sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

DECLARAÇÃO DE VOTO NAS ELEIÇÕES DO CORINTHIANS





DECLARAÇÃO DE VOTO

É de fundamental importância as escolhas históricas que o Corinthians deve fazer neste momento.

Nos últimos anos o Corinthians conquistou muito. Exorcizamos fantasmas que nos assombravam há tempos. Realizamos desejos que até outro dia eram fantasias que habitavam na imaginação de cada corinthiano.

Em verdade, queríamos muito os títulos que conquistamos e a nova casa pela qual sempre lutamos. Porém, em nenhum momento desejamos um Corinthians diferente do que ele sempre foi. Ou seja, um instrumento poderoso de identidade e representação da nossa gente. Um Corinthians que jogue o jogo como a gente joga a vida da gente!

As eleições livres no Corinthians são tão ou mais valiosas do que qualquer troféu ou edifício que nos pertença. Durante anos fomos roubados do direito de escolher o presidente do clube e seus conselheiros.

Claro que existe muito a ser melhorado na nossa estrutura política. Os instrumentos de eleição e de representação devem ser aperfeiçoados e perseguirem sempre a efetiva participação da nação corinthiana, buscando os instrumentos mais adequados para que isso ocorra.

Mas é importante reconhecer que, embora o Corinthians ainda conviva com vícios históricos na representação política de seus associados e torcedores, houve avanços significativos no processo político-eleitoral dentro do clube. O que não deve inibir a busca para maior democratização e espaços de participação nas decisões estratégicas.

É bom que se diga, a eleição não é um momento apenas para a escolha de presidente e conselheiros. Deve significar a oportunidade para a reflexão sobre os caminhos que o Corinthians deve percorrer. Decidir sobre o nosso futuro. Para onde devemos caminhar.

Já é hora de colocarmos a mão na consciência. A euforia pelas conquistas e vitórias devem por um momento ser deixada de lado. É evidente que devemos nos inspirar nas experiências bem sucedidas no futebol mundial. Mas não queremos ser o Manchester, o Barcelona, o Real Madri, nem o Bayer. Queremos continuar sendo o Coringão do nosso Coração!

Quem defende a nossa identidade de Corinthians do Povo, normalmente é tratado como um romântico ou ingênuo.

Porém, se somos o que somos, se nos tornamos este gigante, se atraímos patrocinadores, televisões e anunciantes, se podemos negociar a nossa marca e ganhar dinheiro com isso, é justamente porque somos a porta de entrada para o povão. Esta sociedade viva que cresce, que ama, que compra, que estuda, que vai chegar longe. Algo que nem publicitários, sociólogos ou filósofos sabem ao certo o que exatamente é, mas intuem ser algo muito semelhante e próximo do que é a gente corinthiana. Somos a porta de entrada para a chamada “nova classe média”. Daquela que já foi incluída, mas também daquela que ainda será incluída ao longo dos anos.

A experiência de frequentar o estádio de futebol é fundamental para a formação do corinthiano. Podemos lotar mais os jogos. Consumir mais. Com mais gente no estádio, oferecendo maior inclusão e felicidade ao nosso torcedor.

Em outras palavras, preservar nossas raízes populares é uma maneira eficiente para ganhar mais dinheiro, não menos. É possível arrecadar mais com mais gente e preservar o nosso maior patrimônio para o futuro, ou seja, o torcedor corinthiano. Continuar sendo o Time do Povo deve ser uma decisão estratégica. Seja por responsabilidade histórica, seja também pelo crescimento econômico.

O Corinthians é um patrimônio social, político e cultural do povo brasileiro! Devemos assumir a importância que temos para que o nosso futebol não seja mais um instrumento de exclusão e por isso, não à toa, continue definhando pelos campos e, a cada dia, ocupando menor importância para as novas gerações.

Uma chapa para eleição no Corinthians não é composta apenas pelo candidato ao cargo majoritário. Configura-se como um conjunto de seres humanos com opiniões, preocupações e aspirações das mais diferentes. Tenho na chapa Renovação e Transparência muitos amigos em que acredito. Corinthianos que valorizam a democracia dentro do clube. Que em nenhum momento ventilaram interromper o processo eleitoral por estarem no grupo de situação.

A ditadura Dualib foi a maior cafajestagem que já ocorreu no clube. O Corinthians foi sequestrado por mais de uma década e nunca o corinthiano esteve tão afastado das instâncias de decisão e participação. Ninguém que deixe de respeitar e valorizar a democracia no Corinthians pode ser considerado como alternativa viável para os próximos anos.

Mantive criticas sérias a atual gestão do Corinthians. Não houve nenhum posicionamento que não tenha sido transmitido nas reuniões que participei. Encontrei em Roberto de Andrade, candidato a presidência, uma pessoa atenta e disposta a dialogar. Percebi que ele acolheu e recebeu com atenção as minhas ponderações que não são nada além do que o desejo de mais um corinthiano preocupado com os rumos que iremos tomar.

Não sou candidato ao conselho. Não pedi nem fui convidado para nenhum cargo na diretoria do clube. Da mesma forma, não deixarei de manter um apoio crítico que não seja cego e mudo diante de questões que merecem atenção.

Sempre acreditei que a participação é a melhor ferramenta para a transformação. Isso serve para a vida política do país e também em diversos segmentos da vida social. Realizamos escolhas possíveis para perseguir os sonhos aparentemente distantes, mas que podem ser alcançados com muita luta e dedicação.

Considero importante que cada corinthiano, na medida do possível, seja associado para poder interferir de maneira decisiva no futuro do Corinthians. Para tanto, defendo também instrumentos para que o torcedor de estádio seja também um sócio do clube. Creio que a valorização do associado na aquisição de ingressos pode significar um avanço importante para que o fiel torcedor opte, primordialmente, por ser um associado do Corinthians.



Transmito a minha decisão de votar no Roberto de Andrade e desejo que cada um decida com sua consciência livre o futuro do Corinthians. Desejo firmemente que permaneçamos unidos para alcançarmos juntos os nossos objetivos para um futuro próspero e justo do Sport Club Corinthians Paulista.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A Conjuntura do Plano Dilma




Este artigo não carrega a intenção de absolver o Governo Dilma de eventuais frustrações provocadas no conjunto da sociedade, sobretudo em seus apoiadores que enfrentaram inúmeros debates em condições muito difíceis no período eleitoral.


A tentativa é realizar uma análise fria e até certo ponto pragmática sobre a conjuntura em que se insere o segundo mandato da presidenta, as possíveis motivações do Plano Dilma e seus potenciais desenlaces.


Vemos o constrangimento de alguns setores progressistas que se veem obrigados a assistir os conservadores atacando ferozmente a presidenta, mas não por enfrentar as delicadas questões que certamente provocariam a histeria das elites. É o que se esperava a partir da vitória que foi apertada, mas que se deu depois da direita enfurecida utilizar suas armas mais violentas, expor sua face mais destruidora e mesmo assim sair derrotada.


Dilma assiste a oposição malhar sem trégua seu novo mandato, mesmo tendo adotado boa parte do receituário esperado para um eventual governo do PSDB. Mas como no Brasil o ideário político e as propostas de governo são meros vernizes que encobrem interesses inconfessáveis, a oposição ignorou a possibilidade de aclamar uma suposta “vitória programática” e não cedeu nenhum milímetro na tentativa de derrubar a presidenta. Dilma começou o seu segundo governo como terminou o primeiro. Nem parece que foi reeleita pela maioria da população, talvez porque o que se mostrou até o momento tenha sido diferente do debate político que se viu no período eleitoral. Dilma está prestes a perder o apoio de quem a defendeu sem ter conquistado o apoio de quem a alvejou.


Embora seja compreensível a decepção e o constrangimento dos progressistas, é preciso analisar calmamente o contexto das principais ações do “Plano Dilma”.


O Brasil permanece sendo um país da periferia do capitalismo global. Embora nos últimos anos tenhamos alcançado certo protagonismo e ganhado importância relativa na economia mundial, continuamos com nossos destinos atrelados a uma agenda internacional e uma conjuntura que se impõe desde os países do centro até nossas terras tão férteis, porém ainda não completamente independentes.


Mesmo nos países ricos, existem disputas violentas entre as hegemonias locais. Os projetos de desenvolvimento e competitividade destes países, o poder de compra da classe trabalhadora, o fomento do mercado interno e o investimento em infraestrutura esbarram no receituário imposto pelo Mercado (com eme maiúsculo). O argumento parece razoável: o controle dos gastos dos governos e a transparência orçamentária sobre o endividamento dos Estados. Quem em sã consciência poderia se manifestar contra algo que se dá o nome de “austeridade fiscal” ou “metas inflacionárias”? Porém, existe um processo de corrupção histórica. A crise de 2008, oriunda da farra especulativa do Mercado financeiro foi convertida em uma suposta crise de endividamento dos Estados. Como se os países tivessem se endividado custeando suas infraestrutura e cobrindo os gastos sociais. Ora, os países se afundaram justamente socializando os prejuízos e cobrindo o rombo deixado pelos especuladores.


Na Europa, alguns países são governados sob efetiva intervenção do Mercado. Algumas gestões mobilizaram esforços nacionais para superar o atraso provocado pelo neoliberalismo, mas foram gradativamente abduzidas pela ditadura do Mercado. O Papa Francisco tem denunciado a escuridão sob a qual a humanidade tem sido lançada e a incapacidade de orientar o seu destino diante da apropriação das nações pelo capitalismo predatório.


Mesmo o presidente do país mais rico e poderoso do mundo enfrenta dificuldades para restaurar o capitalismo de escala. Recentemente, Obama defendeu a flexibilização das “metas de austeridade”. Sua fala tinha como pano de fundo a eleição do novo governo da Grécia, porém tem olhos internos para os desafios que ele mesmo enfrenta diante do chamado "abismo fiscal" e a chantagem de quem promete fazer "análises de risco" e se colocam como estruturas superiores ao próprios Estado.


Obviamente, o Brasil não está desconectado desta conjuntura que orienta os caminhos das principais nações do planeta. Mais do que uma crise econômica mundial existe uma crise política. Em verdade, os Estados sabem o que precisa ser feito para recuperar o dinamismo e a competitividade de suas economias, no entanto o sistema político eleitoral está capturado por terríveis forças que trabalham exclusivamente para si mesmas. Agir isoladamente, significa um risco grandioso, principalmente para um país emergente como o Brasil.


Os países vizinhos ao Brasil enfrentam dificuldades econômicas imensas. Foram mais corajosos sob muitos aspectos, mas enfrentam também surtos inflacionários mais graves e em alguns casos crise no abastecimento. A economia tem um potencial devastador sobre o ambiente político. Certamente, cada chefe de Estado faz seu cálculo político de quanto é possível suportar diante de determinadas dificuldades impostas ao conjunto da sociedade.


A dura e devastadora realidade é que diante das CONDIÇÕES ATUAIS, o Brasil não reúne potencial para impor uma nova agenda nacional, rompendo com a ordem internacional vigente na últimas décadas. De certo, isso não poderia ocorrer apenas por vontade e uma dose de coragem da nossa Chefe de Estado, mas deveria ser resultado da mobilização e desejo de diversos seguimentos da nossa sociedade, disposta a encarar os riscos e apuros das consequências turbulentas e desagradáveis que certamente viriam.


Necessário seria que tivéssemos uma elite nacional (ou pelo menos seguimentos importantes desta elite) interessadas no desenvolvimento econômico e social do Brasil. Capaz de pensar e encampar uma estratégia de progresso do país para as próximas décadas, o que incluiria preservar nossos recursos, proteger nossas reservas e investir na defesa nacional. Resistir aos ataques especulativos, superando as dificuldades econômicas e canalizando esforços para uma verdadeira revolução na educação pública. Uma elite que se apoiasse no potencial do país e investisse no futuro da nossa gente. Ainda que não fizessem isso por sensibilidade social, mas que fossem realizados grandes investimentos, para depois serem colhidos grandes frutos.


Parece desnecessário dizer que este não é o caso brasileiro. Nossas elites continuam mais perversas do que nunca. Interessadas apenas em adquirir o lucro fácil e viverem como sultões. Nem que isso tenha como consequência a desgraça do futuro do Brasil. Como disse certa vez o Cazuza: “são caboclos querendo ser ingleses”. Entreguistas pela própria natureza. O Governo Lula mobilizou esforços para disputar espaço em determinados setores da elite. Ressuscitou a construção civil, despertou os setores produtivos que estavam estagnados, injetou dinheiro do Estado para fomentar certos “campeões mundiais” do empresariado.


Mas luta de classes é luta de classes. O PT parece não entender que a suposta “aliança” com certos setores da elite é meramente funcional. Na primeira oportunidade eles colocam todos na cadeia! E não existe “brodagem” nem parceria.


Os subsídios públicos, isenções fiscais e demais “incentivos” do Estado para com a elite não causam menor indignação nos setores aparentemente interessados na “redução dos gastos públicos”. Porém, alguns poucos reais pagos aos miseráveis deste país que historicamente estiveram jogados em algum canto passando fome e esperando o dia de morrer, causa revolta nos contribuintes que “carregam este país nas costas”.


A classe média se alia as elites de maneira burra e contrária aos seus próprios interesses. Porém, sem representação política e sem consciência de seu verdadeiro inimigo, jamais apoiaria uma agenda de progresso para o Brasil. O governo largou de mão. Mesmo com tanto talento nas propagandas políticas, não soube construir um discurso capaz de atingir alguns setores da classe média. Não soube explicar de maneira simples o que é “mercado interno”. Os benefícios para economia com a política de valorização do salário mínimo, redução do desemprego e principalmente de combate à miséria.


A classe média se alia à elite com medo de ser confundida com os pobres. Apoia a direita do mesmo modo que no passado os brancos pobres apoiavam a escravidão!


Derrubar o domínio desta elite escravocrata exigiria grande mobilização social. Os setores progressistas deveriam estar articulados e capazes de identificar um inimigo prioritário. Porém, mais uma vez não é isso que se vê. A esquerda brasileira carrega vícios históricos, somados aos novos vícios de uma geração significada a partir da lógica deste “mundo neoliberal”. Os estruturalistas são dinossauros que se encontram vez ou outra por aí. Os movimentos sociais tem múltiplos inimigos, múltiplas disputas, múltiplos interesses, múltiplas pautas de promoção de justiça e igualdade. Produzimos uma geração acostumada a desconfiar do outro e incapaz de reconhecer lideranças. Temos realizado grandes passeatas de caranguejo. A imaturidade política parece ser esteticamente desejável, mas produz resultados inesperados, aleatórios e perigosos.


A esquerda brasileira continua sendo elitista como sempre foi. As discussões que ocorrem nos salões reais da esquerda quase nunca tem equivalência com a vida social da nossa gente. Todos falam em nome das minorias, porém o que se vê menos é o povão mobilizado. Nas redes sociais o bicho pega! Mas basta chegar ao debate alguém desabituado das dinâmicas de discussões de plenária dos movimentos sociais para receber uma carteirada violenta de alguém que se reivindica como emissário consagrado da justiça e paz mundial. Pouca gente joga pra somar. Cada um luta pelo seu quinhão ou pelo próprio empoderamento no “segmento do segmento relativizado da sociedade”.


Claro que o Estado tem feito pouco ou quase nada para fortalecer as mobilizações sociais. É evidente que, sem diretriz, muitos segmentos ficam entregues e desorientados. A inserção social e cidadania “via consumo” dá mostras claras de esgotamento e provoca uma epidemia de infelicidade.


Mesmo com todos os vícios da nossa esquerda, foi ela a grande responsável pela mobilização de diversos setores da sociedade que resultou na vitória de Dilma por uma margem tão apertada.


Dilma corre sério risco pelo “carão” que provocou na esquerda brasileira. Isso pode ser decisivo no futuro, caso precise de “gente que a defenda” e só encontre oportunistas e aproveitadores à sua volta.


Já vimos como as conjunturas interna e externa dificultam e limitam as escolhas de Dilma.


Muitas pessoas imaginam que um bom governo depende apenas da capacidade executiva de um governante, mas não é assim que funciona. Existem pressões das mais diversas. Conspiradores que podem trabalhar na sala ao lado. Golpistas tramando na calada da noite. Governar é como um cabo de guerra. É preciso muita força. As vezes se está com a vantagem e encorajado com o sucesso. Outras o revés parece inevitável e se está prestes a ser batido.


O Plano Dilma não se dá em uma conjuntura qualquer. Marcar posição política é tarefa importante, porém insuficiente neste momento. Analisar as medidas do novo governo descolado do momento político atual torna-se insustentável.


O ministério de Dilma Roussef não é menos conservador do que o Congresso Nacional eleito pela população brasileira. A presidenta começou seu segundo mandato sob evidente e explicita ameaça de golpe. Dê-se o nome que se quiser dar aos contorcionismos jurídicos que se avizinham ou as justificativas políticas dos “defensores da moralidade pública”. Se Dilma vacilar ela cai!


Dilma poderia sim ter feito a escolha de se apoiar na sociedade organizada para enfrentar os inimigos conspiradores. Mas sua escolha em estancar os ataques especulativos e políticos contra seu governo não pode ser desprezada. É uma estratégia! Isso se revelará suficiente ou não no futuro, mas parece claro que Dilma fez uma escolha pragmática e fria neste momento, mas é bom que se diga: de maneira republicana e dentro das regras democráticas.


Não apenas no Governo Dilma, mas em diferentes momentos da vida nacional, os governos que não se subordinaram por completo sofreram ataques furiosos do que já foi chamado por Jânio Quadros de “forças ocultas”. É importante que se diga, governos de esquerda e de direita que causaram algum nível de descontentamento na burguesia foram atacados pela mídia partidarizada. Quase nenhum deles sobreviveu. Interesses externos de forças interessadas em se apropriar das nossas riquezas organizaram golpes e promoveram torturas e violência para garantir o controle do Estado.


Para quem já realizou guerras e massacres por conta do petróleo, o que significaria uma conspiraçãozinha como essa?


Se olharmos para a história, veremos que a principal arma (que antecede todas as outras) é o ataque especulativo sobre a economia.


Como já foi dito, o futuro pode mostrar que a estratégia de Dilma é equivocada, mas pode-se dizer que Dilma tem feito o possível para jogar com o Mercado usando as armas que ele (Mercado) conhece muito bem: a ganância.


O Mercado não tem uma inteligência política única. Ele se articula em torno de interesses instantâneos cotidianos.


A tentativa parece ser estancar o ataque especulativo contra a economia brasileira. Não podemos subestimar os efeitos que poderia produzir sobre a política e a vida social uma desvalorização drástica da moeda nacional, um surto incontrolável de inflação e principalmente um onda desenfreada de desemprego. Não haveria movimento social que daria jeito em uma situação como essa.


Do ponto de vista político é muito mais fácil administrar um crescimento baixo do PIB, mas mantendo a normalidade cotidiana da vida econômica dos brasileiros.


Mais do que isso, no xadrez político, Dilma tira um instrumento poderoso da oposição que fica praticamente sem discurso e sem pauta (pelo menos a pauta que conhece bem), permanecendo restrita às denúncias e escândalos de corrupção.


Não há nada do que devemos nos orgulhar. Nada a ser comemorado. É decepcionante perceber que pouco avançamos em termos de emancipação do Brasil. Mas isso é o que temos para hoje.


Não há conformismo algum. Poderíamos sim ter feito muito mais. Este país poderia ser há tempos uma grande nação.


No entanto, continuamos dentro da nossa tradição de modernização conservadora, ou seja, tentando transformar o Brasil, mas sem ferir os velhos privilégios estabelecidos. Foi assim desde sempre. Com Getúlio, Juscelino… Mas não somos um lugar desprezível no planeta. Também conquistamos importantes vitórias. A história é escrita em letras tortas e aos trancos e barrancos temos avançado. Não da maneira que gostaríamos, mas avançamos.


O sucesso de Lula como presidente se deve em parte ao seu talento como conciliador. Embora Lula não seja um intelectual, ele entende quase que intuitivamente muitas coisas que mestres e doutores demoram anos a entender. Seu governo foi bem sucedido, entre outras coisas, porque soube negociar e (pasmem) manter a ordem econômica e institucional.


Alguns podem desprezar e achar uma grande porcaria (e é mesmo) esta ordem econômica e institucional. Porém lembremos, sempre que estas estruturas se rompem quem paga o maior preço é a população pobre que tem pouco ou nenhum instrumento para se defender.


Dilma tenta costurar uma trégua e inibir os ataques contra a economia brasileira para dar continuidade nas reformas de inclusão social. Não há dúvidas que se caso ela tivesse perdido a eleição, todas as ocasiões políticas já estavam postas à mesa para cortar mais benefícios e privatizar o petróleo. Já estava tudo desenhado.


Ainda esperamos um líder para a nossa revolução nacional? Um São Sebastião? Um enviado? Não será dessa vez. Melhor do que esperarmos alguém que caia do céu para nos defender é trabalhar duro para disputar espaço na sociedade e criar as condições para as grandes transformações que o Brasil precisa. No momento é isso que temos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Sociedade desigual, mas culpados em igualdade?



Costumo rejeitar as conclusões de que o homem seria o pior animal que existe e que deveríamos ser extinguidos para que a natureza pudesse retomar sua harmonia. 
Também não sou entusiasta do discurso determinista que a humanidade deveria evoluir como um todo para que pudéssemos aprender a conviver uns com os outros, encontrando a "verdadeira paz" que estaria dentro de nós.
O homem é parte integrante do meio ambiente. Não faz sentido e não pode dar certo nenhuma ação de preservação ambiental que não compreenda a interação do homem e suas necessidades básicas de alimentação, saúde e moradia. Estas necessidades estão relacionadas diretamente com o acesso à terra, habitação e subsistência. Qualquer ação que supostamente se proponha a cuidar da natureza, mas não enfrente diretamente estas questões, é ineficiente, quando não hipócrita e mentirosa.
O ser humano tem sim a vocação para a paz. Seu potencial transformador é o que permite sua evolução constante e dissemina o bem-estar e a preservação da vida.
Ocorre que geralmente somos "ensinados" que o "homem" estaria acabando com a natureza, que "estamos" consumindo de maneira predatória os recursos naturais.
Muitos queridos de boa fé adotaram um modo de vida "sustentável", produzem menos resíduos, fazem uso racional dos recursos. Outros fazem votos espirituais, místicos e religiosos para melhorarem sua relação com o mundo em que vivemos.
Da mesma forma que a concentração das riquezas se dá de maneira escandalosamente desigual e o uso e distribuição dos recursos também ocorre de forma violentamente concentrada, as responsabilidades também não são equivalentes.
Segundo estudos da Oxfan International, as 85 pessoas mais ricas do mundo concentram a mesma riqueza que os 3,5 bilhões mais pobres. Estima-se que 1% da população mundial concentre metade de toda a riqueza do planeta.
As relações econômicas, sociais, políticas de trabalho e renda não são dados da natureza. Não são "como são" porque "assim são". A energia produtiva do homem não serve ao homem, mas ao interesse dos magnatas e poderosos. Os Estados não servem para regular a vida social dos indivíduos e organizar as atividades econômicas, procurando preservar o bem comum. O Estado usa sua força para preservar o interesse do Mercado (com eme maiúsculo) e as grandes corporações que para garantirem os lucros desta parte minusculamente mais rica, estão torrando e tornando insuportável a vida no planeta.
E o que isso tem a ver com a água que está acabando na maior cidade do hemisfério sul?
Para além das alterações climáticas e as evidências de que a natureza está dando sinais claros de saturação, a falta de água revela que vivemos muito mais do que uma crise hídrica, mas uma crise social e política.
O neoliberalismo estrangula a capacidade de investimento do Estado em infraestrutura. Enquanto despejamos bilhões para lubrificar o mercado financeiro especulativo e enviamos manifestantes protestando pelo superávit primário na porta do congresso, sacrificamos boa parte da vida nacional. Nas últimas décadas, o Brasil deixou de investir onde deveria.
Surpreende o fato de o maior estado da nação, com estabilidade política para realizar obras de médio e longo prazo, já que o mesmo grupo reina em São Paulo por três décadas, não ter sido capaz de se planejar para uma crise desta natureza.
A crise não é meramente do abastecimento de água, mas uma crise do saneamento básico. Como é possível uma metrópole como São Paulo ficar sem água? Com os rios importantes que cortam nossa cidade? Com riachos e córregos espalhados por todos os bairros e vilas? Os rios, riachos e córregos de São Paulo que deveriam ser uma benção para nossa população se converteram em fluxos de merda e todo tipo de detrito. O que deveria ser o grande trunfo de São Paulo, tornou-se ao longo dos anos um incômodo indesejável. Políticos ganharam eleições  canalizando, tapando e escondendo água podre a tudo custo.
A crise é antes de tudo social e política porque se sabe muito bem o que deveria ser feito.
A questão é que existe uma disputa feroz pelos recursos públicos e o que menos importa nessa guerra são as pessoas. Ora, que tipo de gasto poderia ser mais importante do que a água?
Agora, e somente agora, descobriu-se que precisamos tomar água da represa Billings. Às pressas se decide purificar a água para consumo. Há quantos anos existem campanhas desesperadas para o salvamento da represa?
Alguns voltam a culpar o ser humano pelas moradias irregulares em área de manancial, matas ciliares, etc.
Ora, a população pobre não  vive na beira do córrego ou da represa por estilo de vida! 
As moradias distantes e precárias revelam a crueldade da nossa construção social.
Neste país com tanta terra não garantimos nenhum quinhão a população pobre que foi enviada às favas. Às favelas.
A moradia ainda não é vista como um direito humano, mas um benefício e uma facilidade a quem não mereceria mais terra do que sete palmos acima da cabeça.
Que tipo de ser humano se espera que surja em meio aos escombros e ao esgoto? Com que tipo de apreço à justiça e à liberdade? Como se espera que um indivíduo que não tem garantida a própria subsistência viva em harmonia com o ambiente que o cerca?
Agora, pagamos todos o custos pela sociedade perversa construída pelas elites.
Poucos foram os predadores. Alguns receberam alguns parcos privilégios e acreditam pertencerem ao time dos vencedores. Consideram-se ricos, mas não foram nada além do que combustível do sistema que irá vitimar a todos, sem exceção.
A grande maioria é composta por inocentes úteis. Que aceitam a opressão e se conformam com algumas quinquilharias eletrônicas vendidas na tevê.
Se nos fosse oferecida a opção entre ficar sem água ou sem internet no celular, seria possível que a primeira opção saísse vitoriosa. 
Em outras palavras, vamos pagar caro pelo mundo que escolhemos viver. Ou pela opressão que não pudemos vencer.
O fato é que ou a humanidade derrota o capitalismo ou o capitalismo acabará com a vida humana. Mais rápido do que se imagina.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Temendo o diabo errado. Um enredo sobre a miopia política.




Se estamos ou não estamos em processo de apocalipse eu não sei.
Mas efetivamente a sensação é essa.
Estamos fazendo aquele barulho irritante de quem suga pelo canudo o final da água no fundo do copo.
A água vai acabar. Este é um dado inexorável. A água vai acabar muito antes do imaginado. O castigo veio a galope.
Estaríamos nós todos sendo punidos pelos céus?
Acredito que sim!
Mas nosso pecado não é exatamente provocar a ira de deus. Muito mais grave foi que durante anos tememos o diabo errado.
Somos uma legião de pregadores missionários, detentores da verdade absoluta, definhando no sol escaldante e carregando um deus debaixo do sovaco. Julgamos saber muito sobre esse deus, mas ignoramos por completo a obra e a cara do tinhoso.
Fugimos de um inferno mitológico que se situa além da imaginação, e não nos demos conta que já estamos cercados num inferno que a gente mesmo construiu.
Junto com a água vai acabar a energia.
Pela falta d'Água se culpa a Deus.
Pela falta de luz se culpa o governo.
Mas não importa! Estamos todos temendo o diabo errado.
O fim do mundo está sendo televisionado.
É impossível assistir um telejornal. Não há trégua. As notícias são sempre devastadoras, raivosas, com baba escorrendo pelo canto da boca do comentarista.
A televisão formou uma geração de despolitizados histéricos. Gente que desconhece a história, mas repete o comportamento violento, intolerante, intransigente e messiânico de outros tempos. Todos com um deus debaixo do sovaco, mas temendo o diabo errado.
A esquerda parece contaminada pelo pânico geral do apocalipse. Todos se acusam e se culpam pelo fim do mundo. Enquanto uma parte repousa e espera o fim dos tempos no ar condicionado, muito satisfeita consigo mesma, uma outra parte que prega nas ruas diz não falar em nome de deus. Dizem inclusive que não acreditam em deus. Mas ainda assim temem duas dezenas de diabos. Cada um no seu segmento se divide em sub seguimentos sub ideológicos. E o diabo sempre estaria ao lado de quem não reconhece a importância do seu segmento.
As vezes o povo só irrita, porque ele não entende nada do que se fala nos grandes salões da guarda real filosófica da esquerda muito esquerda pra caralho. Além do mais, o povo certas vezes tem a incômoda mania de contrariar em seu cotidiano a teoria que deu tanto trabalho para ser digitada e postada nas redes sociais.
Cacete! O fim do mundo parece realmente estar próximo! Diziam que o mundo iria acabar em algum momento na virada do milênio. Talvez ele já tenha acabado e estejamos todos nesse inferno quente, sem água e cheio de notícias tristes.
Pode ser também que esse inferno tenha prazo de validade. Que estejamos todos sendo novamente enganados. Tão logo o coisa ruim consiga o que ele quer teremos a súbita percepção de que estaremos no paraíso. Inundados por uma enxurrada de notícias boas e aí então obrigados a acreditar que tudo vai bem.
Mas enquanto isso, seguimos cada um com seu deus guardado debaixo do sovaco e temendo o diabo errado.
Enquanto a gente culpa o diabo do partido político do vizinho pelo apocalipse, o satanás permanece oculto. Um ser que não tem rosto nem forma. É como um espírito maligno que ronda nossas vidas.
A sociedade se digladia. E o Mercado (este sim com eme maiú$culo) sorri serenamente e despreocupado. Ele já sequestrou o Estado, a imprensa, a cultura, a história. Roubou o indivíduo de seu próprio tempo e de seu próprio destino.
Acontece que é muito complexo falar do Mercado.
Melhor mesmo nos ocuparmos dos nossos capetinhas. Os azuis culpam os vermelhos. Os vermelhos acusam os azuis. As outras cores se misturam como podem. 
Os políticos são bem pagos para serem os bois de piranha do nosso tempo. Seja no Brasil, seja no resto do mundo.
E quanto a nós? Estamos sendo punidos por nossa ignorância. Por carregar cada um o seu deus debaixo do sovaco e temer o diabo errado.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os que são e os que não são Charlie


Agora, estamos divididos entre aqueles que são Charlie outros que não são Charlie.
Não creio que seja ruim as pessoas estarem conectadas às notícias de seu tempo e fazendo o possível para se engajarem no processo histórico. Ao contrário, isso é muito bom.
Mas tenho percebido que vivemos uma espécie de dança das cadeiras ideológicas.
Quem nunca brincou esse jogo em alguma gincana? 
A música fica tocando bem alto, alguns competidores vão dançando em volta das cadeiras. Invariavelmente existe uma cadeira a menos do que o número de participantes. Subitamente alguém abaixa a música. Quem ficar sem lugar para sentar é eliminado da competição até que haja apenas uma cadeira e um único vencedor.
Isso parece ocorrer com os grandes temas globais. As pessoas ficam atentas para rapidamente escolherem a cadeira certa, antes que a música pare e a notícia se esgote, sem tempo hábil para um posicionamento.
Em outros tempos, quando os partidos políticos e as organizações não tinham se deteriorado desta forma e perdido a capacidade de disseminar uma espécie de unidade ideológica, as coisas não pareciam ser tão complicadas.
Mas hoje, na era das redes sociais e a importância estética que elas exigem, as adesões e os posicionamentos pairam no ar. Não dependem e não ambicionam uma consequência política. De alguma maneira, todos são ativistas digitais em algum nível, mas não se encontra um inimigo comum. Definir o "inimigo" é tarefa fundamental para o sucesso de uma jornada ambiciosa e consequente. Porém, os inimigos são fluidos. A luta "contra os políticos corruptos" impõe um discurso diferente da "luta contra a miséria", da "luta contra a liberdade de expressão", da luta "em defesa da democracia", da luta "pela igualdade racial" e todas as anteriores jamais seriam suficientes para dar conta da "luta contra o machismo".
Não que essas causas sejam menos importantes. Ao contrário. São urgentes! São lutas que todos devemos lutar.
Mas os estruturalistas parecem ser dinossauros, antiquados e fora de moda nesta sociedade em que todos parecem ter a sua causa particular e colateral.
Onde a arrogância é fomentada pela ilusão de quem foi ensinado a "saber de tudo".
Onde existem tantos inimigos quanto supostos heróis.
Vivemos um tempo em que parece existir uma epidemia da fantasia infantil de onipotência.
Em que todos disputam nas redes sociais a aprovação que antes se esperava da mamãe e do papai. 
Uma ilusão imatura do "bom mocismo".
A reivindicação do direito de ser "politicamente incorreto" surge em alguma medida da necessidade, ainda que subconsciente, de restauração das velhas hierarquias e estruturas de poder. Um tempo em que todos sabiam o seu lugar na sociedade e não reclamavam por serem subjugados.
Mas do mesmo modo, no outro lado da moeda, existe uma perseguição tola a uma espécie de heroísmo de salão de festas de condomínio. Onde se persegue muito mais a estética do que a coerência.
As pessoas exclamam que #FulanoTeRepresenta até a página 12. Se por algum motivo sua posição não é suficientemente boa nesta "pauta" tão líquida dos nossos dias, imediatamente sentem-se no direito de ofender até a sua oitava geração. Ofensas que até um tempo atrás seriam suficientes para o cabra pegar a peixeira é defender a sua honra. Mas não. Tudo é muito infantil, distante e instantâneo. Nem vale a pena guardar ressentimento.
Certamente, o mundo já foi um lugar mais simples para se viver. Talvez também mais desgraçado e violento, mas sem dúvidas já foi menos complicado.
Sem tantos mocinhos, sem tantos heróis. Mas talvez mais humano e menos cínico.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A liberdade não pode ser uma via de mão única.


O ataque contra o jornal Charlie Hebdo com o assassinato de seus principais colaboradores oprime a todos aqueles que valorizam a liberdade intelectual, o conhecimento e o humanismo como ferramentas para vencer o obscurantismo, o preconceito e a violência dos conservadores radicais que desde sempre violentam a humanidade, tentando impedir os avanços que podem transformar o planeta num lugar melhor para se viver.

A liberdade é ameaçadora, pois coloca em cheque os poderes estabelecidos em interesses invariavelmente perniciosos. Durante séculos as religiões têm sido utilizadas para os piores propósitos de dominação e escravidão. A liberdade e a igualdade são subversivas, pois ofendem as hierarquias estabelecidas, os sistemas de servidão e iluminam a escuridão tão conveniente aos poderosos que se servem de deuses para manter mecanismos de poder.

Porém, a defesa da liberdade e o conhecimento contra o obscurantismo, está longe de ser uma prerrogativa do ocidente sobre o oriente.

A liberdade não é uma via de mão única.

A interferência dos países do Atlântico Norte, sob liderança dos Estados Unidos, no Oriente Médio é desastrosa! 

Os tsunamis ocorrem não por mera revolta das ondas do mar, mas pelos abalos sísmicos que ocorrem no fundo do oceano.

O terrorismo não é uma força da natureza, mas uma ferramenta política cada vez mais conveniente para algumas forças, diante de um cenário de dominação hegemônica. A violência torna-se um método para responder de maneira colateral às ofensas impossíveis de serem enfrentadas de maneira frontal. É também uma forma de manifestação que procura romper o silêncio imposto pela versão oficial dos vencedores.

Da mesma forma, os Estados religiosos surgem como alternativas possíveis de mobilização das energias nacionais para enfrentar a fragmentação e a deterioração desencadeadas pelos inimigos externos.

De nada adianta os chefes de Estado dos "países livres" do ocidente expressarem suas condolências e seus pesares, manifestando a preocupação com o atentado às liberdades tão caras à democracia burguesa se por outro lado continuam fomentando o ódio, o genocídio e o desrespeito em outros continentes.

A paz de alguns não pode ser conquistada e mantida às custas da desgraça de outros povos. As "bombas da paz" despejadas contra o povo árabe não vai produzir nada diferente do que gente acostumada a conviver com a violência e a barbárie. O apreço pela liberdade não será disseminado com mais imperialismo. A paz não será alcançada com o comércio e contrabando de armas tão convenientes aos senhores da guerra vestidos elegantemente com seus ternos caros em cargos de decisão nos países ricos. Ninguém aprenderá a amar a liberdade sendo escravo de outros povos.

Lamentável que esta tragédia tenha ocorrido num jornal controverso e irreverente. 

Este episódio nos dá conta de que a paz, a liberdade e a democracia que se imagina ter sido conquistada no "mundo livre", na verdade é privilégio de muitos poucos que tem a sorte de viver em algumas ilhas de prosperidade espalhadas em alguns cantos do planeta. Para a imensa maioria da humanidade permanecemos em guerra, sofrendo violência, miséria e injustiças cotidianas. Violência essa, que vez por outra respinga nos bolsões de tranquilidade riqueza.



O Carão na Esquerda e o Segundo Governo de Dilma

Artigo publicado na versão digital do Jornal Estadão.




No decorrer do processo eleitoral, o apoio dos movimentos sociais e das correntes políticas de esquerda foram fundamentais para a vitória da Presidenta Dilma.
O discurso truculento e inflamado de parte dos setores conservadores da sociedade brasileira mobilizou as forças progressistas. Um fração considerável dos apoios recebidos por Dilma, partiu justamente de quadros que haviam nutrido críticas importantes ao primeiro mandato da presidenta, no entanto, diante da disputa acirrada, mostraram seus rostos e manifestaram seu apoio à candidata do PT.
O fato é que foram pouquíssimas forças políticas da esquerda que não apoiaram, em algum nível de intensidade, a eleição de Dilma no segundo-turno. O resultado apertado do pleito deixa evidente a importância destas correntes e movimentos na reeleição da presidenta.
O Ministério do segundo governo de Dilma decepcionou muita gente que imaginava a sedimentação de uma nova aliança, depois do antagonismo acirrado que ficou evidente nas disputas durante o período eleitoral.
Parece nítido porém, que Dilma fez a opção por costurar uma trégua com algumas das forças que se opõem ao seu governo. A equipe econômica, por exemplo, é uma evidente sinalização do esforço da presidenta em reestabelecer a boa convivência com o mercado financeiro que dava sinais claros de mal estar e desconfiança.
Dilma esforçou-se também para reconstruir sua base de apoio parlamentar, trazendo para dentro do governo as principais forças políticas do congresso. Pode-se dizer que o Ministério de Dilma não é menos conservador do que o Congresso Nacional eleito pela população brasileira.
Desde junho de 2013, Dilma não teve um minuto de descanso. As forças que se opõem ao seu governo vislumbraram desde então uma possibilidade de minar, desestabilizar e fissurar o seu mandato até a exaustão.
A solidez do Governo Dilma frente às tempestades políticas do último período se deve a três fatores principais, além da óbvia negociação de apoio com os partidos aliados. Primeiramente, o nível de emprego permanece preservado. O país continua com o desemprego mais baixo em nossa história recente. Outro fator é o controle da inflação. Ainda que haja um aumento significativo no custo de vida, sobretudo nas grandes cidades, não existe descontrole de preços ao consumidor. O terceiro fator que garante a estabilidade política é a aliança entre o governo e a sociedade civil. Ainda que existam movimentos sociais importantes de oposição, a maior parte dos trabalhadores não se voltou contra o Governo Dilma. Acrescenta-se a isso o fato de a presidenta ter sido recentemente reeleita. Pesa decisivamente, a articulação com a sociedade dos movimentos ligados aos partidos que apoiam o governo e a gigantesca importância do Presidente Lula, sem dúvidas o grande fiador político de Dilma.
A presidenta optou por preservar os dois primeiros fatores, ou seja, a estabilidade econômica como forma de controlar a temperatura do caldeirão político.
Vimos que o governo tenta negociar uma trégua com o mercado, reestabelecer sua base de apoio no congresso, preservar a estabilidade econômica e garantir alguma tranquilidade política para superar este momento de adversidade.
Mas o “carão” da esquerda neste começo de segundo mandato pode custar caro ao governo caso os resultados não saiam conforme o planejado. Até o dia anterior à eleição o Governo Dilma estava sob ataque. Desprezar a aliança com as ruas pode ser decisivo caso um novo junho vier.
Garantir o apoio da “base aliada” é fundamental, porém, para o segundo governo será necessário mais do que isso. É preciso sedimentar as conexões com a sociedade civil. Disputar espaços em setores da classe média que foram desprezados. Trazer resultados efetivos e serviços públicos de qualidade para a população que vive nas grandes cidades. Estabelecer uma nova dinâmica de comunicação com a sociedade e superar a fórmula desgastada do “eleitor consumidor”.
Esta última eleição mostrou que o eleitorado tem motivações que vão muito além do bem-estar material. O PT perdeu espaço justamente no que se passou a conhecer como “nova classe média”. No frigir dos ovos o que decidiu a eleição fundamentalmente foi a política e não exatamente os resultados do primeiro Governo Dilma.
Não adianta a presidenta fazer política apenas no Plano Piloto da Capital Federal. É recomendável estabelecer novas pontes com a sociedade e evitar constranger exageradamente sua “base de apoio” no eleitorado brasileiro.