaria melhor. Na pior das hipóteses, estaríamos “despertando a mesma desconfiança” dos Mercados (com eme maiúsculo), porém sem tanta recessão, arrocho e ambiente político hostil. Dificilmente o dólar estaria um centavo maior sem o arrocho.

Até porque, o déficit fiscal não diminuiu, ao contrário, só aumentou por conta da queda de arrecadação, consequência da diminuição da atividade econômica. Mesmo a inflação, justificativa de todos os remédios amargos, continua alta, e pior, o aumento de preços acompanhado de desemprego e recessão econômica torna tudo muito mais insuportável para o trabalhador.

A verdade é que ninguém respeita quem se põe de joelhos, muito menos o Mercado.

Não adianta nada assumir apaixonadamente o receituário neoliberal. O Mercado não será mais ou menos “bonzinho” conosco por conta disso. Ao contrário, só quem acredita que o “remédio neoliberal” faz bem para os Estados são os estudantes “chipados” e os economistas “cabeça de planilha”. Os banqueiros e especuladores sabem muito bem que a receita que eles impõem, ao final, leva mesmo à desgraça. Portanto, melhor uma economia dinâmica que Eles critiquem do que a submissão e a apatia que Eles sabem serem sintomas de doença terminal.

Em nenhum lugar do mundo essa receita deu certo.

Muitos devem se lembrar do segundo mandato de FHC ou os últimos dias do governo Menem/ De la Rúa na Argentina. Ao cabo, o Mercado não tratou com consideração ou passou a acreditar mais nos dois governos por adotarem a cartilha do FMI com fervor.

Nenhuma submissão será premiada.

Ao ser ameaçado com o “rebaixamento de nota” dos Estados Unidos, o Presidente Obama fez questão de dizer em alto e bom som que ele era o Chefe de Estado e que as agências de classificação eram absolutamente irrelevantes.

A recuperação econômica dos Estados Unidos não compreende os principais parâmetros deste “ajuste fiscal”. Ainda que eles sejam a matriz do neoliberalismo e o mercado financeiro global seja uma das principais ferramentas de manutenção da hegemonia econômica estadunidense, o que se viu nos últimos anos foi uma série de incentivos à atividade econômica e recuperação do setor produtivo pós-crise, ainda que eles tenham a maior dívida externa do mundo e estejam à beira do chamado “abismo fiscal”.

É só olhar para a história do Brasil. Nossos melhores momentos foram aqueles em que estivemos “mais independentes” ou “menos subordinados”.

Não por acaso, estes momentos foram justamente aqueles em que sofremos maior pressão, ataque especulativo, ambiente político conturbado e imprensa incendiária.

Dilma errou na economia e errou na política. A coalizão progressista que tornou possível sua reeleição e sua base de apoio nas ruas foram postos a perder com a composição de seu ministério e a política econômica de seu segundo governo. Isso tem custado caro e deve custar mais caro ainda.

Tudo foi feito em nome da “governabilidade”, mas quem deveria ajudar a garantir a “maioria”, agora conspira na cara larga.

E a condução da política econômica que mobilizou tantos esforços e prometia ser o trunfo para dias melhores, agora é contaminada pelo ambiente político instável. Não adiantou nada.

As verdadeira aliança que deveria ter sido feita para garantir a governabilidade seria com o povo. Fazendo política! Disputando e ganhando espaço! Travando os grandes debates! Enfrentando os conspiradores!

Depois não diga que não avisamos...