segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O sucesso do seriado Chaves é a falta de vocação capitalista na América Latina.


Desde os anos 80 nos habituamos a assistir no Brasil o programa do Chaves.
É delicioso gargalhar com situações que vimos em repetidos episódios, mas que nos surpreendemos hipnotizados, mesmo já sabendo antecipadamente o final da historinha.
E em toda América Latina ocorre o mesmo. O seriado El Chavo Del Ocho mobiliza a atenção de milhões de pessoas de todas as idades.
Mas qual seria o segredo do Chaves?
Qual o vínculo entre seus espectadores em todo o continente tornando possível que o seriado permaneça tantos anos no ar?
De uma maneira geral, o Brasil absorve pouco conteúdo artístico de seus vizinhos de língua espanhola. Mas por que mesmo sendo dublado, o programa mantém a sua originalidade?
Os povos da América Latina têm uma espécie de origem e de destino compartilhados.
Os personagens do seriado Chaves retratam uma falta de vocação capitalista, muito particular aos nossos povos que séculos atrás sofreram um duro processo colonizador, recebendo de repente, sobre nossas cabeças, uma construção histórica européia que se impôs como um modo de vida estranho às nossas populações que seriam resultado de uma “ninguendade”, como dizia o professor Darcy Ribeiro.

O Chaves é um menino latino americano. Filho de ninguém. Sem origem e sem teto. Sem um lar, vive de favor e de maneira precária sob os “benefícios” de quem permite que ele se instale em uma terra que não é sua. Mantém uma relação de afetividade com seus algozes que vez por outra também se apresentam como seus protetores.
O grande personagem do seriado é o Seu Madruga. Vagabundo, não consegue incorporar o trabalho enquanto um valor e uma virtude. Ocasionalmente, atua como marceneiro ou como artesão, mas não consegue se adaptar à realidade de trabalhador industrial. Sua filha Chiquinha é rebelde, malcriada e irreverente, faz sempre questão de demonstrar seu incômodo com a realidade em que está inserida.

Madruga é perseguido pelo dono da pensão. O senhor Barriga revela o outro lado da falta de vocação capitalista. Faz vistas grossas aos inadimplentes e na incapacidade ou impossibilidade de receber os aluguéis em dia não consegue melhorar a estrutura da vila que permanece como um cortiço. Pode ser também que ele prefira estabelecer um acordo tácito com seus inquilinos. Demonstra uma aparente compreensão com os problemas financeiros dos moradores se colocando na figura de protetor, o que o desobriga de ser eficiente na manutenção da vila que está sempre precária.
A Dona Florinda e o Quico querem destacar sua origem supostamente diferenciada dos demais inquilinos. Compartilham o mesmo território e a mesma realidade, mas eles nunca se aliam aos seus vizinhos e viram as costas para suas demandas, ainda que porventura se beneficiassem desta aliança. Tudo por conta do medo de se misturar a esta gentalha. Gentalha, gentalha.

A Dona Florinda prefere a companhia do Professor Girafales. Arrogante e nada modesto, quando está fora da sala de aula, faz questão de usar o conhecimento como elemento de superioridade sobre os demais. No entanto, quando está na sala de aula se dá conta de como as mazelas sociais e a carência impedem seus alunos de absorverem suas lições e se desespera, ficando inevitavelmente frustrado.
O seriado Chaves, além de tudo tem situações engraçadíssimas e diálogo simples. Há espaço para a fantasia e para as superstições quando os personagens temem os fantasmas e a bruxa do 71.
 Estes e outros aspectos revelam muito sutilmente como nós, latino americanos compartilhamos de um mesmo incômodo original e buscamos de alguma maneira encontrar a felicidade construindo um modo de vida que nos faça sentido, ainda que de maneira muito precária.



  




25 comentários:

  1. Agora voc~e se superou com esta analise de comunistinha de merda que você tem numa coisa q naum tem nadave ese negocio do chaves... MALA

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    1. O covarde aí por acaso é dono dos meios de produção ? Ou mais um explorado ressentido ?

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  2. sudornelles@gmail.com15 de agosto de 2011 01:02

    ótimo texto!!! Tua análise foi perfeita, na minha modésta opinião.Parabéns!

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  3. Análise muito interessante.

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  4. Via Chaves apenas como um humor simples,sutil,e 'engraçadinho'-sem menosprezar-,mas nunca com esta perspectiva.Muito interessante sua análise!

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  5. Seus amigos inda defendi vc... mas naum adianta pq vc é comunista e o comunismo já acabou e vc só fala merda. O que tem a ver o Chaves com politica capitalista rapá

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  6. Gostei muito! Análise precisa da reflexão social embutida no seriado. Ele é realmente infalível. Atemporal, conquista qualquer um que assista, os jargões pegam e a identificação mesmo despercebida acontece. Parabéns!

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  7. Nunca li tanta merda junta! Vai pra cuba e ve se o Chaves passa lah seu comunistinha de merda!

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  8. Querido Anônimo. O Chaves passa em Cuba sim. Quando eu digo que falta vocação capitalista na América Latina, não faço defesa do socialismo ou de outra ideologia qualquer. O que eu digo é que nosso modelo de organização econômica falha justamente em contruir um modelo de capitalismo eficiente. A América católica sempre precisou de ridículos tiranos porque a burguesia destes países jamais foi eficaz na contrução de um modelo liberal capaz de desobrigar a interferência do Estado para construir as coisas de cima para baixo,
    De qualquer forma, obrigado pelas constantes visitas. Rafael Castilho

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    1. Falou o 'calvinista'...rsssss...a mão invisível ficou te devendo uma educação de qualidade hein ?

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  9. Ou talvez Chaves e sua trupe representem os excluídos do sistema, a periferia desassistida pelo estado...daí essa grande audiência do seriado.

    P.S.:caro RC, tenho observado que para ser blogueiro é preciso ter o fígado intacto para aturar os xucros, boçais, "trolls", covardes anônimos e paus-mandados da ultradireita etc. O que deveria ser uma troca de idéias, acaba sendo contaminado por um festival de bestialidades.

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  10. Um modelo de organização ou de desorganização, também reforçado pela influência católica que apregoa a pobreza como virtude, e uma maior propensão à solidariedade para superar as dificuldades. Os mais abastados (típicos tucanos) são ao mesmo tempo mais egoístas e menos sociáveis, tal como na nossa sociedade real, só falta sonharem em morar na Europa ou nos EUA (aonde esses brasileiros que não se misturam com gentalha, quando chegam lá, só fazem vergonha, tomam banho no chafariz, ficam berrando e fazendo algazarra pra todo lado, tal como o que tanto criticam nos "suburbanos" aqui, lá logo se soltam e fazem o mesmo, e ainda muitos se submetem aos empregos mais ralés possíveis só pra ganhar em moeda estrangeira, ainda bem que essa crise veio mudar essa realidade) no seriado pra ficar perfeito.

    O comentário está brilhante e permite ótima reflexão, parabéns!

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  11. Acho engraçada sua tentativa desesperada de parecer um colunista respeitável e culto, que vê além do que todo mundo vê. Relaxa, cara. Assuma-se como mais um ser mediano nesse mundo e seja feliz.

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  12. Ser respeitável é uma consequencia necessária de quem respeita. Portanto, depende menos do seu gosto e mais do meu comportamento. Quanto ao fato de ser médio isso não me atormenta de forma alguma. Aliás, ser médio é muito confortante, pior seria ser medíocre. Quanto a isso faço o possível para superar a mediocridade. Mas confesso que é difícil.
    Ass. Rafael Castilho
    (obrigado pela visita. Volte sempre!)

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  13. Uma pessoa formada (de verdade) em um curso de Ciências Sociais nunca será mediano, sempre verá o mundo de uma maneira mais profunda e mais analítica do que outras pessoas. Falo como socióloga, roteirista e ser humano "feliz" que ri enlouquecidamente toda vez que assiste Chaves em Acapulco. Parabéns, Rafael. =)

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  14. Análise interessante, Rafa. Apesar de não achar que o capitalismo latino americano seja tão incompetente assim, já que a exclusão faz parte do processo. Mesmo assim, achei legal.

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  15. gostei...se não tiver critica mesmo que idiota não tem graça ne Rafa?kkk

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  16. Ótimo texto, na minha opinião. Ainda fico estarrecida com a capacidade do ser humano de ser ofensivo. Quanta raiva e frustração!! Se não concordam, apresentem argumentos. É que isso é muito difícil para alguns. É mais fácil xingar!
    Parabéns pela análise, Rafael!

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  17. "Os personagens do seriado Chaves retratam uma falta de vocação capitalista, muito particular aos nossos povos que séculos atrás sofreram um duro processo colonizador, recebendo de repente, sobre nossas cabeças, uma construção histórica européia que se impôs como um modo de vida estranho às nossas populações que seriam resultado de uma “ninguendade”, como dizia o professor Darcy Ribeiro."

    Vc é índio? Eu não sou. Vc diz: nossos povos, nossas cabeças... a América Latina faz parte da civilização ocidental européia, em algum país ou outro, pode ser muito mais forte ou um pouco mais fraco, mas TODOS NÓS SOMOS OCIDENTAIS QUE HERDAMOS CULTURA DE PORTUGAL, ITÁLIA E ETC! Sugiro que vc se retire para o meio do mato, deixe de comer arroz, leite, pão, sorvete, lanches e tudo mais que nos foi "imposto". Vc odeia essas "imposições" tb? Ande pelado... Suas roupas podem até ser brasileiras, mas herdou cultura branca oriunda da Europa.
    Não deixe esses esquerdistas tolos fazerem a sua cabeça não, rapaz.. Liberte-se! Pare de odiar a Europa e os EUA.

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  18. Um dos textos mais lindos e lúcidos que eu li nos últimos anos.

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  19. Procurando a parte do texto em que o RC diz odiar a Europa ou EUA.
    ...

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  20. Análise perfeita. Elucida o "mistério" da preferência nacional pelo seriado. Parabéns!!!

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