sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A grande conquista

- Maio de 2015

Meu primeiro emprego foi de office boy. Juntei uma grana durante meses. Por fim, consegui comprar um título do Sport Club Corinthians Paulista.
À época, um senhorzinho trabalhava como vendedor. Comercializava os títulos para novos associados. Era um dos revendedores autorizados do Corinthians, além de vender também os títulos de antigos sócios que se desfaziam de suas propriedades. 
Sim, os títulos de clubes eram como verdadeiros patrimônios dos associados. Tempos bem diferentes aqueles em que acessar um clube significava não somente pertencimento social, mas desfrutar de confortos hoje facilmente disponíveis em condôminos, academias, pousadas ou casas de praia. 
Havia aborrecido aquele pobre velho uma dezena de vezes, perguntando o preço e verificando se surgira alguma promoção ou desconto especial. Fiz isso durante semanas.
Quando por fim juntei a grana suficiente, peguei o ônibus "Penha" que passava atrás do antigo "Teatro Silvio Santos", na Parada Inglesa.
Escondi o dinheiro na cueca. Considerando valores de hoje, creio que não era tanto dinheiro assim, mas para mim representava a economia de um ano. Havia decidido que seria tudo do Corinthians. Seria eu, parte integrante daquele clube. Era como se tivesse comprando um terreno no céu.
Quando desci no ponto de ônibus que ficava bem em frente ao Parque São Jorge minhas pernas tremiam. Sentia meu couro cabeludo ferver. Estava realmente ansioso e a ponto de explodir.
Ajeitei o meu saco. Quem me observava a distância provavelmente pensou que eu fosse um moleque tarado, ou então que eu tinha uma enfermidade terrível nos testículos.
Carregava dinheiro grande. Cédulas de cruzeiro. Precisava de muitas delas para pagar o valor negociado.
Cheguei triunfante à frente do senhorzinho. Tinha um sorriso muito largo no rosto. Algo que eu não podia controlar, nem se eu quisesse. 
Acho que ele percebeu minha felicidade. Foi cúmplice dela. Ainda que, certamente, aquela fosse uma das vendas mais sofridas e choradas que ele já havia realizado em sua importante carreira.
Me acompanhou solenemente até um guichê bem rústico e simples.
Dentro de uma janelinha escura, um senhor, ainda mais velho e arruinado, conferia meus documentos. Depois passou a contar as cédulas sem supor por onde elas tinham passado.
Depois de se certificar que estava tudo dentro dos conformes, buscou uma máquina de escrever bem pesada que deve ter sido usada para firmar o contrato do Cláudio, do Luizinho ou do Baltazar.
Tudo bem que eu estou ficando velho, mas não vamos exagerar. No começo dos anos 90, os computadores e impressoras já faziam parte do cotidiano das grandes empresas. Mas não do Corinthians. Nem sempre este clube teve essa obsessão louca pela modernidade. As coisas no Corinthians eram do arco da velha. Pensando bem, creio que essa sanha modernizadora do Corinthians atual e esse desespero pelas novidades e por se inserir no mercado global do futebol contenha algum nível de complexo pelos anos de atraso que de alguma maneira se refletia nos resultados dentro de campo.
Essa falta de gosto pelo novo que o Corinthians tinha, a falta de compostura, a ausência do esteticamente aceitável, a breguice que se projetava em times de futebol meio grossos e uma torcida mais simples e menos "pop". Nada disso tirava o encanto do nosso clube do coração. Ao contrário, significava mais um elemento de identidade com a vida da gente. A gente era esse Corinthians meio desengonçado no cotidiano. Que ganhava uma grande conquista depois de suar como condenado e logo tomava tantas outras na cabeça. Inevitáveis desilusões e decepções. Mas era assim mesmo. Segue o jogo. 
Igualmente, com essa vida sofrida que vivíamos, dávamos sem saber a cara daquele Corinthians de outros tempos.
Muitos amigos, entre os quais eu me incluo, sentem alguma nostalgia desse Corinthians que de algum modo parece que se foi para nunca mais voltar. Um Corinthians que vive agora em algum lugar dentro da gente. Na melhor das memórias afetivas.
Mas não é só o Corinthians que mudou. A sociedade mudou, e este clube, como a mais bela de suas expressões, mudou junto com ela.
A molecada não esconde mais dinheiro pra ser sócia de nenhum clube, ela quer celulares, video-games, tênis e roupas de marca.
Não usa a camiseta dada de presente pela tia. Agora, experimentam uma vaidade exarcebada que a gente não tinha. Não querem brincar no clube, querem visitar lugares mais espetaculares. Também não aceitam "viver sofrendo" como os corinthianos de antigamente. Querem se dar bem. Precisam ser os melhores na vida e na bola. Vivemos em uma sociedade que nunca foi tão baseada no prestígio pessoal. Sendo assim, todo mundo tem uma obsessão louca por ser o maioral. A galerinha quer ver o Corinthians campeão todo ano. Mal sabem eles o que a gente já passou...
Quando eu vi o meu nome completo estampado no título patrimonial do Corinthians fiquei muito feliz. Na viagem de volta, ocasionalmente tirava a certidão do envelope e olhava para ela satisfeito e sem me importar que os outros passageiros vissem aquilo que eu havia adquirido.
Foram tempos felizes. Jogava bola no terrão aos sábados com os veteranos. Uns senhores bem mais velhos que eram espetacularmente bons de bola. E adorava jogar basquete, o esporte em que me dava melhor na escola.
Certo dia convidei um amigo que era filho de um cliente do meu pai para conhecer o clube. Ele também jogava basquete e gostou da ideia. Decidiu-se por comprar um título do Corinthians para me acompanhar nos jogos. Algo que ele faria sem o mesmo esforço que eu tive, pois a família dele tinha dinheiro e esbanjava status.
No dia seguinte fui ao encontro dele para irmos juntos ao clube. Ele falou meio sem jeito que não mais iria frequentar o Corinthians.
Seu pai gritou bem alto para que eu escutasse. Que o Corinthians era clube de pobre. De gentalha. Mal frequentado. Que de presente lhe daria um título do Espéria ou do Sírio que esses sim eram clubes de verdade com gente decente.
Tinha me matado tanto para comprar o título do Corinthians e descobrira de uma maneira cruel que minha nova aquisição era para alguns algo desprezível. Pior, nem era por rivalidade futebolística, mas efetivamente por preconceito social.
Adorei aquela sensação de ser "má influência". Não a conhecia até então. Gostei de saber que o Corinthians era um lugar potencialmente perigoso. Me senti muito mais atraído por aquela atmosfera.
Como a vida dá muitas voltas, fiquei sabendo que a família do rapaz foi à falência e que eles vivem hoje arruinados com muita dificuldade financeira. Eu continuo me virando, dando um passo de cada vez e feliz por estar conquistando o meu espaço. Mantendo sempre a humildade porque esse lance de arrogância dá um azar desgraçado, tanto na vida da gente como também no futebol.
Como eu amo o Corinthians!
Vinte e tantos anos depois vou poder fazer um trabalho por esse clube. Um projeto que acredito. É como se tivesse novamente entrando pela primeira vez naquela terra santa.

O sinalizador dos nossos tempos

Novembro de 2014

Acenderam os sinalizadores.
A imagem era linda. A fumaça cobrindo a Fiel Torcida e o povão na arquibancada gritando alto o nome do Corinthians.
Mas o sonho acabou antes de queimar o pavio.
O juiz paralisou a partida. Nos demos conta subitamente que agora estamos em 2014, quase 2015. 
Quando eu era criança a gente falava do ano 2.000 com expectativas incríveis. Seria a realização de sonhos fantásticos. O futuro nos guardaria novidades incríveis e gigantescas facilidades.
Faz quase catorze anos que começou o século XXI. Olhando de perto esta modernidade não parece ser tão interessante assim.
O triunfo do neoliberalismo criou uma nova ordem econômica, política e social. Por consequência criou também um novo tipo de homem.
Uma das tarefas originais desta “nova ordem” foi a de recivilizar o homem. Não deveríamos mais questionar as grandes estruturas. O “fim da história” já foi decretado e outro mundo não é possível. A partir de então, devemos cuidar apenas dos nossos “quarteirões”. A parte que nos cabe na nossa vidinha. E não responsabilizar nenhum inimigo político ou modelo estrutural. Na sociedade da autoajuda o grande inimigo estaria “dentro de nós”. Somos nós que temos que nos mudar. Estar adequados. Pertencer. Não nos reconhecemos mais no próximo. Ele é nosso inimigo em potencial. Qualquer um pode ser seu inimigo, desde que cruze o caminho dos nossos interesses imediatos.
Tantas digressões para falar dos sinalizadores na arquibancada do estádio do Corinthians? Para quê?
O Corinthians ficou apavorado com a indisciplina de alguns de seus torcedores. Tem compromissos financeiros. Quer evitar punições. Tem sido perseguido nos tribunais desportivos e precisa de resultados econômicos para se manter de pé e competir num mercado que não é diferente de outros tantos, ou seja, cada vez mais concentrado. É preciso destruir para não ser destruído. Até que em algum momento o próprio mercado se autodestrua. Mas o importante parece ser garantir o almoço de amanhã. Ainda que não haja futuro possível para o mercado, para os países ou para o planeta.
Para evitar as tais punições econômicas e desportivas o clube denunciou os torcedores culpados pelos sinalizadores. É preciso perseguir para não ser perseguido.
Os torcedores “civilizados” também apontam e acusam o “inimigo” que mora ao lado. Alguns ameaçam e agridem. Outros os entregam à polícia. Acreditam firmemente em si mesmos e em suas virtudes. Estão protegendo o clube e seu patrimônio. Comportaram-se adequadamente (entendam bem o que é adequação). Foram corretos e decentes. Sempre entregaram em dia a lição de casa. Em suas cabeças, não passa alguma outra reflexão, a não ser o desejo de preservar o Corinthians, evitar que ele seja punido, que o estádio seja interditado. Agem com a responsabilidade possível dos nossos tempos.
Não há nada que exista no Corinthians que não tenha correspondência com a sociedade. O Corinthians ressalta virtudes e vícios, paixões e pragmatismos, emoção e raciocínio, amor e desengano. Está tudo ali, como uma representação da vida da gente. Até na devastadora percepção do desespero dos nossos dias.
Fomos jogados uns contra os outros. O esforço de recivilização do homem nos massacra e nos oprime. É preciso estar adequado. Passar por cima de sentimentos e aspirações para permanecer existindo.
Para que o Mercado (com m maiúsculo) permaneça como o grande regulador da vida entre os indivíduos é preciso quebrar os instrumentos de solidariedade entre os homens. O mundo corporativo, o mundo dos negócios, o mundo das grandes empresas, o mundo das escolhas reduzidas e renúncias impossíveis é um mundo diferente do chão que a gente pisa.
As coisas só nos atingem verdadeiramente quando afetam o nosso cotidiano. Meus amigos, não aconteceu nada demais a não ser a inserção do Corinthians na velha nova ordem mundial. Isso a gente sente no fígado. Mas é assim que as coisas são, não é não? Dá para ser diferente? Digam vocês mesmos? Caso a resposta seja “sim”, vamos todos nos encorajar.
Vivemos todos sob o mesmo flagelo. Não deveríamos culpar uns aos outros.
PS: Este não é um enredo de conformismo e pessimismo. Os agentes não são apenas miseravelmente determinados pela estrutura. Alguns agentes podem contribuir para mudanças estruturais. O Corinthians não é apenas um clube de futebol. É uma força viva da sociedade brasileira. Há muito que pode ser feito.

Um momento de decepção com o futebol

- Novembro de 2014

Muitos amigos Corinthianos, os quais não havia tido a oportunidade de ser apresentado, passaram a me conhecer depois que escrevi um texto chamado "O porquê do vai Corinthians".
O texto foi lido por milhares de pessoas e trouxe coisas lindas na minha vida.
Igual a todos vocês, dediquei a melhor parte da minha vida ao Coringão do nosso coração.
Não me arrependo de nenhum suor nem de nenhuma lagrima derramados. Mas confesso que estou muito decepcionado.
Não só com o Corinthians, mas com o futebol como um todo.
Pela primeira vez na vida perdi o desejo de ir aos jogos e até mesmo de acompanhar as partidas pela televisão.
Espero que isso mude, pois vivi momentos muito felizes e emocionantes nos jogos do Corinthians.
Lendo as últimas notícias vejo que o Corinthians pode ser punido pelo STJD porque:
1- uma bexiga inflável caiu no campo de jogo.
2- um cachorrinho entrou em campo no meio da partida.
3- em outro jogo, dois meninos pularam o muro e foram até os jogadores ao final da partida para tirar uma foto. Pior de tudo, para se defender de potenciais punições o Corinthians declarou que encaminhou os meninos para o Juizado de Menores!
Sei que muitos devem pensar que minha atitude é política. Mas digo sinceramente que não é. Porque politicamente, acredito que não há caminho melhor do que a participação para transformar tudo aquilo que não consideramos correto.
Porém, ocorre que minha atitude é bem mais preguiçosa. Este futebol que "os caras" construíram, absolutamente desumanizado e burro não é o futebol que eu aprendi a gostar. Simplesmente, não me interessa. Na verdade, eu gosto de outro jogo. Outro esporte muito diferente deste espetáculo deprimente que pretende apagar a nossa história e nos transformar em uma feia e triste caricatura do que se idealiza que seja o futebol europeu. Por debaixo de uma fantasia de modernidade se escancara um jogo absolutamente patético que não agrada mais a quase ninguém.
Internamente no Corinthians, o cenário também não é nada animador.
Voltando ao texto que escrevi, eu dizia que "Vai Corinthians" e "Aqui é Corinthians" eram, na verdade, elogios à simplicidade.
Hoje, eu vejo tudo no Corinthians, menos simplicidade. Ao contrário, percebo uma arrogância que não tem nada a ver com nossa história.
Fica nítido que o atual presidente não suporta a torcida. Para ele, a nossa massa é um inconveniente que se deve aturar para que o negócio continue. O time não joga do jeito que a torcida gosta, o técnico não é aquele que gostaríamos, a organização do estádio contraria o gosto da galera, a pior contratação da história do Corinthians, de um jogador que em nada tem em comum com nossa identidade, teve seu inevitável fracasso debitado da conta da torcida.
Simplesmente não nos querem.
O Ronaldo Fenômeno fez bem ao Corinthians, mas até a página 12. Fez-se uma interpretação equivocada do sucesso de sua passagem e ao que parece, decidiram que seria necessário desde então, mudar o perfil da torcida nos estádios. Uma atitude burra, além de uma violência cultural e social.
Quando o Ronaldo anunciou sua chegada, ele falou uma frase que virou clichê. Naquela ocasião foi empolgante, mas hoje poucas frases me irritam tanto. Disse ele que havia chegado "mais um louco do bando de loucos".
Ao que parece, eles estão confundindo as coisas. Ser louco é diferente de ser idiota!
A nossa loucura é aquela do "Maluco Beleza" cantada pelo Raul Seixas, misturando a maluques com a lucidez, na loucura real.
É se entregar de corpo, alma e espírito, mas permanecer vigilante e atento.
A boa loucura exige uma dose de irreverência e insubordinação. Não esta submissão e apoio cego, surdo e mudo que eles desejam.
Agora, o Mikey é do bando de loucos, os Simpsons são do bando de loucos, o Bono Vox é do bando de loucos. Só os nossos Zés da Silva que ficaram de fora.
O louco de hoje, bem-vindo como torcedor, é na verdade um alienado. Que torce, paga caro o ingresso e depois vai pra casa cuidar da vida.
O Corinthians não pode abrir mão de sua energia mobilizadora. De seu potencial de comunicação com a sociedade. O Corinthians é patrimônio histórico, humano e cultural do povo brasileiro.
Não pode haver Corinthians sem comunhão.
Espero mesmo que o próximo presidente resgate a ligação com a torcida e perceba que o Corinthians é uma grande comunidade.
Não dá pra dirigir o clube sem entender a importância da conexão com o espírito Corinthiano. Que não há vitória duradoura sem nosso inconsciente e consciente coletivo.
Quanto às demais estruturas políticas do futebol, estão transformando o esporte em algo muito distante da vida da gente. Roubando justamente o que ele tem de genuíno e que o diferencia dos demais desportos. O humanismo, a conexão com a vida social da nossa gente e a alma dos torcedores. 
Certamente, vocês vão ficar mais ricos do que já estão. Mas vão perder um público que não se interessa por este espetáculo tão broxante

Feliz aniversário Corinthians

- Setembro de 2014


Feliz Aniversário, Corinthians.
Um momento meio esquisitão da nossa história.
Porque para a nossa gente, o Corinthians não pode ser o Corinthians sem que a gente consiga se reconhecer nele.
Tantas coisas mudaram de maneira tão rápida.
Ainda nos sentimos meio sem jeito na nova casa rica, ainda meio gelada.
Dá um pouco de saudade do nosso cafofo. Onde fazíamos amor em sua plenitude. Comíamos arroz, feijão e fome, mas éramos muito felizes.
Sim, estamos gratos à Deus pela casa nova tão bonita.
Foi muito bom ganhar estes campeonatos incríveis. Viajar até o Japão para quem não tinha passaporte, mas sempre teve identidade, foi inesquecível.
Acontece que essa atmosfera de "novo rico" não combina conosco.
Desde sempre aprendemos a não dar o passo maior do que a perna. Quem sempre foi pobre, descobre muito rápido que não pode ser inconsequente.
Valorizamos a simplicidade. O olho no olho, o abraço apertado e não precisamos de muito para ser felizes.
Na boa, nem sabemos como ser esnobe. Somos meio caipiras e desajeitados. Somos todos um pouco Adoniran Barbosa.
Mas eu sei que este estranhamento logo vai passar.
Neste momento, percebe-se de maneira tão evidente que o Corinthians não está em seus edifícios, em seus troféus, em seus jogadores, nem no nome de ninguém. O Corinthians está no espírito do nosso povo. O nosso coringão paira no ar.
O Corinthians é energia coletiva. É palpável e ao mesmo tempo sensível. Tem gosto, tem cheiro. É uma coleção de quadros e imagens pregadas em tudo quanto é canto da nossa memória.
O Corinthians está na alma e corre nas veias da nossa gente.
E dá uma alegria danada perceber que este povo, de uma maneira muito especial, já fez a sua escolha. Quer um Corinthians popular. Não quer um clube que escape aos nossos dedos. Que deixe de representar aquilo que somos.
Vai tudo ficar bem. Já está bem. Logo passará este estranhamento.
Esta nova realidade não subiu na cabeça de nenhum corinthiano. Este é o primeiro passo para vencer sempre na bola e na vida. É isso que nós somos e não vamos mudar. A casa é bonita, mas queremos os nossos camaradas juntos de nós, curtindo este samba e comendo na mesma mesa.
O Corinthians é o nosso espírito imortal.
Parabéns, Corinthians que aprendemos a amar


Sem o povão o itaquera não é o estádio do timão

- Maio de 2014


Nunca vi uma reação tão indignada da torcida Corinthiana quanto esta em relação ao preços dos ingressos no estádio novo em Itaquera.
Foi um tapa na cara. Uma verdadeira traição. Conseguiram transformar um momento que seria unicamente de celebração e festa numa amargura sem tamanho.
Se nem a classe média consegue pagar preços tão abusivos, imaginem o nosso povo humilde que carregou esse clube nas costas desde sempre.
A ganância dos "donos do estádio" impede que eles tenham uma visão comercial estratégica adequada.
A febre do ouro faz com que se mate a galinha dos ovos.
Vejo muitos Corinthianos dizendo que não vão mais ao estádio ver o Timão. E da pra ter uma idéia do que isso significa? Da pra perceber a gravidade dessa atitude?
A euforia pode ser rapidamente substituída pela revolta e ressentimento.
Para o Corinthiano ficar sem ver o Corinthians é equivalente a faltar água, arroz, feijão e até mesmo o ar. É uma agressão sem limites.
Os nossos "executivos" estão na ilha da fantasia do poder e não conseguem entender o tamanho do Corinthians. Estão criando uma crise social e política com consequências ainda desconhecidas.
O curioso é que eles falam com tanta pompa em "futebol negócio", mas exigem este choque de capitalismo justamente da parte mais fraca que é o torcedor. No caso deles, dirigentes, a eficiência não parece ser a mesma. Contratam um jogador meia boca por 40 milhões para reforçar o rival, pagando o salário do indivíduo. 
Isso é futebol negócio? O Presidente Mario Gobbi antes de assumir esbravejou frente aos microfones chamando o torcedor de idiota por não perceber a natureza mercantil do futebol.
Ora, se a lógica do mercado fosse aplicada a um executivo que investe 40 milhões para reforçar o concorrente pagando ainda seus dividendos, este profissional já estaria no olho da rua!
Esfolar o torcedor e roubar o seu sonho nada mais é do que uma violência social!
Estes senhores permanecem sem entender o que o Corinthians representa. Os propósitos que ele atende para muito além do futebol.
Afastar o Corinthians de seu povo e a cultura de freqüentar o estádio nada mais é do que roubar uma parte de nós mesmos.
O Corinthians é uma cicatriz na nossa alma.
Insensíveis e gananciosos. Vocês não entendem nada do que é o Corinthians, do que é a nossa cultura e muito menos de negócios. 
Roubar do Corinthiano a cultura de freqüentar o estádio é jogar fora o nosso maior patrimônio. O que nos torna diferentes e gigantescos. A experiência de ser Corinthiano é fundamental e alimenta todos os outros interesses.
Sem o povão lá dentro, este jamais será o estádio do Corinthians.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A Morte de Dona Marisa e a Erupção de Ódio no Brasil

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Quem aguenta essa erupção de ódio no Brasil?

Essa gente hipócrita, mentirosa e covarde, com a cara lavada fingindo ser Deus.

Decidindo com a boca suja de maldizeres quem merece viver e quem merece morrer. Quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Quanta arrogância!

Comemorando velório, linchamento e tortura.

Quem são vocês? Esse Deus que vocês dizem acreditar certamente choraria com essa existência tão tacanha e violenta.

Gente mal amada! A verdade é essa. Mal amada.

É desamor. Falta amor. Falta realização. Poços de frustrações cavados embaixo dessa terra de satisfações descartáveis e instantâneas.

Gente que baba ódio pelo canto da boca. Que despeja nos outros o ressentimento pela própria vida amarga. Gente apegada num monte de bosta que a propaganda repete ser importante.

Gente que tem o hálito de urubu porque carrega no fígado o chorume. Porque tem a língua suja e a ponta dos dedos podres de tanto teclar violência.

Até quando vamos nessa toada?

Já conseguiram tudo. Já deram o golpe. Já têm o Brasil de volta. O Brasil obscenamente de joelhos. Já estão sendo restauradas as velhas hierarquias. Quem manda e quem obedece. Já têm milhões de pessoas fazendo fila no quarteirão para aceitar o salário que der. Pronto! Já estão todos humilhados e chorando aceitando qualquer emprego. Sim, aqueles que vocês reclamavam por não estarem mais dispostos a servir sob qualquer condição. Aqueles que eram os vagabundos que não queriam trabalhar. Aqueles que ocupavam desagradavelmente seus lugares preferidos. Pronto! Ninguém mais precisa pagar o pato. Essa massa de trabalhadores está agora contribuindo patrioticamente com a baixa da inflação, pois seu "poder de compra" não causa mais "pressão inflacionária". Agora é tudo de vocês. O que mais vocês querem?

É preciso desejar a morte do próximo?

Quem aguenta tanto ódio?

A Dona Marisa não aguentou. Trabalhadora humilde, certamente estará num lugar melhor do que esse.

Depois de tanta luta, de fazer tanto pelo Brasil, estava na iminência de ser encarcerada. Mesmo sem ser política. Mesmo vivendo uma vida simples.

Assim como Eva Perón jamais foi perdoada pela oligarquia argentina por ter sido pobre, por ter sido uma filha não reconhecida "fora do casamento" da santa igreja, por ter se aventurado sozinha na cidade grande, por ter sido atriz, quando isso era "coisa de puta" e, principalmente, por Evita ter vencido na vida e jamais ter mudado de lado. Por ter sido fiel a sua origem social. Evita não suportou tanta violência. Embora tenha lutado sempre com valentia, seu corpo sentiu os efeitos do ódio de classes. Nos últimos dias de sua vida, os muros de sua residência amanheceram pixados com a frase: "Viva o Câncer!".

Da mesma forma, as oligarquias brasileiras e certa parte da classe média servil, cafona e burra que se esfrega gostosamente no opressor e esmaga os mais fracos, jamais perdoaram essa "lavadeira" de São Bernardo do Campo por ter superado todos os obstáculos e estado ao lado de seu marido, retirante nordestino, no posto mais alto da nação, sendo o um dos maiores presidentes da nossa história. Jamais aceitariam a Dona Marisa vencer.

Aceitam de bom grado a bela, recatada e do lar. Ainda que seja tudo uma mentira, porém, uma mentira ideal. Pois é muito mais fácil se projetar como Marcela do que se reconhecer como Marisa. Pior, se sentir menor que a Dona Marisa é o terror para muitas dondocas, ou metidas a dondocas e também aos "dondocos".

E a Dona Marisa não se curvou. Foi ela mesma. "Simprona de tudo". Não caiu de joelhos, como alguns gostariam, em reverência à "chiqueza" dessa high society banal.

Como Dona Marisa ousou desfazer de tudo isso que muitos acreditam ser tão importante?

Passar pelo posto de primeira dama e depois voltar para o apê em São Bernardo, ir fazer piquenique com o marido carregando o isopor na cabeça e descolar um pedalinho pra brincar com o seu neto em Atibaia.

Sim, nessa sociedade tão hierarquizada, vertical e baseada no prestígio pessoal é imperdoável. Dona Marisa mesmo sem fazer um discurso sequer, subverteu o psicológico dessa nação. Cavucou em tudo aquilo que há de mais tacanho e feio no Brasil.

Não por acaso a erupção de ódio dessa gente careta e covarde.

Essa gente que aceita de bom grado a miséria, a injustiça e, permitam-me dizer, aceita sim de bom grado a corrupção, desde que ela seja praticada pelos velhos senhores, desde que venha de quem está em cima da pirâmide social. A Lava Jato prova isso a cada dia.

À propósito, não posso terminar esse texto sem dizer uma frase em homenagem à Dona Marisa:



ENFIEM SUAS PANELAS NO CU!

sábado, 26 de novembro de 2016

A Grande Aventura de Fidel Castro

Quem aprendeu a amar o Comandante Fidel Castro sente no peito a perda de um pai.
Fidel não era apenas um político, um chefe militar, um presidente. Fidel foi um exemplo de homem. Um revolucionário. Fidel foi também um líder existencial. Um camarada. Alguém que nos faz refletir a cada dia o que queremos como indivíduos. Que podemos ser muito mais do que uma vidinha jogada no universo. Que podemos ser homens e mulheres protagonistas do nosso tempo e com condições de transformar o mundo, mover a história, fazer muito mais do que aceitar as injustiças como algo naturalizado e comum.
É difícil para muitos entender o amor do povo por Fidel. Ainda mais nos dias atuais. Vivemos uma era de culto ao individualismo. De idolatria à satisfação pessoal e íntima. Ao consumo. Como entender o amor por Fidel se a cada dia a humanidade é levada a odiar o público e a amar o privado? Como entender o amor por Fidel nesses dias em que a atividade política é criminalizada? Em que o mundo idolatra empresários, homens de mercado e até fazem deles seus líderes governamentais?
Eu aprendi a amar o Fidel.
Desde jovem. Lia as histórias da Revolução Cubana e me pareciam fantásticas. Sei que não era um adolescente comum. Não me encantaram os super heróis. Eu gostava do Fidel e do Che. Não sonhava em conhecer a Disney. Sonhei durante anos conhecer Cuba, visitar Havana, como depois tive a sorte de fazer em algumas oportunidades.
Honestamente, eu não culpo quem não entende esse amor pelo Fidel. Não culpo, tampouco, quem odeia o Fidel.
São décadas e mais décadas de lixo midiático. De ódio sendo disseminado contra figura de Fidel.
Fidel escapou de mais de 600 atentados contra sua vida. A humanidade não pode escapar da violência do imperialismo. Violência militar, política e midiática, deformando visões de mundo e corrompendo a história.
Fidel também foi odiado porque a coragem de uns revela a covardia de outros e esta coragem parece ser insuportável e subversiva. Quem fez a escolha pela obediência detesta os rebeldes. Quem resolveu aceitar as humilhações cotidianas e se submeteu a tudo esperando a promessa de um bem-estar que só se realiza na hora dos calmantes precisa de alguma maneira se convencer que sua vida valeu à pena. Alguns precisam odiar Fidel para comprovar a si mesmos que sua escolha não foi tão ruim e que sua vida não foi desnecessariamente ordinária. Que sua crença no progresso pessoal não foi em vão. Que aceitar os assédios, as injustiças, os choros cheios de soluço dentro do banheiro também valeram à pena.
Muitas pessoas precisam odiar o Fidel para suportarem a si mesmas. Precisam olhar para Cuba, repleta de carências e precariedades, para convenceram a si mesmos de que vivem repletos de bem-estar.
Claro que Cuba precisa ser odiada. É evidente que todas as dificuldades que vive o povo cubano merecem destaques e manchetes escandalosas. As pessoas precisam do flagelo de Cuba para aceitar com algum conforto nossas misérias cotidianas, nossos milhares de desabrigados, nossas crianças de rua, nossos irmãos tendo que comer lixo, nossas cadeias lotadas, a criminalidade, as pessoas sendo baleadas, nossos jovens envenenados pelo capitalismo, entorpecidos pelo consumismo, a polícia repressora, nossa democracia de faxada.
Como se as carências de Cuba fossem resultado apenas de seus erros internos e não houvesse o papel do inimigo que desde o primeiro dia da Revolução Cubana fez de tudo para destruir o país e desconstruir essa experiência como alternativa para os povos.
Sim, os cubanos gostariam de ter o seu tênis Nike. As meninas gostariam de usar Natura. Como convencer uma mulher do século XXI que ela não precisa de xampu e condicionador? Os meninos gostariam de brincar com seu PlayStation.
Mas o povo cubano conseguiu algo que é muito difícil de possuir. Esse povo tem dignidade! Esse é um povo lindo, com um brilho no olhar que eu temo estarmos nós, povo brasileiro e irmão de alma dos cubanos, perdendo para sempre. Dignidade não se compra no supermercado. São crianças na escola, acolhidas, bem educadas. Quem fica doente não é tratado como bicho. São casas simples, sem luxo nenhum, mas muito dignas. É cada pessoa tendo direito a ter seu lugar no mundo. Sabe o que é você conversar com um jovem que não está infeliz? Que não parece apavorado, envenenado e com medo? Essa é a imagem que eu guardo de Cuba.
Fidel foi um dos maiores homens da história! Para sempre será lembrado.
Sabem qual foi a maior aventura de Fidel?
Não foi pegar em armas para chegar ao poder.
Não foi enfrentar os Estados Unidos durante meio século e sair vencedor.
Sabe o que torna a Revolução Cubana diferente de todas as outras que o mundo já conheceu?
A maior aventura de Fidel foi tentar construir o HOMEM NOVO. Produzir um novo tipo de indivíduo que fosse solidário, verdadeiro, camarada, desapegado das coisas, voluntário, altruísta, generoso, não invejoso, firme, forte, correto, doce, sem medo e com capacidade de manifestar seu amor pela humanidade. De lutar contra as injustiças e, caso necessário, oferecer sua vida pela liberdade de seu povo.
A construção do homem novo. Essa foi a grande e linda aventura. Foi um projeto de Estado. Uma experiência sem igual na humanidade que ganhou um significado mais do que especial como acontecimento nesse país tropical tão lindo. Um lugar para a humanidade se amar. Um espaço de liberdade.
Essa aventura valeu muito à pena!
Ainda que a humanidade tenha se espatifado em alguma esquina da história. Ainda que tenhamos sido definitivamente envenenados. Ainda que estejamos reduzidos a consumidores. Ainda que a humanidade tenha rodado tanto tempo pra terminar como compradores de coisas. Ainda que sejamos irremediavelmente egoístas e individualistas.
Mesmo assim a aventura de Fidel Castro foi linda e valeu muito à pena.
A presença física de Fidel chega ao fim. Mas seu exemplo, seu pensamento e principalmente seus grandes atos acompanharão a humanidade para sempre. De alguma forma nosso Comandante en Jefe, estará sempre conosco.
Viva Fidel!
Hasta siempre Comandante!