sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Por isso que eu amo o Corinthians

-Agosto de 2015

Por isso que eu amo tanto o Corintihans.
Pra redimir. Pra dar voz. Pra falar por mim. Pra me projetar no mundo num lugar onde eu não alcanço. Pode ser até ilusão. Mesmo assim eu adoro.
Corinthians líder. Campeão do primeiro turno de um campeonato que aparentemente já tinha dono.
As manchetes sensacionalistas conspiratórias já davam conta da nossa inevitável falência. Do nosso flagelo.
Primeiro disseram que ganhamos um estádio "de grátis".
Depois que não teríamos como pagar.
Decidam-se!
Derrotados, agora culpam a arbitragem, a Odebrecht, o Lula, a FIFA, a NASA, a CIA, a KGB, o Golpe Comunista, o Foro de São Paulo, o Napoleão Bonaparte, o Fidel e a Mãe Dinah.
Sempre foi assim.
Ninguém atura o Corinthians.
O anticorinthianismo ressentido está babando de ódio. Chorando. Morrendo.
Claro, é muito difícil ver nossa alegria. A festa do povo!
Quer saber, muito obrigado a todos!
É preciso confessar. A gente estava mesmo de bode. Um quebra pau danado. Um culpando o outro. Esse elenco nem era tudo isso. Estávamos meio desunidos e até desorientados. Mudamos de casa e não entendíamos completamente onde morávamos.
Mas vocês nos fizeram lembrar!
Vivemos ao lado oposto de vocês.
Vivemos no lado B da cidade, num Brasil que não sai no cartão postal.
Não somos a torcida mais ainimadinha, colorida, coreografada e simpática.
O bagulho aqui é loco.
Aqui é Corinthians, porra!
Algo que vocês nunca vão entender.
Temos presença de espírito! Por isso ganhamos justamente quando vocês esperavam que iríamos perder.
O ódio de vocês nos torna mais fortes.
Somos algo imaterial e metafísico.
Somos uma força que vai além da natureza. Uma existência cósmica.
Aceita que dói menos!
Se dependêssemos do afago de vocês pra sermos felizes já teríamos sumido do mapa há mais de um século.
Já nascemos perseguidos e penetras nessa festa pobre, que os homens armaram.
Nós somos a mosca que perturba o seu sono. A mosca no seu quarto a zum zum zumbizar!
Vai Corinthians!
Ps: O choro é livre.

A simplicidade do timão

Maio de 2015

O Corinthians precisa voltar a ser simples. Urgente! O que é muito diferente de não se dar ao respeito. 
Pra quem acha que estou individualizando responsabilidades, pode esquecer. Ela é coletiva. Geral. De todos, inclusive de nós torcedores. 
Também não é só no Corinthians. 
Esse culto ao consumo, dinheiro, superioridade e status permeia toda a sociedade. Ninguém fica mais doente com esse vírus do que o Corinthians. Atinge nossa alma. 
Quem quiser discordar de mim fique à vontade. Mas nem venha com argumentos razoáveis, porque não é disso que se trata. 
Falar de time, técnico, jogadores, diretoria, CBF, COMEMBOL, empresários, Rede Globo. Tudo isso junto pode dar respostas. Mas estaríamos sempre enxugando gelo. 
Nada me tira da cabeça que a doença do Corinthians é espiritual. 
Não se trata de nenhum encosto ou assombração. 
Nós nos contaminamos. E agora precisamos nos restaurar. 
Resgatar a nossa alma. O nosso espírito. 
Deixar de olhar tanto para o ouro dos troféus e encontrar a verdadeira vitória dentro da gente. 
É hora do reencontro. 
A mãe de todos nossos erros é a soberba. Nós embarcamos nessa. No fundo, incentivamos os maiores erros práticos que hoje estão nos levando para um lugar muito perigoso. 
Vamos parar de apontar o dedo uns aos outros. Acusar, culpar. 
O Corinthians precisa cuidar do próprio espírito.

A grande conquista

- Maio de 2015

Meu primeiro emprego foi de office boy. Juntei uma grana durante meses. Por fim, consegui comprar um título do Sport Club Corinthians Paulista.
À época, um senhorzinho trabalhava como vendedor. Comercializava os títulos para novos associados. Era um dos revendedores autorizados do Corinthians, além de vender também os títulos de antigos sócios que se desfaziam de suas propriedades. 
Sim, os títulos de clubes eram como verdadeiros patrimônios dos associados. Tempos bem diferentes aqueles em que acessar um clube significava não somente pertencimento social, mas desfrutar de confortos hoje facilmente disponíveis em condôminos, academias, pousadas ou casas de praia. 
Havia aborrecido aquele pobre velho uma dezena de vezes, perguntando o preço e verificando se surgira alguma promoção ou desconto especial. Fiz isso durante semanas.
Quando por fim juntei a grana suficiente, peguei o ônibus "Penha" que passava atrás do antigo "Teatro Silvio Santos", na Parada Inglesa.
Escondi o dinheiro na cueca. Considerando valores de hoje, creio que não era tanto dinheiro assim, mas para mim representava a economia de um ano. Havia decidido que seria tudo do Corinthians. Seria eu, parte integrante daquele clube. Era como se tivesse comprando um terreno no céu.
Quando desci no ponto de ônibus que ficava bem em frente ao Parque São Jorge minhas pernas tremiam. Sentia meu couro cabeludo ferver. Estava realmente ansioso e a ponto de explodir.
Ajeitei o meu saco. Quem me observava a distância provavelmente pensou que eu fosse um moleque tarado, ou então que eu tinha uma enfermidade terrível nos testículos.
Carregava dinheiro grande. Cédulas de cruzeiro. Precisava de muitas delas para pagar o valor negociado.
Cheguei triunfante à frente do senhorzinho. Tinha um sorriso muito largo no rosto. Algo que eu não podia controlar, nem se eu quisesse. 
Acho que ele percebeu minha felicidade. Foi cúmplice dela. Ainda que, certamente, aquela fosse uma das vendas mais sofridas e choradas que ele já havia realizado em sua importante carreira.
Me acompanhou solenemente até um guichê bem rústico e simples.
Dentro de uma janelinha escura, um senhor, ainda mais velho e arruinado, conferia meus documentos. Depois passou a contar as cédulas sem supor por onde elas tinham passado.
Depois de se certificar que estava tudo dentro dos conformes, buscou uma máquina de escrever bem pesada que deve ter sido usada para firmar o contrato do Cláudio, do Luizinho ou do Baltazar.
Tudo bem que eu estou ficando velho, mas não vamos exagerar. No começo dos anos 90, os computadores e impressoras já faziam parte do cotidiano das grandes empresas. Mas não do Corinthians. Nem sempre este clube teve essa obsessão louca pela modernidade. As coisas no Corinthians eram do arco da velha. Pensando bem, creio que essa sanha modernizadora do Corinthians atual e esse desespero pelas novidades e por se inserir no mercado global do futebol contenha algum nível de complexo pelos anos de atraso que de alguma maneira se refletia nos resultados dentro de campo.
Essa falta de gosto pelo novo que o Corinthians tinha, a falta de compostura, a ausência do esteticamente aceitável, a breguice que se projetava em times de futebol meio grossos e uma torcida mais simples e menos "pop". Nada disso tirava o encanto do nosso clube do coração. Ao contrário, significava mais um elemento de identidade com a vida da gente. A gente era esse Corinthians meio desengonçado no cotidiano. Que ganhava uma grande conquista depois de suar como condenado e logo tomava tantas outras na cabeça. Inevitáveis desilusões e decepções. Mas era assim mesmo. Segue o jogo. 
Igualmente, com essa vida sofrida que vivíamos, dávamos sem saber a cara daquele Corinthians de outros tempos.
Muitos amigos, entre os quais eu me incluo, sentem alguma nostalgia desse Corinthians que de algum modo parece que se foi para nunca mais voltar. Um Corinthians que vive agora em algum lugar dentro da gente. Na melhor das memórias afetivas.
Mas não é só o Corinthians que mudou. A sociedade mudou, e este clube, como a mais bela de suas expressões, mudou junto com ela.
A molecada não esconde mais dinheiro pra ser sócia de nenhum clube, ela quer celulares, video-games, tênis e roupas de marca.
Não usa a camiseta dada de presente pela tia. Agora, experimentam uma vaidade exarcebada que a gente não tinha. Não querem brincar no clube, querem visitar lugares mais espetaculares. Também não aceitam "viver sofrendo" como os corinthianos de antigamente. Querem se dar bem. Precisam ser os melhores na vida e na bola. Vivemos em uma sociedade que nunca foi tão baseada no prestígio pessoal. Sendo assim, todo mundo tem uma obsessão louca por ser o maioral. A galerinha quer ver o Corinthians campeão todo ano. Mal sabem eles o que a gente já passou...
Quando eu vi o meu nome completo estampado no título patrimonial do Corinthians fiquei muito feliz. Na viagem de volta, ocasionalmente tirava a certidão do envelope e olhava para ela satisfeito e sem me importar que os outros passageiros vissem aquilo que eu havia adquirido.
Foram tempos felizes. Jogava bola no terrão aos sábados com os veteranos. Uns senhores bem mais velhos que eram espetacularmente bons de bola. E adorava jogar basquete, o esporte em que me dava melhor na escola.
Certo dia convidei um amigo que era filho de um cliente do meu pai para conhecer o clube. Ele também jogava basquete e gostou da ideia. Decidiu-se por comprar um título do Corinthians para me acompanhar nos jogos. Algo que ele faria sem o mesmo esforço que eu tive, pois a família dele tinha dinheiro e esbanjava status.
No dia seguinte fui ao encontro dele para irmos juntos ao clube. Ele falou meio sem jeito que não mais iria frequentar o Corinthians.
Seu pai gritou bem alto para que eu escutasse. Que o Corinthians era clube de pobre. De gentalha. Mal frequentado. Que de presente lhe daria um título do Espéria ou do Sírio que esses sim eram clubes de verdade com gente decente.
Tinha me matado tanto para comprar o título do Corinthians e descobrira de uma maneira cruel que minha nova aquisição era para alguns algo desprezível. Pior, nem era por rivalidade futebolística, mas efetivamente por preconceito social.
Adorei aquela sensação de ser "má influência". Não a conhecia até então. Gostei de saber que o Corinthians era um lugar potencialmente perigoso. Me senti muito mais atraído por aquela atmosfera.
Como a vida dá muitas voltas, fiquei sabendo que a família do rapaz foi à falência e que eles vivem hoje arruinados com muita dificuldade financeira. Eu continuo me virando, dando um passo de cada vez e feliz por estar conquistando o meu espaço. Mantendo sempre a humildade porque esse lance de arrogância dá um azar desgraçado, tanto na vida da gente como também no futebol.
Como eu amo o Corinthians!
Vinte e tantos anos depois vou poder fazer um trabalho por esse clube. Um projeto que acredito. É como se tivesse novamente entrando pela primeira vez naquela terra santa.

O sinalizador dos nossos tempos

Novembro de 2014

Acenderam os sinalizadores.
A imagem era linda. A fumaça cobrindo a Fiel Torcida e o povão na arquibancada gritando alto o nome do Corinthians.
Mas o sonho acabou antes de queimar o pavio.
O juiz paralisou a partida. Nos demos conta subitamente que agora estamos em 2014, quase 2015. 
Quando eu era criança a gente falava do ano 2.000 com expectativas incríveis. Seria a realização de sonhos fantásticos. O futuro nos guardaria novidades incríveis e gigantescas facilidades.
Faz quase catorze anos que começou o século XXI. Olhando de perto esta modernidade não parece ser tão interessante assim.
O triunfo do neoliberalismo criou uma nova ordem econômica, política e social. Por consequência criou também um novo tipo de homem.
Uma das tarefas originais desta “nova ordem” foi a de recivilizar o homem. Não deveríamos mais questionar as grandes estruturas. O “fim da história” já foi decretado e outro mundo não é possível. A partir de então, devemos cuidar apenas dos nossos “quarteirões”. A parte que nos cabe na nossa vidinha. E não responsabilizar nenhum inimigo político ou modelo estrutural. Na sociedade da autoajuda o grande inimigo estaria “dentro de nós”. Somos nós que temos que nos mudar. Estar adequados. Pertencer. Não nos reconhecemos mais no próximo. Ele é nosso inimigo em potencial. Qualquer um pode ser seu inimigo, desde que cruze o caminho dos nossos interesses imediatos.
Tantas digressões para falar dos sinalizadores na arquibancada do estádio do Corinthians? Para quê?
O Corinthians ficou apavorado com a indisciplina de alguns de seus torcedores. Tem compromissos financeiros. Quer evitar punições. Tem sido perseguido nos tribunais desportivos e precisa de resultados econômicos para se manter de pé e competir num mercado que não é diferente de outros tantos, ou seja, cada vez mais concentrado. É preciso destruir para não ser destruído. Até que em algum momento o próprio mercado se autodestrua. Mas o importante parece ser garantir o almoço de amanhã. Ainda que não haja futuro possível para o mercado, para os países ou para o planeta.
Para evitar as tais punições econômicas e desportivas o clube denunciou os torcedores culpados pelos sinalizadores. É preciso perseguir para não ser perseguido.
Os torcedores “civilizados” também apontam e acusam o “inimigo” que mora ao lado. Alguns ameaçam e agridem. Outros os entregam à polícia. Acreditam firmemente em si mesmos e em suas virtudes. Estão protegendo o clube e seu patrimônio. Comportaram-se adequadamente (entendam bem o que é adequação). Foram corretos e decentes. Sempre entregaram em dia a lição de casa. Em suas cabeças, não passa alguma outra reflexão, a não ser o desejo de preservar o Corinthians, evitar que ele seja punido, que o estádio seja interditado. Agem com a responsabilidade possível dos nossos tempos.
Não há nada que exista no Corinthians que não tenha correspondência com a sociedade. O Corinthians ressalta virtudes e vícios, paixões e pragmatismos, emoção e raciocínio, amor e desengano. Está tudo ali, como uma representação da vida da gente. Até na devastadora percepção do desespero dos nossos dias.
Fomos jogados uns contra os outros. O esforço de recivilização do homem nos massacra e nos oprime. É preciso estar adequado. Passar por cima de sentimentos e aspirações para permanecer existindo.
Para que o Mercado (com m maiúsculo) permaneça como o grande regulador da vida entre os indivíduos é preciso quebrar os instrumentos de solidariedade entre os homens. O mundo corporativo, o mundo dos negócios, o mundo das grandes empresas, o mundo das escolhas reduzidas e renúncias impossíveis é um mundo diferente do chão que a gente pisa.
As coisas só nos atingem verdadeiramente quando afetam o nosso cotidiano. Meus amigos, não aconteceu nada demais a não ser a inserção do Corinthians na velha nova ordem mundial. Isso a gente sente no fígado. Mas é assim que as coisas são, não é não? Dá para ser diferente? Digam vocês mesmos? Caso a resposta seja “sim”, vamos todos nos encorajar.
Vivemos todos sob o mesmo flagelo. Não deveríamos culpar uns aos outros.
PS: Este não é um enredo de conformismo e pessimismo. Os agentes não são apenas miseravelmente determinados pela estrutura. Alguns agentes podem contribuir para mudanças estruturais. O Corinthians não é apenas um clube de futebol. É uma força viva da sociedade brasileira. Há muito que pode ser feito.

Um momento de decepção com o futebol

- Novembro de 2014

Muitos amigos Corinthianos, os quais não havia tido a oportunidade de ser apresentado, passaram a me conhecer depois que escrevi um texto chamado "O porquê do vai Corinthians".
O texto foi lido por milhares de pessoas e trouxe coisas lindas na minha vida.
Igual a todos vocês, dediquei a melhor parte da minha vida ao Coringão do nosso coração.
Não me arrependo de nenhum suor nem de nenhuma lagrima derramados. Mas confesso que estou muito decepcionado.
Não só com o Corinthians, mas com o futebol como um todo.
Pela primeira vez na vida perdi o desejo de ir aos jogos e até mesmo de acompanhar as partidas pela televisão.
Espero que isso mude, pois vivi momentos muito felizes e emocionantes nos jogos do Corinthians.
Lendo as últimas notícias vejo que o Corinthians pode ser punido pelo STJD porque:
1- uma bexiga inflável caiu no campo de jogo.
2- um cachorrinho entrou em campo no meio da partida.
3- em outro jogo, dois meninos pularam o muro e foram até os jogadores ao final da partida para tirar uma foto. Pior de tudo, para se defender de potenciais punições o Corinthians declarou que encaminhou os meninos para o Juizado de Menores!
Sei que muitos devem pensar que minha atitude é política. Mas digo sinceramente que não é. Porque politicamente, acredito que não há caminho melhor do que a participação para transformar tudo aquilo que não consideramos correto.
Porém, ocorre que minha atitude é bem mais preguiçosa. Este futebol que "os caras" construíram, absolutamente desumanizado e burro não é o futebol que eu aprendi a gostar. Simplesmente, não me interessa. Na verdade, eu gosto de outro jogo. Outro esporte muito diferente deste espetáculo deprimente que pretende apagar a nossa história e nos transformar em uma feia e triste caricatura do que se idealiza que seja o futebol europeu. Por debaixo de uma fantasia de modernidade se escancara um jogo absolutamente patético que não agrada mais a quase ninguém.
Internamente no Corinthians, o cenário também não é nada animador.
Voltando ao texto que escrevi, eu dizia que "Vai Corinthians" e "Aqui é Corinthians" eram, na verdade, elogios à simplicidade.
Hoje, eu vejo tudo no Corinthians, menos simplicidade. Ao contrário, percebo uma arrogância que não tem nada a ver com nossa história.
Fica nítido que o atual presidente não suporta a torcida. Para ele, a nossa massa é um inconveniente que se deve aturar para que o negócio continue. O time não joga do jeito que a torcida gosta, o técnico não é aquele que gostaríamos, a organização do estádio contraria o gosto da galera, a pior contratação da história do Corinthians, de um jogador que em nada tem em comum com nossa identidade, teve seu inevitável fracasso debitado da conta da torcida.
Simplesmente não nos querem.
O Ronaldo Fenômeno fez bem ao Corinthians, mas até a página 12. Fez-se uma interpretação equivocada do sucesso de sua passagem e ao que parece, decidiram que seria necessário desde então, mudar o perfil da torcida nos estádios. Uma atitude burra, além de uma violência cultural e social.
Quando o Ronaldo anunciou sua chegada, ele falou uma frase que virou clichê. Naquela ocasião foi empolgante, mas hoje poucas frases me irritam tanto. Disse ele que havia chegado "mais um louco do bando de loucos".
Ao que parece, eles estão confundindo as coisas. Ser louco é diferente de ser idiota!
A nossa loucura é aquela do "Maluco Beleza" cantada pelo Raul Seixas, misturando a maluques com a lucidez, na loucura real.
É se entregar de corpo, alma e espírito, mas permanecer vigilante e atento.
A boa loucura exige uma dose de irreverência e insubordinação. Não esta submissão e apoio cego, surdo e mudo que eles desejam.
Agora, o Mikey é do bando de loucos, os Simpsons são do bando de loucos, o Bono Vox é do bando de loucos. Só os nossos Zés da Silva que ficaram de fora.
O louco de hoje, bem-vindo como torcedor, é na verdade um alienado. Que torce, paga caro o ingresso e depois vai pra casa cuidar da vida.
O Corinthians não pode abrir mão de sua energia mobilizadora. De seu potencial de comunicação com a sociedade. O Corinthians é patrimônio histórico, humano e cultural do povo brasileiro.
Não pode haver Corinthians sem comunhão.
Espero mesmo que o próximo presidente resgate a ligação com a torcida e perceba que o Corinthians é uma grande comunidade.
Não dá pra dirigir o clube sem entender a importância da conexão com o espírito Corinthiano. Que não há vitória duradoura sem nosso inconsciente e consciente coletivo.
Quanto às demais estruturas políticas do futebol, estão transformando o esporte em algo muito distante da vida da gente. Roubando justamente o que ele tem de genuíno e que o diferencia dos demais desportos. O humanismo, a conexão com a vida social da nossa gente e a alma dos torcedores. 
Certamente, vocês vão ficar mais ricos do que já estão. Mas vão perder um público que não se interessa por este espetáculo tão broxante

Feliz aniversário Corinthians

- Setembro de 2014


Feliz Aniversário, Corinthians.
Um momento meio esquisitão da nossa história.
Porque para a nossa gente, o Corinthians não pode ser o Corinthians sem que a gente consiga se reconhecer nele.
Tantas coisas mudaram de maneira tão rápida.
Ainda nos sentimos meio sem jeito na nova casa rica, ainda meio gelada.
Dá um pouco de saudade do nosso cafofo. Onde fazíamos amor em sua plenitude. Comíamos arroz, feijão e fome, mas éramos muito felizes.
Sim, estamos gratos à Deus pela casa nova tão bonita.
Foi muito bom ganhar estes campeonatos incríveis. Viajar até o Japão para quem não tinha passaporte, mas sempre teve identidade, foi inesquecível.
Acontece que essa atmosfera de "novo rico" não combina conosco.
Desde sempre aprendemos a não dar o passo maior do que a perna. Quem sempre foi pobre, descobre muito rápido que não pode ser inconsequente.
Valorizamos a simplicidade. O olho no olho, o abraço apertado e não precisamos de muito para ser felizes.
Na boa, nem sabemos como ser esnobe. Somos meio caipiras e desajeitados. Somos todos um pouco Adoniran Barbosa.
Mas eu sei que este estranhamento logo vai passar.
Neste momento, percebe-se de maneira tão evidente que o Corinthians não está em seus edifícios, em seus troféus, em seus jogadores, nem no nome de ninguém. O Corinthians está no espírito do nosso povo. O nosso coringão paira no ar.
O Corinthians é energia coletiva. É palpável e ao mesmo tempo sensível. Tem gosto, tem cheiro. É uma coleção de quadros e imagens pregadas em tudo quanto é canto da nossa memória.
O Corinthians está na alma e corre nas veias da nossa gente.
E dá uma alegria danada perceber que este povo, de uma maneira muito especial, já fez a sua escolha. Quer um Corinthians popular. Não quer um clube que escape aos nossos dedos. Que deixe de representar aquilo que somos.
Vai tudo ficar bem. Já está bem. Logo passará este estranhamento.
Esta nova realidade não subiu na cabeça de nenhum corinthiano. Este é o primeiro passo para vencer sempre na bola e na vida. É isso que nós somos e não vamos mudar. A casa é bonita, mas queremos os nossos camaradas juntos de nós, curtindo este samba e comendo na mesma mesa.
O Corinthians é o nosso espírito imortal.
Parabéns, Corinthians que aprendemos a amar


Sem o povão o itaquera não é o estádio do timão

- Maio de 2014


Nunca vi uma reação tão indignada da torcida Corinthiana quanto esta em relação ao preços dos ingressos no estádio novo em Itaquera.
Foi um tapa na cara. Uma verdadeira traição. Conseguiram transformar um momento que seria unicamente de celebração e festa numa amargura sem tamanho.
Se nem a classe média consegue pagar preços tão abusivos, imaginem o nosso povo humilde que carregou esse clube nas costas desde sempre.
A ganância dos "donos do estádio" impede que eles tenham uma visão comercial estratégica adequada.
A febre do ouro faz com que se mate a galinha dos ovos.
Vejo muitos Corinthianos dizendo que não vão mais ao estádio ver o Timão. E da pra ter uma idéia do que isso significa? Da pra perceber a gravidade dessa atitude?
A euforia pode ser rapidamente substituída pela revolta e ressentimento.
Para o Corinthiano ficar sem ver o Corinthians é equivalente a faltar água, arroz, feijão e até mesmo o ar. É uma agressão sem limites.
Os nossos "executivos" estão na ilha da fantasia do poder e não conseguem entender o tamanho do Corinthians. Estão criando uma crise social e política com consequências ainda desconhecidas.
O curioso é que eles falam com tanta pompa em "futebol negócio", mas exigem este choque de capitalismo justamente da parte mais fraca que é o torcedor. No caso deles, dirigentes, a eficiência não parece ser a mesma. Contratam um jogador meia boca por 40 milhões para reforçar o rival, pagando o salário do indivíduo. 
Isso é futebol negócio? O Presidente Mario Gobbi antes de assumir esbravejou frente aos microfones chamando o torcedor de idiota por não perceber a natureza mercantil do futebol.
Ora, se a lógica do mercado fosse aplicada a um executivo que investe 40 milhões para reforçar o concorrente pagando ainda seus dividendos, este profissional já estaria no olho da rua!
Esfolar o torcedor e roubar o seu sonho nada mais é do que uma violência social!
Estes senhores permanecem sem entender o que o Corinthians representa. Os propósitos que ele atende para muito além do futebol.
Afastar o Corinthians de seu povo e a cultura de freqüentar o estádio nada mais é do que roubar uma parte de nós mesmos.
O Corinthians é uma cicatriz na nossa alma.
Insensíveis e gananciosos. Vocês não entendem nada do que é o Corinthians, do que é a nossa cultura e muito menos de negócios. 
Roubar do Corinthiano a cultura de freqüentar o estádio é jogar fora o nosso maior patrimônio. O que nos torna diferentes e gigantescos. A experiência de ser Corinthiano é fundamental e alimenta todos os outros interesses.
Sem o povão lá dentro, este jamais será o estádio do Corinthians.