quinta-feira, 14 de junho de 2018

É pra torcer pelo Brasil!



Se a gente dependesse de bom governo ou de bom momento na política para torcer pelo Brasil,  talvez não seria possível ter comemorado nenhuma Copa do Mundo.

Se fosse para depender de governo bom para sambar ou pular o carnaval, estaríamos com os pés atrofiados.

Se tristeza e ressentimentos levassem à revolução, já teríamos resolvido todos os nossos problemas de uns anos pra cá.

A verdade é que a alegria do povo brasileiro sempre foi muito mais sinal de resistência do que de submissão.

A nossa irreverência sempre foi um ato, ainda que inconsciente, de rebeldia e destituição de reconhecimento do poder estabelecido. Uma arma sutil - e portanto possível de ser usada - para enfrentamento e desconstrução da opressão.

O futebol foi, ao longo dos anos, um instrumento de projeção da criatividade, da imaginação e da inteligência do povo brasileiro, para além do gosto pela cópia e da subordinação cultural das nossas elites.

Foi o nosso povo que inventou um novo jeito de se jogar esse jogo que é uma metáfora da vida. Foi o povo pobre que ganhou cinco Copas do Mundo. A Copa é mais do que um evento esportivo, mas um acontecimento da humanidade, que traz para um espaço lúdico a disputa inexorável do sistema interestatal, que ganha no jogo, um novo sentido e transforma, de alguma forma, a rivalidade em confraternização.

Foi o futebol que derrubou as teorias biológicas e racistas sobre o subdesenvolvimento do Brasil, revelando atletas negros vencedores, capazes e inteligentes, entre eles o maior da história, admirado pelo mundo todo.

Claro que o futebol não acabou com o racismo. Claro que o futebol também acaba abrigando o racismo e todo tipo de estupidez que está na sociedade. Mas certamente foi um instrumento poderoso, pois no jogo jogado, com regras comuns e iguais, além de condições naturais equivalentes de disputa, toda a potencialidade física, mental, cultural e espiritual do povo negro pode ser apresentada em sua magnitude, como felizmente já se apresenta em diferentes áreas, superando na raça o racismo institucional.

O futebol também sempre foi um elemento poderoso que ajudou muito o Brasil no âmbito das relações internacionais. E continua ajudando.

Quando a gente viaja pelo mundo percebe o fascínio que despertamos em outros povos. Mesmo com tanta gente insistindo em fazer com que nos vejamos de maneira degenerativa,  somos sim um lugar especial no mundo. Despertamos sorrisos e simpatia. Quando as pessoas ouvem que somos do Brasil, parece ser diferente de dizer que somos de qualquer outro lugar no planeta. A reação imediata é um sorriso, um espanto, um sinal de admiração. Uma musiquinha e uma dancinha pra te cumprimentar. É maravilhoso isso.

Com todas as dificuldades que vivemos, ainda somos um povo que tem uma missão espiritual a ser cumprida com nossos irmãos pelo mundo .

Difícil acreditar nisso diante da forma tão ruim em que estamos vibrando. Com tanta energia negativa rolando.

Pois então que o futebol cumpra mais esse papel pelo Brasil.

Exorcisemos todos os nossos fantasmas a cada gol. Deixemos os deuses do futebol fazerem sua parte.
Deixemos de odiar uns aos outros.

Há quem se preocupe se uma vitória do Brasil venha a ajudar politicamente determinada força política .

Há quem não queira usar a camisa amarelinha, que desperta tanto fascínio, por conta das náuseas políticas dos últimos tempos.

Ora, não é por acaso que nos jogos de guerra, o símbolo da vitória de um adversário sobre o outro seja exatamente a bandeira. Quem leva a bandeira ganha o jogo.

Entregar de bandeja nossa bandeira e nossas cores porque estamos de mal do resto da sociedade é uma atitude no mínimo infantil e tola.

A bandeira é nossa. Não devemos abrir mão dela.

As cores lindas do Brasil são também as cores da nossa gente.

Os símbolos tem poder. Quem não entende isso tem que voltar cinco casas no tabuleiro.

Não faz sentido insistirmos em ser uma parte fragmentada quando somos nós o povo brasileiro.

Tem coisas que a puberdade política não permite entender. Ou pela imaturidade, precocidade e descontrole de reações orgânicas, ou porque as posições estéticas acabam sendo mais apreciadas do que os compromissos de transformação.

O nacionalismo pode até ser coisa da direita na Europa ou nos EUA. Mas no Brasil e na América Latina sempre foi pauta dos progressistas. Até porque a direita, por esses lados de cá, nunca foi nacionalista, foi na verdade sempre entreguista.

É só olhar para a história. Vocês não gostam do Eduardo Galeano em seu livro tão importante "As veias abertas da América Latina"? Quem são os personagens do livro senão líderes nacionais e progressistas?

Na linda copa de 1970 muita gente perdeu a festa porque era contra o governo.

Ficaram distantes do povo e no final não resolveu nada. É só olhar para a história.

O que derrotou a ditadura foi a transformação na correlação de forças na sociedade. Foi a luta institucionalizada em todos os espaços possíveis. A ditadura caiu com o povo na rua vestindo verde e amarelo, levantando a bandeira do Brasil.

Quem odeia o Brasil, de verdade, são aqueles que querem entregar nossas riquezas de bandeja e a alma do nosso povo, deixando ele triste e subordinado ao ponto de ser escravizado.

Estamos cansados de tanto ódio. O Brasil nunca foi assim. O povo brasileiro nunca foi amargo desse jeito que ficou. E, estejam certos, essa amargura não vai transformar porra nenhuma. Só vai levar a mais desgraça e escolhas estúpidas.

Temos que voltar a acreditar em nós mesmos. Se o futebol é só uma ilusão, então que seja!

Que tenhamos um pouco de alegria e alento. Que as vitórias do Brasil sejam elementos de congraçamento. Estamos fartos da depressão nacional.

Os momentos em que o Brasil foi mais forte, certamente foram aqueles em que estivemos em maior harmonia com nossos elementos de brasilidade. Os piores foram aqueles em que sentimos vergonha de nós mesmos. Talvez por isso que forças terríveis trabalhem duro  para nos desestabilizar e nos deixar de joelhos.

Será lindo ver o Brasil ser campeão. Se reencontrar. Se amar. Ganhar da Alemanha dando um vareio de bola. Dando olé no final do jogo. Será um sonho lindo.

Vamos torcer com gosto. Torcer pela amarelinha e diversificá-la com todas as cores e amores do nosso Brasil. E vamos cair no samba!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A Cidade que ferve. A cidade que desaba

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Fui algumas vezes ao prédio que desabou na madrugada de hoje no centro de São Paulo. Isso foi na época do meu primeiro emprego como office-boy, quando ali funcionava a sede da Polícia Federal.
Depois, a PF se mudou para a Lapa, em instalações mais modernas e o prédio ficou ali, fantasmagórico e horroroso, como tantos outros na região central da cidade.
Os movimentos por moradia ainda fizeram um uso social daquele edifício que certamente ficaria desabitado por décadas, talvez para sempre. 
É muito duro não ter um lugar no mundo para viver dignamente com sua família, vendo tantos arranha céus carrancudos, tristes, inadequados, simplesmente deixados pra trás. A cara de São Paulo.
Não deixa de ser simbólico. A casa que foi usada e consumida pela Polícia Federal, até que ela vestisse uma nova roupa, justamente para representar o "novo", se degenerando a céu aberto e a olhos vistos, até desabar os seus dejetos na calada da noite no centro da cidade.
A queda desse edifício é a cara da degeneração da cidade de São Paulo e símbolo da canibalização da especulação imobiliária.
O centro da cidade foi deixado pra trás, mesmo com sua bela infraestrutura urbana, e a especulação foi atrás de novos espaços de higienização, onde tudo parece novo, moderno, branco, bem vestido, espelhado. Na verdade, esse "novo" é o que há de mais velho no nosso capitalismo predatório que precariza a exploração, esgota recursos, infertiliza os solos, mata a terra. Depois, parte para outra, deixando o que está "velho" para trás e sai em busca de um outro "novo", sempre construindo camarotes vipes na cidade, espaços de exclusividade, onde São Paulo aparenta ser só de pessoas incluídas, com empresas que tem suas atividades econômicas voltadas para o "futuro" que vai sempre ao encontro do passado.
E deixamos para trás nossos prédios e nossos zumbis, caminhando errantes pelas ruas, sem saber direito para onde ir. Tentando arrumar um bico, um troco, uma boia, uma pedra. Até serem completamente tragados e triturados pelo sistema. Até ficarem andando no meio do asfalto por entre os carros, talvez para serem notados, talvez para que tenham a certeza de que ainda estão vivos, talvez para roubar à força algum nível de atenção. 
E assim é. Ficam de pé, tentando existir até o momento que pegam fogo e desmoronam de uma vez por todas. Para sempre.
O Centro se tornou o lugar de quem ficou para trás. Pessoas, prédios, empresas que vendem sei lá o quê.
Quem tem salvo o centro são as pessoas que insistem em existir por entre os escombros. São os skatistas que fazem seus malabarismos e tiram suas fotos em cenários apocalípticos. São os "alternativos", nome que o cidadão médio paulistano deu para quem justamente se recusa a incorporar os códigos do cidadão médio. São aqueles que conseguem enxergar a beleza nesse monumental que ficou para trás. Que aprendeu a ser feliz por entre o concreto. No que ficou para trás. No que já foi um dia. É como viver num cenário de filme de ficção que se passa pós guerra nuclear. Quem salva o centro são os gays que deixam os subúrbios, com seus estigmas e preconceitos e constróem uma nova vida onde ninguém liga muito pra quem você é ou o que você faz. 
São também artistas. É gente que gosta de cultura. Quem gosta de andar a pé. São espíritos rebeldes que ocuparam o espaço público que foi deixado pra trás, mas que, tal qual fazem com "os sem-teto", a ocupação se torna um problema. É como se a cidade viesse a dizer: "não é nosso, e não será de mais ninguém".
O centro está lá, fantasmagórico. Terra de zumbis. Até que as pessoas abracem e tomem para si, ocupando com seus sambas,skates, encontros, máquinas fotográficas, suas músicas, flores, protestos, intervenções artísticas e, pronto! Vem logo a patrulha de choque para atacar bombas e gás de pimenta, para deixar tudo como sempre esteve. Sob controle. Sem ameaças. Apenas com as almas atormentadas e já inofensivas. 
O que será, que será? que andam combinando no breu das tocas?
O desabamento do edifício, infelizmente, não é nada de novo nessa cidade.
Mais uma saudosa maloca que ruiu. Mais um despejo na favela. Mais um barracão que se foi com a sua cama.
A única diferença é que de Adoniram para Mano Brown muita coisa mudou.
A doçura se foi.
Se o protesto presente nas canções do Adoniram escolhiam a irreverência e as verdades eram ditas de maneira poética, disfarçadas de conformismos e da esperança de que "Deus dê o frio, conforme o cobertor", na obra do Mano Brown, "Deus é uma nota de cem" e não há mais tempo nem espaço para as sentenças colaterais. Talvez estejamos caminhando para o confronto que o Brasil sempre tardou e empurrou com a barriga.
Não há mais doçura. Tudo está incendiando e prestes a desabar!
Vivemos sobre um paiol.

Seu Herói

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Quase cem anos pesam sobre seu corpo. Ainda consegue levantar e caminhar, mas as jornadas são lentas e custosas. Da cama para o banheiro, de lá para sua poltrona preferida na sala, de lá para o banho de sol. Este é o melhor momento do seu dia. Pelo menos o melhor que ele dispõe na atual circunstância. Detesta a ideia de usar uma cadeira de rodas para facilitar os passeios, ainda que esta seja mais funcional para os percursos mais longos. Então caminha lentamente com a ajuda de uma bengala de madeira de jacarandá bem reluzente, objeto do qual ele se orgulha. Acha que a bengala até que lhe cai bem. De uns anos pra cá, Seu Herói só anda com a companhia de seu cuidador.
Tudo parece muito difícil com quase um século de vida pesando sobre seu corpo e sua alma. Ainda mais quando a consciência persiste. Quando se entende quase tudo o que está acontecendo ao seu redor. Seu Herói sempre esforçou e exercitou sua mente para que ela não se degenerasse, coisa que ele não conseguiu evitar com o resto do corpo.
Acontece que não é fácil manter plena consciência e raciocínio quando todos seus outros órgãos te sabotam. Não é fácil também manter a consciência e a inteligência quando se perde pouco a pouco conexão com o mundo que te cerca. Difícil continuar acreditando nas próprias conclusões quando as pessoas se deparam com sua aparência física e por algum motivo, consciente ou inconscientemente te ignoram, ou partem apressadas e impacientes com seu ritmo próprio. Seu Herói, em sua solidão conclui, sem nenhum acréscimo de autopiedade, que as pessoas jovens não têm tempo para desperdiçar com conversas que correm lentas e quase sempre conectadas com o passado. Seu Herói aprecia a juventude. Sempre gostou de estar ao lado de gente jovem. Em sua carreira, sempre provocou esses encontros. Mas sabe que isso não é mais possível. Numa eventual conversa, certamente haveria de contar seus feitos do passado, pois hoje existe pouquíssimo para contar sobre o cotidiano de um velho de 98 anos.
Não há quase nada para contar sobre o seu presente. Vez por outra, quando está sentado à calçada, recebe alguns instantes de atenção de pessoas que se presumem generosas e decidem gastar um minuto (não mais que isso) de conversa. Interrompem seus passos rápidos e deselegantes e se dirigem ao Seu Herói como se fosse ele uma criança. Ele detesta isso. Conclui que a suposta generosidade em gastar um tostão de prosa não esconde uma porção de arrogância, ou mesmo de estupidez. Percebe que talvez essas pessoas queiram se sentir melhor com elas mesmas.
De alguma maneira, respeita mais as pessoas que o ignoram do que essas que o infantilizam. O pior momento do dia é quando a vizinha de baixo se dirige a ele enquanto toma seu banho de sol. Ela chega cheia de tatibitates:
- Oi, cheu Helói. Vai ficar aqui chentado na calchada? Por que não fica dentlo do plédio? Lá é mais xegulo. Aqui tem axalto!”.
Puta que pariu! Como ele fica puto com aquela mulher. Nunca dá tempo para responder o que ele gostaria. Quando ele toma ar para conseguir dizer que prefere morrer instantaneamente do que tomar sol dentro do condomínio, ela já foi. Ou mesmo, em seus dias de fúria, quando ele tenta mandar ela tomar no cu com aquela voz de neném, ela já alcançou o elevador.
Seu Herói conclui que ficar irritado é inútil. Ficar deprimido com sua situação é uma armadilha mais do que perigosa. Seria fatal. Um caminho sem volta à essa altura do campeonato. Com o tempo, ele aprendeu a escapar da melancolia e dos acessos de depressão. Precisou aprender. Olha pra trás e se lembra da tristeza que lhe doía à garganta e a ansiedade que lhe acelerava o coração com os amores perdidos. Foram muitos amores intensos em que sinceramente se apaixonou. Teve um mais do que especial. Um que ele achou que seria pra sempre. Que lhe fazia bem. Que lhe desapegou de sua rotina e tirou as suas coisas do lugar onde sempre estiveram. Um amor que lhe desarrumou as gavetas. Mas um dia ela foi embora como que em uma canção do Adoniran Barbosa. Vivia com saudade. Com uma angústia que lhe acompanhava ao pensar nos amores que ele deixou para trás, quase sempre para não abrir mão de seu espaço e sua rotina. Era pragmático, individualista e ao mesmo tempo romântico e capaz de se entregar loucamente aos seus amores. Quando essas paixões acabavam, sabia que era necessário conviver com um período de tristeza. Aguentar as pontas com a angústia, a melancolia e até mesmo com a depressão. Mas logo a vida lhe presenteava com uma nova história de amor. Uma nova musa. Ou mesmo com um novo trabalho também excitante. Até o momento em que não apareceram mais novos amores. Os trabalhos ainda duraram um pouco mais, no entanto os amores se esvaíram. Depois, Seu Herói assumiu para si mesmo que eles não mais chegariam. Teve de aprender a viver com a solidão, a qual ele dizia nunca temer. A velhice trata de dar um soco no estômago da nossa arrogância. Hoje, exercita sua mente como se fosse um ninja. Nada de se ressentir da própria vida. Sem essa de sentir pena de si mesmo.
Percebe que agora precisa mesmo é de humildade. Seu Herói chegou num momento da vida em que a humildade se tornou questão de sobrevivência. Sempre detestou depender dos outros, agora depende de ajuda até mesmo para tomar banho.
Ele sempre foi um homem interessante, as pessoas pagavam para ouvi-lo. Hoje, ninguém mais tem tempo para lhe escutar. Isso não é Adoniram. Tá mais pra Bob Dylan. Não consegue sequer proferir um desaforo à vizinha besta.
Veja só quão curiosa é a vida. No momento em que ele teria mais coisas a dizer, tem mesmo é que escutar. Escutar e escutar. Observar e guardar suas conclusões, talvez para outra vida. Considera isso uma grande ironia, porém ele entendeu que já falou demais. Demorou uma vida para aprender a ouvir. Descobriu também como isso pode ser valioso. Igualmente, também não tinha muito tempo para ouvir. As certezas escapavam-lhe à boca. Agora exercita a audição e comemora por ela ser uma das poucas coisas que ainda funciona bem em seu corpo. Se ele pudesse voltar no tempo, ouviria mais. São boas essas reflexões, mas não há para quem dizer isso agora, além do Marcondes que é seu cuidador.
Votando à lição de humildade. O Seu Herói era independente financeiramente. Nunca foi rico, longe disso. Mas era bem situado. Sempre tinha bons trabalhos. Pôde viver as coisas boas da vida. Agora tem a conta certa para não passar necessidades. Paga o condomínio, o mercado, os remédios, o IPTU, o Marcondes e pronto. Se algo sair do previsto ele não tem mais como pagar. Não era um homem de luxos, mas adorava bons restaurantes, bons vinhos e bons charutos. Felizmente, os charutos ele ganha de presente mensalmente de uma fábrica na Bahia. Ele ainda escreve artigos e envia para a fábrica que coloca em alguns sites e revistas especializadas. É uma boa permuta. Seu herói gostou muito dessa coisa de internet. Pena não conseguir ficar muito tempo no computador por causa da visão. Tem uma coleção de perfis falsos que na época dele se chamavam pseudônimos. Ele já usava esse recurso dos pseudônimos para escrever em jornais e revistas. Eram por vezes colunas mais arriscadas e confrontativas ao sistema, passíveis de retaliação, por isso usava nomes falsos. Ou mesmo quando escrevia seus contos eróticos em livros e também em revistas de mulher pelada. Nesses casos jamais usaria o seu nome verdadeiro.
Vez por outra ele ainda recebe algum troco dos sites em que escreve como colaborador. É bem pouco, mas ele fica muito feliz quando entra esse dinheirinho. Nesses dias, ele chama um taxi, convida o Marcondes e vai jantar num de seus restaurantes preferidos. Certamente, Seu Herói preferiria uma companhia feminina. Mas não há o que reclamar. O negócio é levar o Marcondes.
Seu Herói já foi um homem atraente. Não era belo, mas mesmo assim, havia mil garotas afim. Tinha jeito com as mulheres. Gostava muito de sexo. Agora olha para seu corpo e percebe que acabou. Do mesmo jeito que aprendeu a ouvir, aprendeu também a gozar com a cabeça. A ter sensações mentais orgásticas. Às vezes, quando está deitado, quando sua cabeça vai longe, sente como se estivesse com uma ereção imensa. Está verdadeiramente excitado. Quando se toca, percebe que não há ereção alguma. É tudo cabeça. Então deixa a cabeça viajar para os lugares em que esteve e aos lugares onde gostaria de estar. Ah, se a gente pudesse voltar no tempo. Na vida, na maioria das vezes em que aprendemos alguma coisa, já é tarde demais. Esse tesão mental deveria vir antes de tudo. Conclui que essa foi a porção que lhe faltou para entender pelo menos uma parcela da alma feminina. Que o orgasmo físico depende algumas vezes de um orgasmo mental. Que esse orgasmo mental não é a ausência do físico, nem uma renúncia da matéria. Que é muito diferente da imaginação que acompanha a masturbação masculina. Que esse tesão mental efetivamente existe de maneira muito forte e presente.
Tem uma moça no prédio do Seu Herói que chega quase sempre com um vestido branco ou com um vestido florido. Só usa vestido. Ela é tão linda. Ele a considera tão atraente que quando ela passa, toma cuidado para não encarar demais e parecer um velho babão. Não quer ser desrespeitoso. Então muitas vezes comprime as pálpebras, segura firme o charuto, dá uma boa baforada, finge não estar vendo nada, mas efetivamente esse é o melhor momento do dia.
Houve um dia de glória recente na vida de Seu Herói. Certo dia, havia uma porção de moradores do condomínio ao seu redor. Falavam de alguma questão banal como a dedetização do prédio. Ela apontou pela calçada. Vinha de não sei aonde. Tinha uma flor no cabelo e sua pele estava reluzente. Seu Herói corrigiu a postura. Na verdade, melhorou a postura o quanto foi possível. Ela cumprimentou um a um com um beijo no rosto. Quando chegou a sua vez ela olhou em seus olhos e pediu desculpas:
- Ai, eu voltei caminhando, estou toda suada.
Segurou o braço esquerdo do Seu Herói e lhe deu um beijo na bochecha. Trocou mais três ou quatro palavras com os vizinhos. Ele aproveitou para farejar o seu cheiro.
- Boa tarde, gente – Disse ela.
Seu herói procurou conter os olhares e a empolgação e devolveu o “boa tarde” serenamente.
Ela foi caminhando para o elevador e de lá para seu apartamento.
Foi o dia mais erótico da vida recente do Seu Herói. Aquele momento foi o suficiente para que ele passasse a tomar banhos mais longos e tirasse do armário suas melhores camisas e até mesmo seus ternos e sapatos.
Seu Herói, sempre preferiu ser elegante e educado. Sempre valorizou o respeito entre as pessoas. Mas também tinha dentro de si uma dose considerável de vulgaridade que ele guardava como um elixir da vida longa. Quando a gente perde o desejo está pronto para morrer. Então, Seu Herói passou os próximos meses pensando como seria aquela mulher nua à sua frente. Fechava os olhos e pensava na textura da sua pele. No perfume do suor que escapava pelos seus poros naquele dia em frente ao prédio. Fantasiava que um dia ela bateria a sua porta disposta a assassiná-lo para subtrair seus parcos bens, mas não sem antes lhe seduzir, ficando absolutamente nua e permitindo que ele a provasse inteira. Ele passaria a boca e o nariz por todo seu corpo e provaria gostosamente o seu sabor, de maneira demorada, porém voraz. Depois permitiria que ela o matasse da maneira que lhe fosse mais conveniente. Passaria a senha de suas contas, a escritura do apartamento e morreria serenamente, sem nenhum ressentimento por seu destino.
Começou até mesmo a se sentir mais bonito por aqueles dias. Mas depois foi passando. Ah, como uma paixão faz bem na vida da gente.
O negócio é chamar o Marcondes para lhe ajudar com o banho. Se escorregar e cair no banheiro, será equivalente a um desastre de carro em outros tempos. Marcondes lhe ajuda a se vestir. Pergunta o que seu Herói quer ouvir de música essa noite. Seu Herói pede para ouvir Nat King Cole.
Marcondes prepara a playlist. Regula o som ao gosto do Seu Herói. Marcondes vai se recolher aos seus aposentos. Já são oito da noite, hora do último charuto. Sabe que essa hora o seu chefe gosta de ficar sozinho. Quando se despede e dá boa noite, Seu Herói pede um último favor.
- Marcondes, posso lhe pedir uma gentileza? Poderia abrir um vinho pra mim? Eu não tenho forças. Hoje vou enfiar o pé na jaca.
Ele lhe abre o vinho, corta também alguns pedaços de queijo. Dá boa noite e vai para seu quarto.
- Marcondes! – disse o velho – Sirva-se com uma taça de vinho. Coma um queijo. Não passe vontade de nada nessa vida. Se tiver a chance, experimente!
- Obrigado, Seu Herói. Vou provar sim. Boa noite!
- Boa noite, Marcondes. Obrigado mais uma vez.
Seu Herói coloca o nariz na taça. Aspira o odor frutado que sobe desde o vinho e por alguns segundos desfruta aquele buquê. Suspira e depois dá um gole generoso. Abre o notebook e começa a olhar o Facebook. Quem sabe encontra a sua vizinha preferida e pode olhar as suas fotografias. Quem sabe ela também o encontra (ou algum de seus pseudônimos) e gosta de alguma de suas crônicas. A modernidade não é tão ruim assim.
Nat King Cole começa a cantar em espanhol com sotaque carregado:
Que se quede el infinito sin estrellas
O que pierda el ancho mar su inmensidad
Pero el negro de tus ojos que no muera
Y el canela de tu piel se quede igual.
Aunque pierda el arcoiris su belleza
y las flores su perfume y su color
No seria tan inmensa mis tristeza
como aquella de quedarme sin tu amor...
Me importas tu y tu y tu y solamente tu y tu y tu
Me importas tu y tu y solamente tu y tu y nadie mas que tu
Ojos negros piel canela que me llegan a desesperar
Ojos negros piel canela que me llegan a desesperar
Me importas tu y tu y tu y solamente tu y tu
y tu me importas tu y tu y solamente tu y tu
y nadie mas que tu
Ojos negros piel canela que em llegan a desesperar
Me importas tu y tu y solamente tu y tu ....



terça-feira, 17 de abril de 2018

As chances de Bolsonaro

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O Brasil até que está prontinho para eleger o Bolsonaro, o problema é o próprio Bolsonaro.

Nenhuma análise de cenários que considere a vitória do candidato à presidência, neste momento, seria absurda.

O problema para que isso ocorra (ou o grande alento) é a absoluta miséria humana e pessoal de Bolsonaro.

O candidato é um dos únicos que consegue angariar apoio espontâneo por parte do eleitorado. Em tempos de crise de representação dos partidos políticos e de absoluta descrença de boa parte da população na eficiência do Estado e da capacidade instituições que regulam as relações entre os indivíduos e a sociedade de darem conta da pulsão de frustrações pessoais que se somam, aglomeram-se e se fundem numa maçaroca de desgraça coletiva pós-moderna, quem ganha apoio é justamente a anti-política e a anti-negociação.

Bolsonaro leva chumbo da grande imprensa. Não por se configurar como o mais raivoso “anti-Lula”, obviamente. Mas porque dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no mesmo espaço de tempo. Será muito difícil empurrar goela abaixo das camadas populares do eleitorado um candidato do conservadorismo paulista enquanto o Bolso Mito estiver ocupando a moita.

Bolsonaro deve ser desconstruído nos próximos meses. Mas esse não será o único motivo de seu flagelo. Falta a Bolsonaro conhecimento (não por acaso) sobre tudo aquilo que ele despreza. Se conhecesse um pouquinho mais (não precisaria ser muito) sobre a formação social e política do Brasil, entenderia antes de tudo, por que ele recebe esse numeroso apoio, para depois entender também o que deveria fazer para não ser canibalizado pelo establishment econômico, político e midiático e virar bagaço até o final do período eleitoral.

Bolsonaro é o novo personagem da cultura de autoritarismo enraizada na nossa formação política. Do culto à personalidade. Revela a desesperança na democracia e a descrença de que as instituições sejam capazes de darem conta das demandas tão urgentes e transformações estruturais necessárias em nossa sociedade.

A verdade é que, por mais difícil que seja dizer isso, no fundo, no fundo, nem direita nem esquerda acreditam pra valer na democracia burguesa como capaz de realizar os seus respectivos projetos. Podem até gostar dela, mas acreditar pra valer é outra coisa. Seja por que há quem acredite que apenas uma via revolucionária seria capaz de transformar estruturalmente a sociedade e produzir um utópico homem novo, além de um utópico “novo Estado”, ou mesmo porque existe quem tenha absoluto desprezo pelas liberdades e prefira um Estado violento e repressor que construa à força uma trégua em busca de uma igualmente utópica acomodação de classes. Para estes, a democracia pode ser até uma trilha a ser percorrida, mas não uma realização.

Bolsonaro atende à necessidade e o desejo de ordem institucional, a qual boa parte da sociedade se apega, inclusive e mais sensivelmente as camadas mais pobres e desprotegidas.

Nos dias de hoje se ouvem muitas anedotas políticas, todas elas jocosas e preconceituosas sobre o “pobre de direita”. Mas percebam, quando a ordem se esvai e predomina o descontrole, quem tem mais a perder? Obviamente os mais pobres.

Quem pode se dar ao luxo de viver a vida despretensiosamente e de maneira quase que inconsequente? quem tem maior ou menor nível econômico e social? Nesse caso, quem tem mais poder econômico se vê mais protegido diante de diferentes eventualidades.

Quem vive pra valer o seu cotidiano em meio à criminalidade e lida cotidianamente com a violência, quem vive nos bairros pobres ou nos bairros ricos? Ora, quem vive nos bairros mais carentes experimenta a violência quase que cotidianamente.

Quem tem toque de recolher e hora para chegar em casa? Quem já está acostumado a conviver com esquadrão da morte, tende a ter tanto medo assim de uma ditadura? Quem tem de disputar os filhos com o tráfico de drogas e tem a igreja como um dos únicos refúgios, tende a dar maior ou menor valor às liberdades? Ter maior ou menor apego pela democracia? Onde tudo é tão perigoso. Onde tudo é tão frágil. Onde não se pode dar ao luxo de ser inconsequente, a ordem, a disciplina, a força, parecem ser promessas de um equilíbrio desejado, onde tudo é incerteza.

Curioso perceber que numa cada vez mais provável ausência de Lula nas eleições desse ano, as intenções de voto do ex-presidente não migram em sua totalidade para Ciro Gomes, Haddad, PSOL, ou qualquer outro candidato de esquerda. Bolsonaro também surge como uma personalidade capaz de se inserir como promessa de resolução dos problemas em que parte da população não acredita que podem ser sanados somente pelas instituições regulares, sem o papel de um interventor ou de um líder carismático.

Obviamente, não é o caso de comparar o simbolismo da figura mítica de Lula nas camadas populares da sociedade com esse fenômeno de reação e brutalidade que é Bolsonaro. Porém, sabe-se que o personalismo está muito vivo na cultura política brasileira e as personalidades extravagantes, como as de Bolsonaro, despertam interesse. Ainda mais em tempos de Fake News, opiniões absolutas, valorização do exagero e mistura entre a realização e as aparências nas redes sociais.

No mais, a população não se mostra afeita às soluções complexas. Difícil fazer com que o eleitorado entenda que dependemos de transformações estruturais na nossa sociedade que não seriam realizadas do dia para noite, sem transtornos e amadurecimento político, quando na outra ponta a proposição de supostas soluções simplificadas emergem com maior facilidade. Ainda que uma mudança de prioridades e uma revolução na educação do país seja uma necessidade que em linhas gerais é aceita e entendida por quase todos, a promessa de matar os bandidos e eliminar certos problemas de maneira supostamente instantânea, incrivelmente se mostra mais exequível e realizável em curto prazo.

No mais, o discurso de que “bandido bom é bandido morto” é uma espécie de resposta e consequência das promessas não realizadas do capitalismo e da meritocracia. Ou seja, o sistema promete (e não cumpre) que o trabalho duro, a disciplina, a crença e respeito à propriedade e devoção aos mecanismos de mobilidade social do capitalismo premiará os indivíduos com melhor posição na hierarquia social e maior bem-estar material. É possível concluir que um indivíduo que seja cumpridor dos seus deveres e absolutamente devoto ao sistema, sinta-se revoltado com quem vive fora da lei e despreza tudo aquilo que ele acredita e a que se dedica. Ele precisa continuar acreditando nas promessas as quais se engajou desde o início. Ainda mais quando o fora da lei avança contra sua propriedade e utiliza da violência contra quem obedeceu a ordem e aceitou o monopólio estatal da violência. Quando o indivíduo se desarma e aceita, ainda que à força, esse pacto em que o Estado tem o monopólio da violência; Quando aceita ser cumpridor dos seus deveres; Quando acredita caninamente na meritocracia; Tudo isso é como se o indivíduo tivesse assinado um pacto com o Estado. A quebra desse contrato, ou a incapacidade do Estado em honrar esse acordo, de alguma forma permite ao indivíduo que ele procure outras formas de reparação em detrimento da esperança que as instituições sejam redentoras façam a justiça que se espera delas.

Nas franjas das classes médias, existe uma nação de “desinstitucionalizados”. Uma grande massa de pessoas com pouquíssimos vínculos institucionais com o Estado. Trabalhadores informais, precarizados, sem representação política, Sem sindicato, sem acesso à justiça, sem prestação de serviços públicos adequados em Educação, Saúde, Previdência. Também sem apego às liberdades – liberdade, aliás, ameaçadora – e, como uma das consequências, sem apreço pela democracia e pelos direitos humanos.

Esse lúmpen da classe média que até tempos recentes acreditava ou ao menos reclamava um maior papel do Estado como indutor e promotor de desenvolvimento, emprego e bem-estar social, agora nutre perceptível desprezo pelo Estado e pelas instituições. O neoliberalismo produziu não apenas uma nova ordem econômica, mas em suas quase quatro décadas de existência, produziu também uma nova sociedade e um novo tipo de indivíduo.

É com esse novo indivíduo que as campanhas políticas estão tentando falar.

Não é raro surgir analistas que se arriscam a comparar precipitadamente o fenômeno da eleição de Trump, com a possibilidade de eleição de Bolsonaro. Não que os dois acontecimentos estejam absolutamente desconectados. Mas a tentativa local de se instalar uma espécie de “Fascismo Periférico” pode estar mais próximo da experiência das Filipinas com Rodrigo Duterte. A verdade é que, felizmente, Bolsonaro se apresenta, pelo menos até o momento, como uma figura muito menor e com capacidade muito mais limitada do que esses dois expoentes da miséria política dos nossos dias.

Provavelmente, nesse momento, Bolsonaro deve receber a companhia de quem se anima com a possibilidade de ver o candidato brasileiro repetir a façanha de Donald Trump. Essa turma deve vender ao Bolsomito pesquisas do “mercado eleitoral” que supostamente irão extrair o sumo do que pensam os Bolsosminions nos fóruns de internet. “Ah, porque o Trump usou a internet do início ao fim para vencer a eleição”. Sim, mas a ferramenta foi utilizada de uma maneira muito diferente. O tempo provou inclusive a participação de uma empresa que conseguiu dados sigilosos fornecidos pelo Facebook. Papagaiar os fóruns de internet é uma grande “cabeçada” de Bolsonaro. Seria preciso, antes de mais nada, perceber quem é esse eleitor suscetível a votar em Bolsonaro. A falta desse entendimento poderá custar a chance (que sim existe) do candidato ter uma vitória eleitoral.

Para entender o que une o caso de Trump com o caso de Bolsonaro: Isso nos obriga a prolongar um pouco a análise, mas creio que isso seja importante. O neoliberalismo, acompanhado do processo de Globalização traz consigo uma missão “recivilizadora”. Impõe mudanças na relação entre os homens e suas relações de trabalho. Retira direitos e garantias. O neoliberalismo é antes de tudo uma agenda.

Nessa onda globalizadora a chamada modernidade torna-se uma espécie de cruzada. Ela não respeita tradições, fronteiras e soberanias. Do mesmo modo que os Estados devem desregular seus instrumentos de proteção, que os trabalhadores devam aceitar com satisfação verem desregulados seus direitos, os indivíduos devem também desregular as suas “soberanias pessoais”. Para que prospere a agenda neoliberal, é necessário provocar os indivíduos a viverem nesse novo mundo onde o privado se sobrepõe ao público, o indivíduo à coletividade, os projetos pessoais às ideologias.

O rolo compressor da modernidade desrespeita tradições, não dá a mínima para os costumes. Exige um indivíduo apto a viver nos “novos tempos”. Faz com que as pessoas se sintam permanentemente inadequadas, buscando “instalar” dentro de si a “próxima atualização” para não se tornarem obsoletas ao mercado de trabalho e ao mundo.

Esse antigo trabalhador industrial que viu seu emprego desaparecer, seu status sucumbir, seus valores serem relativizados, suas experiências tornarem-se desnecessárias, seu modo de vida modificado, o mundo que lhe foi apresentado desaparecer a cada dia, seus costumes sem espaço, seu poder patriarcal questionado, a mulher que lhe “deveria” obediência não aceita mais lhe servir. Isso sem falar nos direitos que foram tirados, nas mudanças na divisão social do trabalho, nas transformações estéticas, na diversidade sexual. Esse personagem vem sucumbindo. Vem sofrendo derrotas. Perdeu poder. Tem profundos ressentimentos com a modernidade.

Ainda que o homem branco heteronormativo ainda esteja no “topo da cadeia alimentar”, no que se refere aos seus privilégios sociais, cargos, salários, renda, etc, esse ator social nunca antes esteve tão desprestigiado. Nunca antes teve seus privilégios tão questionados. Nunca antes outros atores gozaram de tanto prestígio e protagonismo social. Nunca antes a estética comportamental coletiva esteve tão descolada desse ser que em alguns seguimentos da sociedade parece ser hoje até mesmo antiquado e desinteressante.

Não é de surpreender, portanto, que haja uma reação, seja ela racionalizada ou mesmo intuitiva, por parte de alguns seguimentos mais conservadores da sociedade, interessados em restaurar as tradicionais hierarquias sociais. Não é absurdo concluir que para além das questões políticas já mencionadas, haja também uma reação fervorosa que coloca em voga as questões relativas ao comportamento.

O tema da violência urbana aparece ao lado da corrupção, que aparece ao lado do desemprego, que aparece ao lado da questão da autoridade, que aparece ao lado do machismo, da homofobia, dos direitos humanos, de eliminar as esquerdas. Tudo isso aparece junto, pois compõem o “drama” de quem vem perdendo poderes, prestígio, protagonismo, espaços, renda, autoridade.

Compõem também o drama de quem vivencia a dissolução das tradições, soberanias, códigos de conduta, comportamentos. Quando a modernidade se sobrepõe com valores, códigos, necessidades, e informações diferentes daquelas aprendidas e cultivadas pelas famílias e religiões, isso provoca um choque na vida mental dos indivíduos e necessariamente provocará também reações sociais e o desejo de conservação.

Isso não tem ocorrido apenas no Brasil. Vê-se isso nos quatro cantos do mundo e, não por acaso, o conservadorismo vem ganhando força. Essa combinação de desgaste da política tradicional, a incapacidade das instituições regulares de darem conta das demandas sociais, combinados com as derrotas impostas pela modernidade em parte significativa das populações, os desprezos pelas tradições e soberanias que a sociedade de mercado carrega, além do choque entre valores tradicionais e os valores da modernidade, vêm inflamando uma reação cada vez mais numerosa que não encontra lugar na política tradicional, no establishment político, nas convenções sociais, nem se reconhece e se vê nas grandes mídias. Vai cavando seu espaço à força justamente no que se passou a entender por “politicamente incorreto”. Ganha trincheiras nas redes sociais, fóruns, chats e se conforta quando se encontra no boca à boca do dia à dia. Isso sem contar o papel significativo das igrejas mais conservadoras.

Curioso perceber que a resistência mais “bem-sucedida” ao neoliberalismo veio de onde menos se esperava. Não foram as forças trabalhistas e progressistas que organizaram as populações e construíram os discursos triunfantes de resistência à globalização. Foram as forças mais conservadoras e atrasadas que ganharam espaço. Talvez porque seja mais fácil comover as massas com um discurso que depende menos de coerência do que construir uma crítica que dê conta de todas as vulnerabilidades políticas e sociais. As sociedades acostumaram-se com o instantâneo. Não querem fórmulas complexas. Na Europa e nos EUA é mais fácil culpar os imigrantes pelos problemas sociais e econômicos do que realizar uma crítica estrutural sobre a desregulação dos direitos dos trabalhadores, o baixo investimento em infraestrutura e o desmonte do Estado de Bem-estar Social, por exemplo. No Brasil, as transformações sociais oriundas da modernidade causam um impacto gigantesco, pois vivemos numa sociedade absolutamente hierarquizada e baseada no prestígio pessoal. Vivemos hoje numa grande maçaroca de ressentimentos coletivos vindos de todos os lados. O conflito e a intolerância viraram regra. O absurdo nunca deu tanto voto.

Isto posto, é possível dizer que existe algo que Trump entendeu e Bolsonaro talvez nunca entenda e, muito provavelmente, essa será a causa de sua derrocada.

Para além da verborragia torpe de Donald Trump, com suas manifestações estúpidas e odiosas, que infelizmente também tiveram seu apelo no eleitorado, sua campanha soube tocar os derrotados da globalização. Trump soube cavucar nas obscuridades da psicologia social, mas somado a isso, soube fazer um discurso político e econômico de enfrentamento ao establishment do mercado e da mídia.

Trump defendeu a renacionalização da economia americana. O fortalecimento da soberania de seu país, pouco se importando se isso também gerasse uma onda de refortalecimento das soberanias ao redor do mundo, inclusive se isso fosse de encontro com os interesses instantâneos (em uma primeira análise) do imperialismo estadunidense.

Trump defendeu (e sua gestão vai nesse sentido) a reindustrialização dos Estados Unidos. O resultado foi eficiente. Os estados que foram “desindustrializados” e as cidades que eram fortíssimas, mas que quase viraram fantasmas econômicos depois da desindustrialização ocorrida nas últimas décadas, garantiram a vitória de Trump. O candidato durante toda a sua campanha defendeu a recuperação da infraestrutura dos Estados Unidos, que incrivelmente dá sinais de sucateamento em algumas áreas. Tanto a desindustrialização como a precarização das infraestruturas são reflexos diretos da agenda neoliberal que triunfa desde o final dos anos 70. Trump teve de ser engolido e ainda causa mal-estar, não se sabendo ainda se será digerido ou expelido pelo Mercado e sua mídia.

Já Bolsonaro, aparentemente não tem recursos e atributos pessoais para ir além da verborragia torpe. Não sabe nada de nada. Não que não saiba responder questões mais sofisticadas como “spread bancário”. Não sabe sequer falar sobre balança comercial. Então se agarra em seus ideólogos que fazem medição de fóruns de internet e concluem que seu potencial eleitorado, por se opor ao discurso dos “esquerdistas” é apaixonado pelo ideário neoliberal e defende questões como a independência do banco central ou a intervenção estrangeira na Amazônia. Aí Bolsonaro vai e repete fazendo um discurso sazonal em cada lugar que visita, simplesmente por não fazer ideia do que está falando.

Já que Bolsonaro vive defendendo a Ditadura Militar brasileira, seria mais eficiente se defendesse os legados dos governos militares. Que defendesse a recuperação da infraestrutura nacional, a reindustrialização do país, a geração massiva de empregos, a segurança nacional, entre outros temas. O antigo candidato à presidência Enéas Carneiro, com poucos segundos na televisão, defendia essa pauta e ficou em terceiro lugar nas eleições de 1994 com mais de 4,6 milhões de votos.

Mas aparentemente Bolsonaro não dispõe dos mesmos recursos pessoais do saudoso Dr. Enéas. Felizmente, aliás.

Bolsonaro tem forte apoio em diferentes camadas da sociedade. Tem o momento político ao seu favor. Existe forte tendência do eleitorado para a escolha de candidatos que sejam “fora do establishment político”, ainda que Bolsonaro seja Deputado há décadas. Mas, por outro lado, falta apoio partidário e consequentemente pouco tempo na televisão. Bolsonaro vai se agarrar ainda mais na pauta que lhe trouxe até aqui e, ainda que seu discurso tenha forte apelo em alguns setores do eleitorado, a pauta estreita poderá evidenciar ainda mais os limites de qualificação do candidato.

Bolsonaro tem chance sim. O Brasil está no ponto para fazer uma besteira desse nível. Porém, felizmente, como alento, a miséria pessoal de Bolsonaro pode tirá-lo da disputa. Além da disputa política feroz, a precariedade de sua aliança partidária, o tempo de televisão e, principalmente, o fuzilamento que deve receber nos próximos meses para desocupar o espaço para outros candidatos da direita, mais interessantes ao mercado.

Aliás, caso resista até o segundo turno, incrivelmente, Bolsonaro poderá até mesmo decidir a eleição para um candidato do campo progressista.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O simbolismo da condenação de Lula

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Muito além do golpe. Além também dos grandes interesses embutidos no esforço político de sacar o PT do governo. Para além das grandes negociatas que se deram e se darão na calada das noites. Além da tragédia social que se avizinha.
Para além de tudo isso, a condenação do Lula é carregada de um imenso simbolismo que pode ser comparado com outros tantos episódios da história.
Até pensei em chamar de medieval a condenação de Lula, mas me dei conta que a História Antiga está repleta de episódios como este e, em verdade, eles jamais deixaram de ocorrer, até os dias de hoje.
Para homens como Lula foram construídos castelos e suas masmorras, calabouços, prisões, forcas, guilhotinas e paredões.
Cabeças como as de Lula foram degoladas e expostas em cidades do mundo, sob aplausos das multidões e fanfarras tocando marchinhas.
Lula jogou um jogo arriscado. Sua incrível inteligência, alinhada astronomicamente a um conjunto de circunstâncias permitiram a ele alcançar um posto desejado por muitos. Quase todos.
Esse cargo “não era pra ele”. Não para um retirante chegado na cidade grande no pau de arara. A existência política de Lula, durante certo período, poderia até ter suas funcionalidades para as elites econômicas e dirigentes. Sua eleição, que não era prevista, foi se tornando exequível e em dado momento inevitável, mas haveria de ser um enredo perfeito de fracasso e vexame a ser contado para as próximas gerações. A história do analfabeto que chegou ao poder. Que grande piada. Mas não foi assim que tudo ocorreu, como felizmente se sabe.
A subversão das velhas hierarquias sociais, por si só, já seria uma grande afronta que não haveria de passar em branco. Mas, o sucesso do Governo Lula foi imperdoável. Aquela fila de homens brancos, endinheirados e empoderados esperando para apertar mão do metalúrgico sindicalista... ah... nananina não. A lavadeira de São Bernardo nos salões nobres das dondocas. Isso não ocorreria sem uma grande revanche.
O Brasil nunca precisou de apartheid. Nunca foi usual cartazes e placas proibindo os negros de adentrarem em certos espaços. Nosso racismo é um sistema muito mais eficiente e sofisticado do que em qualquer outro lugar do mundo. Sabem por quê? Aqui todo mundo sabe se colocar no seu lugar! Não é isso que se diz? “Coloque-se no seu lugar”. E o Lula não se colocou em seu lugar. O sindicalista, que no Brasil, antes de mais nada é considerado um ingrato e mal-agradecido, por afrontar o patrão que lhe dá o que comer, não se pôs no seu lugar.
Lula não foi um mero serviçal das elites. Não que se tivesse sido um serviçal no poder seria absolvido. Mas Lula teve luz própria. Uma luz com grande brilho. Por outro lado, é bom que se diga, Lula esteve longe de ser um revolucionário. Foi um reformista. Um conciliador. Soube, como se dizia de Getúlio Vargas, ser pai dos pobres e mãe dos ricos. Mas, seu governo foi marcado por uma espécie de subversão coletiva de classes. Não somente o Planalto foi ocupado, mas outros tantos espaços, outrora exclusivos de uma casta privilegiada. Não que a mobilidade social e a ascensão de uma nova classe média tenha sido uma novidade histórica do Governo Lula. Porém, essa aliança política com o que alguns chamam de sub proletariado alavancado como um novo e decisivo ator político, mexeu com as bases da república. Desmontou sistemas de dominação que perduravam por décadas. Tremeu as bases do coronelismo.
Lula e o PT engendraram um sistema de alianças que resolveu uma questão eleitoral, mas esteve longe de resolver a questão do poder de fato.
Esse erro foi e continua sendo fatal.
É desse erro inicial de entendimento que se desencadeia essa tragédia composta por um conjunto de acontecimentos e que dá trabalho para analistas, sejam eles dos grandes salões, ou para os analistas vulgares de botequim, como se sabe, é o meu caso.
Desse erro inicial, a que me refiro, parte a suposição de que ser a mãe dos ricos garantiria alguma aceitação ao poder do PT. Besteira!
Provou-se equivocada a ideia de que os banqueiros e a classe empresarial, ganhando muito dinheiro, tornaria possível a construção de um pacto para o desenvolvimento social.
Provou-se equivocado o mecanismo de empoderar e endinheirar certa parcela da classe política, que supostamente estaria interessada apenas em enriquecer, construindo canais de irrigação de bilhões de dinheiros para financiamento do sistema político. Deu no que deu. Quando os rios de dinheiro que financiavam a governabilidade (que supostamente garantiria um bem maior) secou, essa frágil aliança sucumbiu e a governabilidade acabou. Nesse ponto, a Lava Jato foi cirúrgica em seu propósito. Soma-se a isso os erros desastrosos na condução política nos últimos anos do Governo Dilma. Mas, digamos que quando acabou a cerveja, acabou a amizade.
Provou-se também equivocada a suposição de que as classes médias urbanas seriam gratas ao governo pelo bem-estar material e pela bonança durante boa parte do período dos governos Lula e Dilma.
Seja com as elites, a classe política e a classe média, as coisas não deram certo simplesmente porque “não era só dinheiro”. Tratava-se também de poder e de prestígio. A classe pobre esteve e continua em sua maior parte com Lula - basta ver as pesquisas - porque esta sim se viu empoderada nos últimos anos. Não é apenas gratidão pela inclusão social e acesso aos bens de consumo. As classes pobres ganharam um protagonismo político jamais visto.
Em resumo, a condenação de Lula é também a história do fracasso da tentativa da concertação de classes.
Não que essa tentativa seja ausente de nobreza. É preciso ainda reconhecer, que se não fossem as qualidades conciliadoras do Presidente Lula, ele jamais teria alcançado o sucesso que alcançou e seu governo não teria tanta popularidade. A concertação foi também uma história de sucesso, até pela manutenção da ordem institucional. Não seria perdoado, caso o Governo Lula fissurasse essa ordem.
O erro mais grave [que termina na masmorra] foi certas personalidades políticas acreditarem que tinham construído uma "aliança" com as elites. Os mais tolos, inclusive, chegaram até a acreditar que poderiam controlá-la. Os deslumbrados imaginaram que faziam parte desta elite. Os vacilões se lambuzaram, apaixonaram-se pelo dinheiro, esqueceram quem eram e se tornaram bons vivans.
Não perceberam, que por parte das elites, essa aliança era meramente funcional. Tinha um propósito bem definido e, principalmente, prazo de validade.
Tão logo foi possível, colocaram todo mundo na cadeia. É simbólico. A história está aí para ser contada. Podem ter sido modificados os argumentos, os ritos jurídicos, os discursos, as formas. Mas quem retomou o poder mandou todo mundo para a jaula. Em outros tempos talvez seriam executados em praça pública ou seriam obrigados a usar máscaras de ferro.
Imaginem vocês o Palocci. Este se entregou gostosamente aos interesses dos grandes rentistas. Fez de tudo para vender o governo. Mesmo assim foi para a masmorra para que aprenda qual é o seu lugar.
"Ora, mas todos eles do outro lado são grandes corruptos travestidos de negociantes". Sim, mas "eles podem". Agora, quem ousou ocupar o castelo e se acreditar empoderado, foi parar na cadeia.
Não se trata de responsabilizar o Lula por todos os acontecimentos que desencadearam na sua condenação. Repito que a opção pela tentativa de concertação foi também uma história de sucesso e o Governo Lula deixa um legado histórico para o Brasil que será certamente reconhecido pelas próximas gerações e pela história.
Mas, serve também para que a esquerda aprenda muito com o ocorrido.
A condenação de Lula deixa nítido o modo de operação das elites. É, inclusive, uma condição necessária para sua existência e manutenção do status quo. Ou seja, não tem acordo. Eles querem tudo.
É inevitável pensar. Será que é possível transformar de fato as estruturas sem transtornos e decisões difíceis e ruidosas?
Na véspera da eleição de Lula, Regina Duarte foi à televisão dizer que "sentia medo" de Lula ser igual ao Hugo Chavez. Desde o início, o Governo Lula dedicou boa parte de sua energia para confirmar que o Brasil não seria uma filial do chavismo. Fez isso por uma questão política, mas também para combater os frequentes e danosos ataques especulativos contra a economia brasileira.
O medo era que o Brasil virasse uma Venezuela. Que o Brasil virasse uma Cuba. Será que o Brasil está tão melhor assim que essas nações do mesmo continente?
Será que não teria sido melhor ter tomado decisões difíceis e barulhentas como a Lei de Mídia, por exemplo?
A história está mostrando que sim.
Mas, aparentemente, o núcleo de governo efetivamente acreditou que teria algum reconhecimento das elites. Até o último dia. Efetivamente acreditou nessa aliança e não entendeu a natureza funcional dela. Será que não teria sido melhor Lula ter aprovado no congresso, quando tinha 80% de popularidade uma reforma política mais estrutural?
Mesmo a possibilidade de ter aprovado o direito de concorrer a um terceiro mandato, como fizeram e fazem tantos governantes pelo mundo. Valeu à pena abrir mão para evitar a gritaria? Se tivessem sido compradas essas brigas, Lula certamente teria sido chamado de ditador, censor, que havia tolhido a liberdade de imprensa. O governo seria chamado de totalitário.
Depois que tudo aconteceu, é fácil falar. Mas devemos aprender com os acontecimentos. Adiantou esperar reconhecimento pelo caráter democrático do governo Lula? Adiantou esperar alguma consideração de quem sentava à mesma mesa? Aparentemente não. Acabaram de condenar Lula a doze anos de prisão. A praticamente morrer na cadeia.
Não se trata de defender ou acreditar que o melhor teria sido um golpe de Lula para se perpetuar no poder. Longe disso.
Mas é no mínimo burrice acreditar que "do lado de lá" tenha alguém que valorize de fato a democracia. Se valorizassem não teriam dado o golpe em Dilma, respeitariam a vontade das urnas, não tirariam Lula da disputa.
A história é contada pelos vencedores. Lula seria considerado totalitário pelo “terceiro mandato” e Angela Merkel democrática.
Não há personagens na história que tenham enfrentado grandes interesses imperiais que não sejam tratados pelo discurso hegemônico como “mocinhos”. Fidel é ditador, Che Guevara assassino, Mandela era terrorista. Depois o transformaram num senhorzinho pacifista inofensivo. Por outro lado, há galerias de presidentes e líderes políticos escravocratas, torturadores, sabotadores e genocidas com suas estátuas repletas de flores, recebendo tratamento de heróis históricos. Assim funcionam as elites. Eles não se envergonham de nada que fizeram. Exterminaram civilizações, mas escreveram seus livros para contar histórias de bravura.
E nós, ao que parece, acreditamos nesse discurso construído pela burguesia. Não desagradamos tanto, na esperança de recebermos um tratamento digno como presente de reconhecimento. Isso não é possível. Quem tiver interesse, vista a carapuça de idealista ingênuo, escolha cinco ou seis frases que não desagrade tanto os grandes barões e quem sabe seja selecionado como um dos tantos esquerdistas de estimação das elites. Certamente haverá um ou outro convite para coquetéis onde existem cotas para “comunistas domesticados” que sabem se comportar. Ou, se preferir, fique no seu lugar de fala em alguma sala fechada de universidade falando sobre os micros aspectos que interferem na formação de sua micro realidade. Quem não se interessa por exercer esses papeis, saiba que não tem massagem. É porrada! Se vacilar eles te colocam na cadeia e te eliminam!
A condenação de Lula deixa grandes ensinamentos. A história continua sendo escrita. As elites, burras ou não burras, não vacilaram em jogar fora talvez a única personalidade com capacidade e condições de construir uma trégua social entre classes. Trégua essa que previa inclusive a manutenção dos privilégios e dos grandes lucros de quem manda nesse país a tantos anos. O recado foi claro: não tem acordo. Não tem concertação. O Mercado não quer no Planalto nada menos que um funcionário obediente que seja despachante de seus interesses.
Hoje predomina o desânimo. Mas é importante entender que estão condenando um grande negociador político. As lutas sociais não são apenas de Lula. O presidente é um catalizador de demandas históricas da nossa sociedade. É alguém com capacidade de aglutinar essas demandas e institucionalizá-las dentro das regras do jogo político. Mas essas lutas não deixarão de existir pela ausência de um negociador (que foi descartado). Na verdade, essas demandas tendem a explodir. O que agora parece marasmo, logo irá transbordar, talvez de maneira incontrolável. E as lições históricas que ficaram deixam uma delicada mensagem ao povo que no futuro talvez não seja tão interessante assim negociar. Estamos construindo a cada dia um país mais intransigente. E, certamente, o cultivo da intransigência trará consequências. Estão semeando tempestades.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O nosso nome é Corinthians

- Julho de 2017 

Por onde quer que eu ande, meu nome é Corinthians. Pelas ruas, tanto faz o meu nome próprio. Mas saibam que isso é um grande motivo de orgulho. Mais legal ainda é perceber que não sou o único. Em todos os lugares onde vou, encontro homônimos. Somos milhões de “Corinthians” espalhados pelo mundo. Basta estender o braço para um aperto de mãos sonoro, estalante, firme e sincero:
- E aí Corinthians, como é que você está?
- Eu tô bem Corinthians, e você?
- Ah Corinthians, sabe como é… na correria! E o Corinthians?
Aí sim, na terceira pessoa, intuitivamente percebemos que quando ouvimos “o Corinthians”, refere-se enfim ao Sport Club Corinthians Paulista, do qual fazemos parte de maneira visceral, orgânica e espiritual.
- Ah, Corinthians… o coringão tá foda. É só alegria. Corinthians, eu vou nessa porque o bagulho está descabelado no trampo.
- Firmeza, Corinthians, eu tenho que ir embora também.
- Valeu, Corinthians. É nois.
- É nois!
E partem cada um numa direção diferente, lutando pelo pão de cada dia, porém felizes por aquele breve e instantâneo encontro. Sem perceberem, disseram “eu te amo” um ao outro.
É uma satisfação incrível. A gente chega à padaria e o rapaz atrás do balcão já fala bem alto pra todo mundo ouvir: “Fala aí, Corinthians”. Você percebe que estão todos te olhando. Alguns sorriem de maneira afetiva, outros apenas baixam lentamente seus olhares:
- Melhor impossível! – você responde.
- Coringão tá foda, né?
- O bagulho ficou louco!
- É nois! Pão na chapa e uma média?
- Acho que hoje eu vou de misto quente. Manda também um suco de laranja. Ah, um café expresso.
E o lanche vem bonito. Deliciosamente recheado. O suco de laranja vem até com aquele chorinho num copo separado. Café bem tirado. Os sorrisos afetivos que se espalhavam pelo local se aproximam de você pra trocar uma ideia sobre as novidades do Mosqueteiro do Parque São Jorge, ou mesmo para contar as histórias dos jogos antigos. Os olhares resignados assim permanecem, apenas nos suportam.
E assim você segue seu dia. Chega na portaria do prédio e logo escuta: “Fala Corinthians, bom dia”. Entra no escritório e o ambiente se divide. Uma parte tem liberdade com você, independente da função que exerça. Pode ser diretor ou faxineiro. Ele sabe que basta chegar à sua mesa e dizer “Corinthians, tudo bem?”, tocar no seu ramal e sem desnecessárias introduções ou apresentações, iniciar a conversa dizendo “Oi Corinthians, deixa eu te falar…”. Com outros não. Faz-se necessário um nível de formalidade maior e atenção aos trâmites, normas e minúcias dos procedimentos. Fazer o quê? A vida é assim…
E quando você descobre que a garota dos seus sonhos tem tudo a ver com você? Que vocês têm mais em comum do que imaginavam?
- Oi Corinthians, tudo bem? – fala ela numa melodia doce e te abre um sorriso lindo.
- Oi Corinthians, meu amor. Você tá cada dia mais linda.
- Ah, Corinthians, para com isso, você diz isso pra mim e pra torcida inteira.
- Que nada, meu amor. Você bem sabe que eu sou Fiel desde que nasci.
- É da Fiel eu sei que você é mesmo.
E os dois riem satisfeitos.
Mas quando o amor é pra valer, a coisa fica muito mais séria:
- Ah, Corinthians. É foda porque eu te amo demais.
- Também te amo, Corinthians. E vai ser pra sempre. Por toda minha vida.
Passam uma linda noite juntos e colados, sem se importar com o calor. Se abraçam afetuosamente. Transpiram mais um pouco. Gostam sinceramente um do outro. “Não te troco nessa vida por ninguém porque eu te amo, eu te adoro, meu amor”. Quando enfim estão extasiados e completos, olham um para o outro com um sorriso safado e dizem juntos “Vai Corinthians!”
- Amanhã é aniversário da minha mãe.
- É verdade! Mas tem jogo do Corinthians bem no horário.
- Ah, então tá bom. A gente passa mais cedo pra dar um beijo e deixa um presente pra ela.
- Boa! Fim de semana a gente leva ela pra jantar. Vai ter jogo de novo? É no sábado ou no domingo?
- No domingo. Mas a gente a leva pra comer uma feijoada no sábado, certo?
- Certo.
Mas não é sempre com carinho que nos chamam por “Corinthians”. Tem os “antis” que quando a gente aponta na mesma calçada já dá pra ler o pensamento: “puta que pariu, lá vem o Corinthians, justo hoje. Tá insuportável”. Inevitavelmente você chega perto dele e ouve em tom nervoso:
- Fala o Curinthia (sem conseguir disfarçar a fúria que transborda no canto dos lábios e na testa franzida). Tá feliz, né?
Você responde sem querer pisar muito no calo do rapaz: “Opa, sempre. Só alegria”. Vai embora sem prolongar muito a conversa, mas consegue ouvi-lo resmungando em sussurro: “O cara é legal, mas sai pra lá, Corinthians. Deus que me perdoe! Dá vontade de sumir!”.
É como se fizéssemos parte de uma sociedade secreta, mas acontece que somos muito escancarados. Então não dá pra ser sociedade secreta. Estamos mais para uma grande irmandade.
Somos “Os Corinthians”. Dá pra entender porque o apóstrofe do “Corinthian’s team” foi abolido e numa aportuguesação maravilhosa nos fizemos Corinthians, ao mesmo tempo plural, singular e com uma possessividade coletiva.
Temos uma incrível sensação de pertencimento. Temos instrumentos de solidariedade indestrutíveis. Temos um destino compartilhado. Padecemos das mesmas dores e também nos emocionamos nas mesmas alegrias.
Compartilhamos dos mesmos sonhos para o futuro. Sinceramente nos amamos. Gostamos de estar próximos uns dos outros. É uma grande alegria quando nos reunimos nos dias de jogos, seja no estádio ou em casa, fazendo churrasco ou dividindo o mesmo sanduíche. Nosso lanche sempre vai ser dividido em dois, três, quatro ou cinquenta pedaços se necessário. E num milagre divino o lanche vai alcançar a todos.
A gente abre a porta da nossa casa para os outros Corinthians. Recebe a todos com muito amor. E gente também vai na casa dos outros Corinthians e nos sentimos à vontade. Abrimos a geladeira. Afinal, em todos os cantos da casa está estampado o nosso nome.
Nunca quisemos nada do Corinthians, ficamos suficientemente felizes somente por carregar o seu nome. Mas pare pra pensar, mesmo sem pedir nada, quanta coisa o Corinthians nos deu? Quantos amigos, irmãos e amores? Quanta felicidade carregamos em nossas vidas? O Corinthians nos dá a certeza que somos filhos de Deus.
O Corinthians nos fez irmãos e por isso carregamos todos o seu nome.
Somos milhões de xarás.
Muito prazer, nosso nome é Corinthians!


O sinalizador é só um símbolo, mas os símbolos tem poder

- Junho 2017


Entra em campo o Corinthians. A Fiel de pé recebe o time que aponta no gramado. As bandeiras tremulam na arquibancada. Um mar de bandeiras. No rosto do povo se vê o orgulho de quem levanta com a força dos braços a bandeira do timão. O barulho é ensurdecedor. Misturam-se na atmosfera o grito da torcida, os tambores rufando, os fogos de artifício. Eram muitos fogos! Explodiam em cima de nós. A gente gritava: Corinthians! Corinthians!
Gritávamos todos usando todo ar que dispúnhamos nos nossos pulmões. Toda força que emanava da garganta. Mesmo assim não conseguíamos ouvir as nossas vozes porque o barulho era muito alto. Eu era um menino. Mas se essa festa fosse hoje eu continuaria sendo menino. Desde a arquibancada não se via mais o campo. Apenas as bandeiras a nossa frente e muita fumaça. Na falta de outro material, eu trazia comigo um rolo de papel higiênico. Olhei para meu pai. Atirei com força o rolo para o alto segurando o papel. Vi o rolo descendo pela arquibancada. Era apenas mais um risco naquele mar de papeis e panos alvinegros.
Olhava para os lados. Via o povão. Gente verdadeiramente simples. Gente desdentada. Com cara de pobre. Quem não era pobre ficava junto e se abraçava. Ali era uma favela só. Um senhor que eu não conhecia, do nada me segurou pelos braços e me levantou. “Corinthians! Corinthians! Corinthians” gritava com os olhos arregalados em minha direção. Era muito especial participar de tudo aquilo.
Acidentes poderiam acontecer? Não sei. Segurava a mão do meu pai. Certamente nada me aconteceria. Correr aquele risco do imponderável em meio à multidão me fazia um soldado. Sentia-me já um homem. Estava feliz naquela atmosfera. Eu era cúmplice de toda aquela gente que nunca havia visto na vida. Naquele momento eu tinha certeza que fazia parte de um povo. Que não estava só. Havia um sentido de coletividade que eu não conseguia entender direito àquela altura da vida, mas se construiria e se edificaria dia após dia na minha vida. Eu era Corinthiano! Mais um Corinthiano no meio daquela massa.
Meu sovaco suava. Sentia o cheiro da minha camiseta na altura das axilas e sentia um cheiro forte de suor que saía de mim. Olhava de novo para o meu pai e ele sorria. Sentia-me livre. Eu podia gritar o palavrão que quisesse. E assim eu fazia. Não deixava por menos. Porra, caralho, torcida de cuzão. Quem manda nessa porra é a torcida do timão! Por-cú Vai tomar no cú! Segunda-feira é terça-feira, filho da puta é quem torce pro Palmeiras! Ouvia o xingamento de resposta, vindo do outro lado da arquibancada. Era legal. Era o sentimento de liberdade. Era a diversão que meu pai podia pagar. Porém, mesmo que ele pudesse pagar outra coisa mais sofisticada, eu não queria. Bastava me levar ao jogo do Corinthians.
Havia chegado às 13h. Esperava três horas olhando para o gramado. O melhor momento era a festa da torcida quando o Corinthians subia para o campo. Dali a pouco estourava o último rojão, sempre o mais grave de todos: BUM! Subia a fumaça para o céu. Todos gritavam Vai Corinthians! O jogo iria começar. Passada aquela bagunça toda ninguém havia morrido. Ninguém havia se machucado. Era só uma festa. Havia um sentido muito especial. Não era a festa que haviam feito para nós. Era a festa que a Fiel tinha feito para o Corinthians. Tratava-se de ser ativo e participativo. De interferir na história. De ter protagonismo. De existir. Tal qual aquele último morteiro da bateria de fogos: BUM!
Eu acordo em 2017 e vejo a arquibancada vazia. A festa acabou. Estamos na ilegalidade. Fomos proibidos de ser quem somos. De ter cultura própria. De fazer aquilo que se gosta e que faz sentido na nossa vida. De existir. Devemos nos adequar aos novos tempos. Precisamos ser recivilizados pelo neoliberalismo. Estar adaptados às leis de mercado, já que o futebol é mercado. As leis do mercado, exteriores ao que é humano e sua natureza, funcionam como a lei de um império distante, que esmaga quem somos e nos obriga a seguir leis estranhas que não nos fazem sentido.
É evidente que o tal sinalizador não é um problema. Mas se tornou um símbolo. E os símbolos tem poder.
Acender um sinalizador não é um gesto em si mesmo. Quem acende quer dizer algo. É um grito de liberdade. De autodefesa. De rebeldia. O gesto legítimo de desobediência que brota quando não acreditamos em uma lei estúpida. Quando a lei imperdoavelmente entra em atrito com os costumes e a cultura. Quando uma lei vai de encontro com outras leis fundamentais que nos garantem a liberdade e a livre expressão.
Porque a livre expressão não pode por em risco blá blá blá. Da mesma forma de que para quem acende o sinalizador é apenas um símbolo, para quem quer proibir também o é. O proibicionismo e a policialização do Estado se servem de diferentes medos e angústias que estão na sociedade para controlar, eliminar convergências, encontros, rebeldias, insubordinações, confabulações, formulações e sentido de liberdade.
A borrachada no povo que acende sinalizador provoca aplausos dos espíritos servis. As multas aplicadas pela justiça desportiva deixa nítido que ela está a serviço de outros interesses grandiosos, pois nos divide. Joga-nos uns contra os outros. Cria desentendimentos. Deixamos de refletir sobre o mérito das coisas. Se a luta é justa ou se a justiça é repressiva. Passamos a culpar uns aos outros pela multa que o clube levou ou pela interdição de parte do estádio. Nos dividimos e perdemos a capacidade de questionar o absurdo que está ocorrendo.
Logo, a polícia recebe elogios da cobertura jornalística da imprensa velha por descer a porrada nos marginais que tomaram conta do futebol e tiraram as famílias de bem dos estádios. Sim, a tradicional família branca. Aquela que detém o poder. Que é dona de tudo e de todos. Das universidades, dos aeroportos, dos bairros bons e dos camarotes. As famílias que habitavam os estádios antes deles serem ocupados pela gentalha. Tal qual quando esse era o esporte da oligarquia. Quando filho de mãe solteira não podia entrar. Quando preto tinha que passar pó de arroz na cara pra poder jogar. Essa é a nostalgia dessa gente.
Amigo corinthiano, basta olhar um pouquinho para nossa história. O Corinthians nasceu justamente para derrotar esses preconceitos. Para se intrometer e estragar a festa da oligarquia paulistana. Somos necessariamente incômodos. Depois do primeiro título da nossa história em 1914, a liga aristocrática se dissolveu e formou outra liga sem o Corinthians, quase provocando o encerramento das nossas atividades. Por pouco não desaparecemos, depois de incomodar a tradicional família paulista. Não só resistimos como voltamos mais fortes e nos fizemos Corinthians justamente com a força do operariado e de quem não tinha lugar na sociedade.
Por favor, perdoem minha sinceridade. Respeito as diferentes formas de pensar. Mas não existe contrassenso maior do que corinthiano coxinha. Corinthiano aplaudindo a polícia batendo em corinthiano. Dá vontade de chorar, na verdade. Claro que o aplauso dura pouco. Logo em seguida existe a pausa para mais uma self, fazendo biquinho com a torcida organizada ao fundo, como paisagem.
O problema não é o sinalizador. Ele é só um bastião. O que está em jogo é justamente esse sentido de liberdade que descrevi no primeiro parágrafo. O protagonismo. É a gente existir como povo.
O que está em jogo é nos transformar em espectadores enquanto insistimos em ser agentes. É transformar em espetáculo o que é um acontecimento histórico. E destruir os instrumentos de solidariedade que nos une. Que sejamos apenas seres individuais e individualistas sem nenhum sentido de coletividade e pertencimento. É o direito de protestar, gritar, xingar, nos expressar em faixas, camisetas ou berros. Nossas vozes precisam ser caladas. Temos preservado o direito de aplaudir. Isso sim. Seja no Estádio, seja no Estado. Aplaudir é o que nos cabe. As vozes que podem permanecer são tão somente aquelas que são mediadas pelas elites. Que escolhem por nós o que cantar, o que dançar, o que vestir, o que comer e que horas devemos dormir.
O Corinthians deveria ser sabedor de seu tamanho. Ao invés de ficar pagando multas que irrigam os cofres da CBF, deveria assumir sua responsabilidade histórica e não apenas ser reativo. Não existe problema da torcida. Primeiro porque a torcida não é um problema, como alguns querem acreditar. Segundo porque não existe torcida e Corinthians como coisa separada. Corinthians e torcida são a mesma coisa. Somos Corinthians, no plural. Somos os Corinthians.
Se isso serve na hora de negociar as cotas de tevê, deve ser também no momento em que é necessário que a instituição represente seu povo frente aos órgãos competentes. Até porque o clube é o maior lesado pelo proibicionismo que toma conta desse estado. O Corinthians tem frustrada grande quantidade de receitas que poderiam ajudar a pagar a Arena porque não pode realizar eventos no entorno do estádio. Aquela tal Fan Fest. Não pode porque onde há povo, onde há aglomeração, onde há encontro e convergências, há também intervenção policial. É assim que funciona esse estado. E o Corinthians aceita passivamente. Não assume o seu papel e desconhece o tamanho que tem. Não é favor nenhum ter o Metrô meia hora a mais depois do jogo. Quem está ali no estádio é o povo brasileiro. É quem sustenta esse estado e merece respeito.
A luz que se levanta não é a de um material descartável inofensivo comprado em qualquer loja de festa. A luz que ilumina a Fiel Torcida Corinthiana é a chama da liberdade. Esse mesmo artefato, quando aceso em outras torcidas do Brasil e do mundo, não causa incômodo algum. O que se quer apagar, na verdade, é a força e o espírito rebelde da torcida do Corinthians. Querem nos calar.
Podem apagar os sinalizadores, aplicar multas, interditar espaços. Nunca poderão apagar aquilo que está no nosso coração e na nossa mente. O que ilumina nossa arquibancada são as ideias da nossa gente. É o amor que a gente tem no coração. Jamais vão poder apagar aquilo que guardamos na memória. Aquilo que vivemos com o Corinthians. A nossa história. A nossa cultura. O que faz sentido para cada um de nós. Essa é nossa vida. O Corinthians é o que nós somos. O que está na cabeça da nossa gente, para sempre estará aceso! Essa chama jamais se apagará!